Piracicaba acordando?

Piracicaba acordando?

No dia em que Piracicaba comemorou seus 259 anos (1º. de agosto de 2026), escrevi um artigo, bastante pessimista, sobre a situação da cidade e suas perspectivas de futuro. Eu apontei, então, como fundamento para aquele sentimento negativo, o descaso com a biblioteca municipal, o aparentemente definitivo fim da Unimep (com a demissão do seu último “reitor”) e a ducha de água fria que foi o “presente de grego” recebido pela cidade do governo norte-americano, na forma de tarifaço sobre as exportações brasileiras para os EUA.

Nos últimos dias, todavia e felizmente, duas notícias me fizeram ver alguma luz no fim do túnel.

A primeira notícia foi a apresentação do projeto que a Drogal contratou, e pretende implementar ao longo dos próximos dois-três anos, ao ocupar o campus Taquaral, por ela adquirido em leilão recente. Segundo Marcelo Cançado, todo esforço possível será feito para preservar a memória da instituição, que não foi apenas um local de estudos, mas uma referência educacional nacionalmente respeitada, além de um lugar em que muitos piracicabanos passaram, na juventude, quando iniciavam suas trajetórias intelectuais e profissionais (inclusive o próprio Marcelo e o atual prefeito, pelo que entendi – não sabia), trajetórias que têm sio e seguirão sendo, evidentemente, pilares indispensáveis ao desenvolvimento local.

Entendi que o teatro Unimep será mantido, depois de reformado, e disponibilizado para uso de toda a comunidade; que a grande biblioteca será retomada, assim como a capela com seu órgão de tubo restaurado (e um piano já estava sendo afinado); que, por fim, um braço educacional da rede farmacêutica será criada, lançando-se mão de parcerias próprias para isso. Ao lado de tudo isso, a Drogal terá seu centro administrativo e seu centro de distribuição, que juntos prometem ser um polo gerador de numerosos empregos, quem sabe suplantando o volume daqueles perdidos com o fim da Unimep. Tudo isso vai além do que eu tinha sonhado num artigo que publiquei no ano passado, mas imaginando um intervenção direta da prefeitura – que não haverá, no caso, embora o prefeito tenha  manifestado, agora, seu apoio ao empreendimento. Acompanhar a movimentação para transformar este sonho das famílias Cançado e Lessa, que bem pode ser também um sonho a ser sonhado por todos os piracicabanos, vai ser uma boa aventura.

A outra notícia alvissareira foi a de que o prefeito Hélio Zanatra foi a Brasília, junto com empresários locais, para apresentar ao Presidente da República “demandas de Piracicaba ao Governo Federal para reduzir impactos do tarifaço.” Por que é alvissareira esta notícia? Dizem que há males (como o tarifaço) que vêm para bem (a mobilização de lideranças empresariais e política locais em defesa da economia local). Mas é melhor dizer que há males que podem vir para o bem, desde que o bem se mexa. Ou seja, o mal vem para o mal, o bem que se vire para evitar. E provavelmente podemos ver esta iniciativa do prefeito, junto com empresários locais, como sendo, no caso, o bem se mexendo.

O problema é se a coisa ficar só nessa, do tão característico municipalismo brasileiro (na verdade, prefeiturismo): limitar-se a reivindicar, passando a bola – ou melhor, a batata quente – para outro ou outros, acima, na estrutura federalista constitucional (governador ou presidente). Melhor seria, por exemplo, a comitiva se mobilizar para dialogar com o poder central do país a respeito de uma futura (e urgente) política industrial, na qual governos federal, estaduais e municipais, juntos, possam atuar, em intenso diálogo com as “força produtivas” e com as entidades educacionais e de pesquisa. Imagine um prefeito ou um grupo deles pegarem o rumo para a capital federal com um projeto desses debaixo do braço, pressionando para que, pelo menos, um grupo executivo seja criado e tenha prazo para apresentar propostas, quiçá dialogando com os departamentos universitários e centros de pesquisa que acumulam estudos a respeito! (E lá    este velho, eu, sonhando, de novo, como se fosse um rapaz!)

Uma política industrial tem que ter, necessariamente, um capítulo sobre importação e exportação – comércio exterior. Afinal, até mesmo os Estados Unidos andam se desindustrializando há anos por falta disso, engolido “suavemente” pela China, até Trump e seu grupo sentirem a mordida e reagirem freneticamente. E uma situação dessas, definitivamente, não se resolve com tarifaços e autoritarismo, com ameaças e represálias: Trump e os Estados Unidos pagarão caro por isso.

Numa política industrial nacional, a seção que compete aos municípios tem que ser explícita, pois do contrário seguiremos simplesmente criando distritos industriais amorfos do ponto de vista da competitividade, que passa por integração de cadeias e inovação tecnológica, focadas, adequadamente, no atendimento de demandas nacionais (principalmente as críticas) e na busca de ampliação da fatia brasileira no comércio internacional, qualificando os produtos da pauta de exportação, agregando-lhes maior valor.

Quanto à política de desenvolvimento local, a prefeitura tem que pensar a retomada do antigo pique industrial da cidade, mas sem simplesmente cair nos braços de empresas estrangeiras de porte, pois isso, em princípio é bom, mas cobra seu preço e aumenta os riscos oferecidos pela dinâmica da economia global (principalmente, sabe-se, quando se trata do ramo automobilístico, cujo futuro está em jogo). E sem ficar na ilusão de que pequenos capitais aplicados em terrenos doados (os tais distritos industriais) farão uma revolução. Sem política boa – incluindo por exemplo, apoio à gestão (escritório compartilhado, para isso, dinâmico e efetivo), incentivo à atuação coletiva (associação ativa dos investidores envolvidos), interação universidades-industrias, atração de startups etc. – não há muito o que esperar de pequenos e médios investimentos abrigados em distritos industriais municipais.

A política de desenvolvimento local deve abarcar não só a indústria, mas também agricultura/pecuária, comércio e serviços. Nesses casos, a interação com uma necessária política do governo central não se apresenta. Esses setores da economia local (menos, um pouco, agricultura e pecuária) surgem, funcionam e se desenvolvem (ou não) de acordo com a história e as dinâmicas atuais da própria cidade, ao sabor das iniciativas de milhares de cidadãos-empreendedores. Só para dar um exemplo: o comércio piracicabano. Ele vem sofrendo mudanças profundas no tocante aos itens comercializados (a cidade nunca teve tantas concessionárias de automóveis, nem tantas farmácias e drogarias, nem tantos pet shops etc.) e também quanto à propriedade do negócios (a cidade que tinha poucos supermercados, muitos mercadinhos, mercearias, açougues e quitandas, agora foi invadida por uma colossal quantidade de atacadões,” atacarejos” e hipermercados de redes nacionais ou regionais, atraídos pelo fato de Piracicaba possuir um dos maiores potenciais de consumo do país, junto com outras duas ou três dezenas de cidades. Tendo sido essa transformação do comércio local um processo que as “forças produtivas” do setor assistiram passivamente, pequenos estabelecimentos (muitos, bem tradicionais, até) fecham as portas diariamente, assustadoramente. Pudera! Tem gente grande ocupando o espaço, tem gente pequena empreendendo às cegas (e, portanto, de início destinada ao fracasso) e tem, enorme, a onda do e-comerce atuando, principalmente a partir da… China.

Uma política de desenvolvimento local só pode vir como resposta a uma crise, ao que parece, no caso de Piracicaba. E mesmo com crise atual (importada via tarifaço de Trump), pode nada acontecer, ou até ocorrer um aprofundamento dos problemas. Depende de como as “forças vivas” (políticas, econômicas, educacionais, culturais) de Piracicaba reagirão e se manterão agindo em seguida. Por isso, a notícia do prefeito e empresários indo a Brasília neste momento é uma esperança nas mãos de certos agentes locais.

Há muito mais a pensar, sobre os outros setores e sobre a articulação entre eles e deles com poder público, com as universidades etc., mas este é apenas um artigo para colocar a questão. Se a questão, todavia, não for percebida e tratadas adequadamente, ficaremos na reivindicação, na monótona e geralmente ineficaz reivindicação. Como há tanto tempo tem acontecido, por vários motivos que não cabe aqui listar, mas que têm a ver com o perfil dos poderes locais e das “forças produtivas” da cidade, hoje colocadas diante de um desafio que lhe exige reinvenção inteligente.(Política de desenvolvimento que articula setores e níveis do federalismo, Piracicaba ativa na busca. E lá vai este velho, eu, sonhando, de novo, como se fosse um rapaz!)

Estou, agora, à espera de uma terceira notícia: de que pelo menos troquem o globo quebrado da luminária que fica à frente das vagas para idosos da biblioteca “Ricardo Ferraz de Arruda Pinto” (risco de curto-circuito com água de chuva caindo diretamente sobre bocal de lâmpada); e de que solucionam o problema de goteiras sobre a seção infantil da biblioteca (antes que a umidade a destrua por completo). Que façam isso, resolvam essas miudezas (parte da rotina de manutenção), sem esperar pelo prometido plano de reforma com que se reagiu a uma denúncia sindical de descuidos aquele nosso patrimônio cultural. Neste tocante, a implementação do Plano Municipal do Livro, Leitura, Literatura e Bibliotecas (PMLLLB), embora figure como sonho deste velho escrevinhador, parece um tanto distante da realização. Mas, registre-se: em nada as prioridades (corretas) da atual administração (Água e Saúde) seriam prejudicadas se alguns milhares de reais fossem investidos anualmente, e com cuidado, na biblioteca municipal. Assim ela poderia não se perder, até o dia em que possa vir a ser um próprio municipal e um projeto importantes para o desenvolvimento cultural necessário para bem assimilar um sonhado desenvolvimento socioeconômico com dinâmica superior, tanto do ponto de vista da riqueza material quanto da riqueza do espírito dos piracicabanos.


Valdemir Pires é economista e escritor.

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