A Experiência das Bancas do Curso de Pós-Graduação em Trabalho Associado e Educação para Além do Capital na América Latina – Escola Popular Rosa Luxemburgo do MST
O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra é conhecido nacionalmente, e até internacionalmente, por sua histórica luta pela universalização do direito à terra. Na concepção sócio-política do MST a terra se constitui como um direito fundamental, um bem natural, que não pode ser reduzido a um mero recurso a serviço da exploração e da acumulação de capital. O direito de acesso à terra representa a viabilidade de manutenção e reprodução da vida. Mas as pautas e bandeiras de luta do MST são bem mais amplas, ancoradas na compreensão de que todos os direitos estão interrelacionados e são interdependentes. Isso significa que a dignidade da vida pede a garantia da plenitude dos direitos.
Dentre as pautas de tantas lutas do MST, em uma compreensão complexa da universalização dos direitos, situa-se a defesa do direito à educação no campo, apontando para a superação da grave contradição social que insiste em privar a população rural do acesso ao conhecimento acadêmico. É tarefa histórica do MST, derrubar as cercas e os arames farpados que protegem o latifúndio agrário, gerando pobreza no campo, mas também romper com as estruturas institucionais que se apropriam e privatizam a produção e o acesso à ciência, fechando aos mais empobrecidos e, particularmente, à população rural, o direito ao conhecimento, que é sempre construído coletivamente.
Na busca pela democratização do acesso ao conhecimento para a população rural, em decorrência direta da luta histórica pela garantia do direito à educação no campo, é que foi criada, pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), a política pública denominada de Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária (Pronera). Com recursos públicos advindos do Pronera, a dinâmica de educação para a população do campo alcançou outro patamar, viabilizando a realização de cursos – no contexto da própria realidade rural – nas mais diversas áreas do conhecimento.
É justamente por meio do Pronera, em uma articulação entre MST, Instituto Federal de São Paulo, campus São José dos Campos e Unesp, na dinâmica de construção de uma educação socialmente referenciada, que se viabilizou a realização do curso de Pós-graduação em Trabalho Associado e Educação para Além do Capital na América Latina, que teve lugar na Escola Popular Rosa Luxemburgo, localizada na cidade de Agudos, no centro-oeste paulista. Sob a coordenação geral da professora Mirella Souza e tendo como referencial teórico o pensamento de István Mészáros, o curso foi estruturado a partir da pedagogia da alternância, no movimento do tempo escola e do tempo comunidade.
Em julho de 2026, no decurso de 10 dias de intensa convivência, compondo o tempo escola, professores e discentes se reuniram para a última etapa do curso: a defesa dos trabalhos de conclusão de curso, no formato de TCC ou artigo científico. Impressionante a força também simbólica deste momento singular, que é próprio do ritual acadêmico. Discentes, professores/orientadores bem como todo núcleo educacional do curso, reuniram-se para participar e acompanhar as bancas de defesa, em uma dinâmica de construção coletiva do conhecimento.
Em um espaço de socialização do conhecimento, por meio de um formato bem interessante, vibrante e interativo de apresentação, cada defesa era acompanhada por todos os demais estudantes e educadores, evidenciando a dimensão coletiva do conhecimento produzido. Em contraposição às defesas públicas esvaziadas, na Rosa Luxemburgo cada estudante pesquisador contava com a participação atenta e ativa de todos os discentes e também dos educadores. A proclamação da decisão da banca ecoava nos aplausos e até gritos, como se a conquista daquela etapa, a finalização do curso, fosse uma conquista da própria coletividade. E na verdade era mesmo!
Central registra também o conteúdo das pesquisas desenvolvidas pelo corpo de estudantes. Os objetos de pesquisa, de maneira mais geral, investigavam o cotidiano de experiências de cooperativas e trabalhos associados que têm sido sistematicamente invisibilizadas, com a intenção ideológica de promover o apagamento e até a anulação da força transformadora de tais experiências, que despontam em contraposição aberta à lógica hegemônica do grande capital. As pesquisas trazem à luz tantas experiências singulares de resistência utópica.
Mesmo sem o direito à celebração do ócio, os estudantes, no tempo escola, organizaram-se para dar vida à rica, especial e emblemática convivência na Escola Rosa Luxemburgo, trocando tantos saberes. No tempo comunidade, sem poder abdicar de suas exaustivas realidades do trabalho produtivo no campo, os estudantes desenvolveram suas pesquisas, produzindo importantes relatos e registros também de suas trajetórias, em uma dinâmica militante de pesquisa-ação. Como sujeito ativo, a história singular de cada estudante, trabalhador rural, guarda as marcas que definem a identidade do povo brasileiro.
De todas as bancas que já tive a oportunidade de participar e presidir, mesmo em renomadas instituições de pesquisa, de longe as experiências das bancas com estudantes do Pronera, na Escola Popular Rosa Luxemburgo, no curso de Especialização em Trabalho Associado e Educação para Além do Capital na América Latina, foram as mais significativas e marcantes, capazes de renovar as possibilidades de transformação social a partir da educação, identificada como um direito que alimenta sonhos e prepara as bases para a construção da utopia do inédito viável, como tão bem nos inspirou o grande educador Paulo Freire.
Professor Adelino Francisco de Oliveira. Instituto Federal de São Paulo, campus Piracicaba.

