(Informa a jornalista Beatriz Vicentini, em texto veiculado em sua página no Facebook neste sábado, sobre a demissão de Israel Forte Valentin: o último reitor da Unimep).
Tombou nessa sexta-feira, 31 de julho, o último reitor da Unimep. A tarde, ao que parece, ia bela e o céu azul, a temperatura amena e sem ventos – após tantos temporais – mas o destino (lâmina fria) se impôs como sempre fez e faz.
À distância das gentes e das fofocas da corte, cabe confessar, tudo parecia (aos mais simplórios cidadãos aos mais decanos) seguir no sem sentido de sempre e sem mistério no coração de império falido unimepiano. No entanto, e o que é a História (ora vejam!), num de repente o tempo se refez e desfez de seu trono imaginário o último reitor – cumprindo, o tempo ceifador, a sua essência em labor: abateu, concluiu, pôs fim, sem amor e sem rancor. E lá se foi o último reitor. Último dessa dinastia. E haja poesia fria: o tempo e sua força. O tempo e sua fatal natureza. O tempo e – diriam outros poetas – a sua inexorabilidade. O tempo e o fim. Plaft! Era uma vez o último reitor, assim.
Houve dor? Ora. Ela, a notícia dessa passagem em tarde tão singela entre jardins, ecoaria em outros tempos como as trombetas do apocalipse no firmamento. Mas o tempo, que não morre e se renova, cova a cova, agora é outro. Tempo de construída surdez coletiva. Tempo de formatados silêncios vexatórios. Tempo de impercebidas derrocadas e de quedas abafadas. Que tempos, senhoras e senhores! E que pena! Poucos, entre tantos outros, restaram para entrar em prantos. Não há mais ninguém para por ao colo o reitor, abatido e solitário, que se choca agora contra o solo.
Lembremos neste canto, no entanto, do texto (erroneamente atribuído a Brecht) de um pastor luterano – olhem aí, um pastor, que coincidência! – de nome Martin Niemöller: “Primeiro eles vieram buscar os socialistas, e eu fiquei calado — porque não era socialista. Então, vieram buscar os sindicalistas, e eu fiquei calado — porque não era sindicalista. Em seguida, vieram buscar os judeus, e eu fiquei calado — porque não era judeu. Foi então que eles vieram me buscar, e já não havia mais ninguém para me defender.”
Agora vieram buscar o reitor, o último reitor da Unimep, caído na tarde vazia e azul da sexta-feira, 31, sem vento sul. E sem alardes. Sem choros. Sem olhares. Sem quase testemunhas, sem nada. Faltaram reflexões sobre o ocorrido? Faltam discordâncias do acontecido? Faltaram surpresas diante do fato? Não. Já não é mais possível qualquer ato. Nem há carpideiras a chorar sobre o túmulo – porque também já não há mais túmulos entre as ruínas.
Clique.. e tudo chegou ao fim – enfim – no apagar das últimas luzes unimepianas sob o toque sutil no interruptor. Caiu a guilhotina. Rasgou-se o último pescoço à navalha. Há dor? Onde estão os conscientes cidadãos para chorar os esforços do reitor? Onde os escribas perfeitos dispostos a escreverem seus feitos, a registras suas guerras, suas lutas. Quem vai comentar a sentença? Onde estão os jornais e a imprensa? Quem realmente sabe ou dá conta do império que faliu? Houve esforços em contrário? Houve realmente empenhos e lutas? Ninguém sabe. Ninguém viu.
Façamos o que nos cabe. Entoemos elegias, cantos fúnebres discretos nesta manhã de ouvidos moucos. E quem aqui nos ouve e lê? Também tão poucos. A nós, os nossos esforços, o nosso suor. Registremos: caiu o último reitor. Não há tempo nem motivos para um cântico de louvor.
Alexandre Bragion é editor do Diário do Engenho.
