Entre os vários elementos para verificar a maturidade de uma democracia, dois merecem – neste momento – destaque: o cálculo eleitoral e a compaixão. Em ótimas conversas com o filósofo e professor Daner Hornich, também muito estudioso de Filosofia Política, pude aprender que o voto não deveria ser oriundo da paixão, mas de cálculo. O votante, de modo imperativo, deveria verificar e medir a sua escolha num candidato que corresponda de modo pertinente às suas necessidades.
Um bom exemplo é o dos aposentados e pensionistas. Tendo dois candidatos, sendo que um deles diz de modo claro e inequívoco que ao ser eleito oferecerá todos os anos um reajuste real do valor de sua seguridade acima da inflação, e o outro candidato não transparece a mesma clareza – pairando sérias dúvidas sobre continuar a oferecer a segurança dos reajustes acima da inflação – o cálculo eleitoral parece indicar uma escolha fácil e cristalina para aquele que irá beneficiar os segurados, uma vez que muitos aposentados e pensionistas dependem de todo e qualquer valor extra no recebimento de seu valor mensal. A escolha eleitoral não permite espaço para uma paixão cega que impeça o cálculo sobre as consequências de uma má opção, que levará à dor e ao sofrimento – nesse caso – pela falta de dinheiro no recebimento da sua aposentadoria mensal.
Um segundo bom exemplo é o do funcionamento das coisas públicas. Tendo dois candidatos, sendo que um deles quer ampliar e qualificar os funcionários públicos para melhor atender a toda a população, e o outro quer reduzir, enxugar, o quadro geral do funcionalismo, levando, entre tantas graves implicações, a precarização do atendimento às pessoas – quer dizer, em outras palavras: menos professores, menos merendeiras, menos médicos, menos enfermeiros, menos policiais militares civis e municipais, menos agentes de trânsito, menos juízes, menos funcionários nos tribunais. Entre tantos outros “menos,” teríamos um colapso naquilo que é essencial para o bom andamento de tudo que é comum. Sendo assim, parece inevitável fugir do sofrimento que isso acarretaria, uma vez que precisamos tanto desses servidores públicos. Calcular é votar naquele que acredita na importância e na necessidade de um amplo e qualificado quadro de funcionários públicos.
O saudoso bispo católico Dom Pedro Casaldáliga (16/02/1928-08/08/2020), no documentário “O Anel de Tucum” (1994) declama o dito popular: “Tudo é política, mesmo que o político não seja tudo”. Política é a arte de fazer acordos. Mas não qualquer acordo. Acordos que atendam a todos aqueles que vivem numa determinada cidade, estado, país. Para fazer acordos com pessoas que são muito diferentes de nós, precisamos aprender a ter compaixão. Compaixão não é ter dó, isso muitas vezes pode ser fruto de uma sensação de superioridade, ainda mais quando se pensa “ainda bem que não estou nessa situação”. Compaixão é “sofrer com” aquele que está sofrendo. Isso implica em se permitir ver o mundo a partir daquele que sofre, e, ao mesmo tempo, buscar um caminho que possa garantir, também – para esse que sofre – uma “vida boa”, uma “vida digna”. Isso exige mobilização. E, no caso do voto, exige calcular o voto não apenas para mim, mas para todos os que vivem na Polis, na cidade, no estado, no país.
A compaixão me move a sair de mim mesmo em busca do todo, pois uma vez que o todo esteja bem, eu também estarei bem. Afinal, garantir que todos tenham uma “vida em abundância”, uma “vida boa”, é o sentido da Política. Ao aprender a compaixão, somos levados a aprender a calcular. E esses dois elementos afastam da escolha eleitoral qualquer tipo de paixão, de torcida, de fanatismo, que cegam as consequências de um voto desprovido da verificação da extensão do sofrimento que ele pode proporcionar, principalmente, para os mais fragilizados e necessitados.
Mas como aprender a calcular? Um dos percursos para se aprender a calcular se faz pelo processo educativo, pela escola. Mas não qualquer escola. Uma escola que ensine a pensar o que se aprende, uma escola que não se reduza apenas àquilo que o mercado deseja, ou seja, mão de obra qualificada e não pensante. Enfim, uma escola que eduque a pensar como transformar a sociedade num local onde todos possam ter a “vida boa.” Sendo assim, qualquer candidato ou partido politico que não demonstre acreditar nesse modelo de educação amplo e transformador não pode ser uma opção para receber votos numa eleição.
E aqui se faz necessário nomear esses partidos que impedem o pensar, que impedem a transformação social para todos terem uma “vida boa”, pois apenas buscam atender os interesses de uma minoria que já tem boas condições de vida, que possuem muito poder financeiro, e, usam desse poder, para manipular e enganar: o fascimo italiano, o nazismo alemão, o Trumpismo norte americano e o Bolsonarismo brasileiro.
Pessoas desses espectros políticos NUNCA deveriam receber votos de quem aprendeu a calcular e, por isso, aprendeu a ter compaixão.
Fabio Camilo Biscalchin é mestre em Ciências da Educação (UNIMEP/2008) e graduado em Filosofia (UNISAL/1994)
