A enxurrada de análises, resenhas, críticas e comentários sobre o fracasso da seleção brasileira em mais esta copa do mundo e a atuação (ou não atuação, seria melhor dizer) de Neymar junto ao time brasileiro quase que tornam desnecessárias quaisquer outras tentativas de se refletir e se escrever sobre esse imbróglio esportivo (social e, por isso, também político) que tomou conta do país desde domingo. Por outro lado, como ceder à tentação de dar um pitaco nesse causo e dizer com ar zombeteiro: “olha aí, nós aqui do DE avisamos.” E faz tempo.
Lá em 2018, quando o Brasil jogava a copa da Rússia, publicamos aqui no DE o texto A Copa dos Gênios Forjados – em que destacávamos a sempre extenuante tentativa da mídia brasileira em criar “gênios” e “mitos” esportivos para promover a copa e aquecer o marketing e as vendas em torno dela. Nesse texto, já também cutucávamos – sem citar nomes – o culto forçado em torno de Neymar e afirmávamos que ” a genialidade mentirosa e mal caráter de alguns está destruindo – dentro de campo – até mesmo o talento que, eventualmente, esse ou aquele jogador (ou vendedor de produtos?) poderia eventualmente mostrar.” O que queria dizer, à época, que “em outras palavras, nossos mitos e gênios forjados estão se queimando internacionalmente (uma vez que os olhos do mundo estão descortinando neles o embuste que eles vendem).”
Em 2019, em outro editorial, esse intitulado A Triste Realidade sobre o Caráter de Alguns Ídolos Brasileiros de Hoje outra vez destacamos a precariedade dos “ídolos atuais” da nação – e novamente afirmávamos que ” a realidade é que no momento em que grande parte do povo brasileiro elege um homem como Neymar seu herói, evidencia-se o nível intelectual e moral desta parte que o faz.” Em crônica de 2018, essa intitulada De Choros e Lutas – publicada na sequência da desclassificação do Brasil naquela copa, outra vez se destacava no DE o efeito nefasto da mídia, de Neymar e do momento político que se vivia ao revelarmos que: “a raiva ao ver um candidato fascista ser aclamado por empresários e tantos outros não diminuiu durante os jogos. Pelo contrário. Apenas não fui tocado pelo “canarinho pistola.” Certamente, o excesso de drama de Neymar em campo e a marra dele e de alguns outros contribuíram para minha pouca emoção.”
Neste ano, em nossa página de humor publicada no dia do primeiro jogo do Brasil na copa – intitulada Já Viu? A Seleção é a cara do Brasil! – antecipadamente tiramos um sarrinho do fracasso que se avizinhava dizendo: ” abrem-se as cortinas e os artistas entram em cena! Que pena! É a seleção brasileira sem outro Zagalo, sem outro Pelé, sem outro Ronaldo, sem outro Rivaldo e sem outro Parreira! Mas, salve – ué! É a seleção – ou a selecinha? – brasileira! A seleção que é a cara do Brasil! (Lembra daquele disco do Tom Zé? Pois, é!).”
Ontem, um torcedor – dentre tantos – disse em entrevista a um canal de televisão que o Brasil perdeu porque Ancelotti não colocou Neymar no primeiro tempo. Incrível. Acreditar em quem pouco faz ou pouco tem a oferecer parece – mesmo – uma questão absolutamente coletiva entre os brasileiros (tanto no esporte quanto na política, ao menos). Se até para nós aqui deste espaço – que não entendemos de futebol – sempre pareceu forjada a ideia da construção do mito Neymar, como é que para o torcedor fanático essa percepção não se sobrepõe ao que o imaginário constrói? Em outras palavras, Neymar tornou-se um delírio coletivo de parte (imensa) da nação.
Sua criação, talvez, advenha da necessidade (e da falta, sempre ela) de figuras (no futebol) que sejam de fato capazes de, no tempo presente, nos encher de orgulho a olhos vistos e revelem ser realmente gênios da bola – como Messi, Mbappé e outros. Longe do que um dia fomos no futebol, apartados da nossa natureza futebolística, do nosso estilo brasileiro de jogar e cooptados pela virulência do dinheiro, do mercado, das propagandas e da bets, o delírio em torno de Neymar cada vez mais parece ser a força do simbólico a empanar os olhos da torcida e de (parte) da nação para a percepção de que estamos fracassando ao longo da história mais recente desse esporte – e de que nossas glórias futuras, infelizmente, parecem também que nunca estiveram tão distantes.
Fosso profundo, reconhecer quem somos – seja no futebol, seja com país – se faz fundamental e urgente. Caso contrário, seguiremos declinando ao sabor azedo dos mitos e ao som de seus soluços de tristeza (ou não).
Diário do Engenho.
