Piracicaba, 259 anos (ao vento)!

Piracicaba, 259 anos (ao vento)!

1º. de agosto de 2026. Piracicaba completa seus 259 anos na condição de um dos maiores municípios brasileiros, em termos populacionais e econômicos. E o que ela é, senão algo como um daqueles indivíduos ricos e vazios,  de quem se diz, com razão, que é alguém que tem apenas dinheiro e nada mais?

Piracicaba, hoje, é uma cidade sem rumo, sem uma visão de futuro, flutuando ao sabor de ventos cuja direção ela nem mesmo sabe identificar. Globalizada sem ser dar conta do como e com que consequências; provinciana sem saber esconder esta fraqueza, travestindo-se de “moderna” em suas ruas, avenidas, comércios e serviços: ridícula arquitetonicamente, um simulacro de economia de classe média afluente; abandonando seu passado (canavieiro, metalmecânico, ao sabor do processo de industrialização e urbanização do país), não sabe ainda para onde deseja ir, nem se pode almejar sair do lugar ou evitar retroceder. Culturalmente falando, a terra do rio famoso e dos caipiras cantadores e contadores (de história e não de partidas dobradas) ainda anda naquela de sonhar com a Disney. A ponto de muitos de seus habitantes apoiarem, entusiasticamente, um futuro candidato a presidente que lambe as botas de Donald Trump, embora colhendo – que presente de aniversário! –os efeitos de um tarifaço alfandegário sem precedentes, atingida muito além de todas as demais cidades brasileiras afetadas pelo destempero americano contra o avanço chinês no comércio internacional.

Não bastasse esse presente – de grego –, neste 1º. de agosto Piracicaba fica sabendo de mais um lance no moroso processo de morte de uma de suas maiores perdas recentes: a Unimep (seu atual reitor foi demitido). Se bem que este título já não cabia, mesmo, a alguém que estava comandando um escombro miúdo, nem mais uma sombra do que foi aquela universidade vigorosa sob seus verdadeiros reitores: Elias Boaventura e Almir Maia – cada com seu diferente perfil construtor.

Aniversário triste, este de 259 anos, para quem andar pelas ruas e praças e pontos turísticos da cidade, constatando a falta quase completa de zeladoria, a presença de crescente população de rua, o semblante cabisbaixo de tantos transeuntes de vida dura em empregos que vão minguando, portinhas de pequenos negócios que vão fechando, mesmo num momento em que o país tem seu PIB crescendo.

Talvez um bom símbolo para este aniversário da cidade seja a luminária quebrada da frente da Biblioteca Municipal “Ricardo Ferraz de Arruda Pinto”, sem qualquer providência para conserto desde, pelo menos, o final do mês de abril passado, enquanto não se sabe a quantas anda uma promessa recente, da prefeitura, de um plano de reformas do prédio, em reação a denúncia sindical de completo desmazelo. Embora os mais otimistas talvez prefiram tomar como marca desta efeméride a possível instalação na cidade de uma nova fábrica da indústria automobilística global, que alguns desejariam, antes, debater no Instituto de Pesquisa e Planejamento (o IPPLAP), mas não podem porque ele foi extinto em 2022, numa atitude contrária à lógica do debate e ao exercício da imaginação coletiva do futuro, que assola esta cidade há anos.

Digo isso por ser Piracicaba uma cidade que eu adoro tanto, cheia de flores, cheia de encantos; uma cidade que eu gostaria de ver menos maltratada, política e culturalmente falando, além de econômica e urbanisticamente.

 


Valdemir Pires é economista e escritor.

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