Piracicaba no tempo dos remadores e canoões

Piracicaba no tempo dos remadores e canoões

Piracicaba nasceu fazendo canoa. Antes de ser a cidade da Esalq, do Engenho Central e do Salão de Humor, ela foi um estaleiro à beira de um salto, um lugar onde se cavavam troncos para que outros homens fossem morrer longe, nas minas de Cuiabá. Mário Neme, na sua “História da Fundação de Piracicaba”, de 1943, mostrou que a povoação foi pensada exatamente para isso, ser grande fornecedora de canoas e, depois, de gente para povoar as margens do Tietê até o Paraná. O Morgado de Mateus nomeou Antônio Correa Barbosa povoador em 1766, sendo o próprio um construir de canoas, conta a documentação que Neme garimpou, aproveitava as excelentes madeiras que por aqui ainda existiam, que já rareavam em outras localidades. Quem hoje atravessa a ponte e olha o rio raso, talvez não imagine, mas dali desciam embarcações de quase quatorze metros.

Os canoões não eram barcos de tábua pregada, e sim um tronco só, escavado a ferro e fogo, o que os estudiosos chamam de monóxila e o caboclo chamava de canoão. Sérgio Buarque de Holanda, em “Monções”, de 1945, defendeu que essa embarcação foi invetada sob medida para o Tietê e suas mais de cem cachoeiras. Usava-se peroba ou timbaúva, madeiras teimosas. O bicho mediria de onze a quase dezesseis metros, levava perto de noventa sacos de mantimento no bojo e ganhava um toldo de lona contra a chuva e o mosquito. Leandro Guerrini, na “História de Piracicaba em Quadrinhos”, lembra que já em 1729 a vila era ponto de parada de quem subia para as minas, e Cecílio Elias Netto, nosso memorialista, insiste que aquela era uma vida muito primitiva, gente que vivia da natureza, que tinha no peixe do rio a alimentação básica.

De Araritaguaba, a atual Porto Feliz, descia-se o Tietê até o Paraná, subia-se o Pardo, no varadouro de Camapuã largava-se a água e arrastava-se tudo por terra, canoa e carga, treze quilômetros, para cair na outra bacia, pegar o Coxim, o Taquari, o Paraguai e enfim o rio Cuiabá. Eram três mil e quinhentos quilômetros. O capitão João Antônio Cabral Camello, num relato de 1727 que Taunay salvou nos “Relatos Monçoeiros”, descreve os saltos do Tietê com nome e tudo, o Avanhandava, o Araracanguaba, o Itapura, e a ordem era sempre a mesma, “varam as canoas por terra pela parte direita e com elas as cargas”. Varar é palavra para dizer carregar quatorze metros de tronco no ombro, e depois fazer de novo no salto seguinte.

Quanto tempo durava? O mesmo Cabral Camello conta que na volta gastou seis meses e um dia, e ainda avisa que aquilo fora demais, que o comum eram quatro meses, fora os perigos: a cachoeira que emborca a canoa, a febre, a fome, o mosquito que, segundo o relato, não deixa ninguém sossegar de dia nem de noite se você não dorme em rede com a tolda bem fechada. E havia a guerra, que a documentação oficial disfarça sob a palavra “gentio”. O Paiaguá no Paraguai, o Caiapó no Tietê e no Pardo. Numa carta do Morgado de Mateus, de 1772, o governador manda aprontar canoas e mantimentos até a barra de Piracicaba e recrutar gente para “dar no Gentio Cayapó” que infestava a navegaçao, e despacha pólvora e chumbo no mesmo papel.

E quem remava, afinal? A tripulação de um canoão era um piloto, um proeiro e cinco ou seis remadores, que remavam de pé, como tinham aprendido com o índio. Os historiadores brigam sobre quem era essa gente. Silvana Godoy e Francismar Carvalho dizem que o peso maior era dos mamelucos, força de trabalho permanente da mareagem; Glória Kok puxa para os africanos escravizados. Os dois lados concordam que o saber do rio era indígena. E havia o trabalho arrancado à força. Foi Sermo Dorizotto, aliás, quem teve a paciência de reunir e anotar esses papéis em “Os Primórdios de Piracicaba”, de 2008e é num deles, uma ordem avulsa de 19 de junho de 1782 que aparece na página 32 do livro, que se manda o capitão da aldeia escolher “quatro índios dos mais robustos, e capazes de trabalho” para abrir caminho na povoação. Quatro homens sem sobrenome, sem retrato, sem nada. A monção inteira corria nas costas deles, e o monumento à beira do Tietê traz, é claro, o nome de quem mandou e não dos mandados. Conheci o Sermo por acaso.

Eu coordenava a Economia de Francisco, a iniciativa do Papa Francisco para se pensar uma economia mais humana, e numa das visitas ao prédio dos Frades, ao lado da Santa Casa de Piracicaba, encontrei um senhor cuidando da horta dos frades com toda a dedicação, ele mesmo um frade. Era o autor que tinha resgatado aqueles documentos do esquecimento. Quando contei que era historiador, largou a enxada e foi buscar um exemplar do livro, para me presentear.

 


Rafael Gonzaga é historiador, doutor em história social pela PUC-SP.

 

 

(Imagem de capa: A Curva do Rio Piracicaba, 1918. Joaquim Miguel Dutra. Óleo sobre tela, c.i.d.).

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