Numa eleição disputada voto a voto, Lula conquistou seu quarto mandato de Presidente da República Federativa do Brasil, pelo Partido dos Trabalhadores, de que ele próprio é o principal fundador e maior expoente. E o fez lutando contra a histórica mentalidade praticamente escravista (ainda) de uma “elite” que sempre procurou e procura travar quaisquer melhorias na distribuição de renda no país.
Lutou também contra a perversa onda de extrema-direita que vem cobrindo o mundo todo e especialmente a América do Sul, contra a vontade e o desejo de Donald Trump de colocar no comando da política brasileira um subordinado seu – a fim de manejá-lo em sua disputa geoestratégica com a China -, contra um empresariado e um mercado financeiro míopes para os riscos de seus próprios negócios sob um presidente entregacionista (quanto à soberania nacional) e claramente incapaz de realizar um bom governo, contra um movimento religioso que deixou de ser um fenômeno de fé para se transformar numa ilusão de acolhimento e prosperidade que tem sido ideológica e politicamente manipulada por interesses escusos, contra o lado perverso e destrutivo das atuais tecnologias da comunicação de massas bidirecionais (leia-se internet e redes sociais) – que facilitam a propagação de mentiras e a mobilização do ódio.
Na mesma trilha, Lula lutou também contra grandes empresas de comunicação locais que insistem em ignorar as conquistas econômicas, sociais e democráticas dos sucessivos governos do PT e desconsideram a projeção global de Lula, contra a avaliação negativa criada contra o governo Lula em andamento (sempre freado por um Congresso Nacional dominado pela oposição conservadora e retrógrada), contra o desgaste do Partido dos Trabalhadores e especialmente contra o antipetismo quotidianamente manifesto na forma de ódio e violência, contra o golpismo bolsonarista que atua em nível macro (afrontando as instituições e questionando o resultado de eleições limpas e legítimas) e em nível micro (boicotando-as como fez ao reduzir transporte coletivo para os eleitores se locomoverem para votar), contra agentes do Tribunal Superior Eleitoral que tiveram comportamentos aparentemente tendenciosos ao acatar ou rejeitar questionamentos durante o processo eleitoral.
Que Lula, diante de tantas e tamanhas forças tenha saído vitorioso deve-se, – não há como negar – ao (ainda que tardio) acordar diante da nova realidade da democracia sob o modo de disseminação da informação e da propagação de ideias em ambiente virtual e em tempo real, com possiblidades inéditas de distorção e manipulação – uma democracia dependente de meios hoje nas mãos livres de grandes empresas globais de tecnologia. Janones é o nome a quem se deve creditar o mencionado despertar. Ganhar a eleição teve a ver com o que ele ensinou. Governar, portanto, não poderá ocorrer sem preservar esse aprendizado.
Por outro lado, que ninguém desconsidere: de nada valeria todo o esforço da campanha, aí incluídos erros e acertos, não fosse o amadurecimento da democracia brasileira desde a redemocratização dos anos 1980. A política nacional mantém abertas as portas para que uma família como a Bolsonaro quase se transforme numa dinastia? Sim. Permite que nela operem arrivistas e oportunistas, malandros e bandidos, desqualificados de todo tipo – como tantos que se elegeram para legislar? Sim. Mas, note-se: este é um dado histórico, enraizado no Brasil. A novidade é que metade dos cidadãos-eleitores se distanciaram desse mal, dessa miséria. Nas últimas eleições este é um dado novo, ainda que em disputas municipais e estaduais eu brilho esmaeça.
É esse dado que garante o país contra golpes, como o urdido por Jair Bolsonaro ao ser derrotado, que o filho tende a repetir – outra vez fracassando, pois é indubitável a vitória de Lula, mesmo que um pequeno número de eleitores, provavelmente favorável a ele em sua maioria, tenha sido impedido de se manifestar nas urnas. A democracia e o Estado de direito fincaram raízes no Brasil, hoje um exemplo para todo o mundo, enquanto a vizinha democracia norte-americana anda patinando, para vergonha de seus “pais fundadores”, formuladores da teoria democrática de massas respeitados em todo o mundo.
Ganhar as eleições foi muito difícil para Lula. Governar será muito mais, com a configuração do novo Congresso Nacional e o provável acirramento do antipetismo e do provável cerco (ainda que venha a ser disfarçado) de Trump. Será necessário aprofundar as conquistas sociais (quando mantê-las já é hercúleo) para não desapontar os eleitores, assegurar o funcionamento da democracia e preservar a Constituição de 1988 contra os ataques que sofrerão. Importa manter as ruas mobilizadas, pois isso será necessário a cada passo em frente que se queira dar e contra cada passo atrás que certamente os opositores queiram ensejar. Cumpre também melhorar a comunicação diária com a população, que precisa se manter alerta e mobilizada, conceber e praticar uma política econômica que enfrente o potencial colapso das contas públicas se a economia não crescer em níveis compatíveis com as despesas públicas crescentes (sem cair na receita neoliberal para isso).
Faz-se necessário, também, encarar de vez e de frente o desafio da elevação da produtividade e da modernização tecnológica da economia brasileira, para que se torne globalmente competitiva e resulte em crescimento anual suficiente para sustentar a lucratividade dos negócios e os custos públicos de um Estado do bem-estar social sem o qual se cresce sem distribuir; preparar o país para a inflação global de guerra, caso os conflitos regionais venham a progredir para algo mais amplo, como faz crer a luta em curso pela redefinição geoestratégica que a novidade de uma China-potência em rivalidade velada com os Estados Unidos traz para a cena.
Em suma, com a vitória de Lula o Brasil evitou o pior. O que virá precisará ser ainda melhor do que as entregas anteriores dele e de seu grupo político – num ambiente global muito mais complicado do que antes, com uma correlação de forças interna que se deteriorou do ponto de vista progressista, no âmbito institucional. Mas agora diante de uma novidade: o povo nas ruas, a juventude mobilizada, a democracia e o Estado de Direito mostrando a cara sem máscaras, como nunca antes na história deste país. O momento é de esperança e também de arregaçar as mangas e seguir em frente, tentando inclusive romper a atual divisão do país em dois, geográfica e ideologicamente falando.
Valdemir Pires é economista e escritor.
(Foto de capa: Paulo Pinto/Agência Brasil)
