“Ler é a melhor forma de contrariar o isolamento.
Leitores não são ilhas. São universos em expansão.”
(Eduardo Agualusa)
Nas notas anteriores, experimentei – outra vez – uma volta ao passado, ali no restaurante Bistecão. (Se há nisso nostalgia, é só em parte: o exercício é consciente, e tem a ver com a questão do tempo “falsamente” cindido em passado-presente-futuro.) Outro dia, mencionei o eu-leitor nos meus primeiros tempos, em Araras, lembrando que procurava mesclar leituras “sérias” com leituras “de divertimento”. Hoje, retornando da biblioteca para casa de posse de O Ser-Tempo, de Comte-Sponville, fica claro que o tempo passou (50 anos) e eu permaneci o mesmo, no que diz respeito à “cesta” de leituras que considero ideal. Eu vinha tomando emprestados livros de literatura e acabei de pegar um livro de filosofia. Em ambos os casos, com muito gosto. Sou levado a dizer que meu hábito de leitura, que é uma parte significativa do meu jeito de viver, sempre combinou levar a alma a passear com pôr a alma a trabalhar. Talvez seja isso herança de uma mentalidade familiar colonizada pelo princípio de que merece lazer somente quem já cumpriu seu dever; talvez seja outra coisa que eu não consigo identificar. Sei lá! Seja como for, o ter me tornado economista só fez aprofundar este modo de ver: em Economia lazer e trabalho se antepõem, o trabalho tomado como um esforço digno de remuneração, pois implica abrir mão de lazer próprio em benefício do terceiro (empregador ou cliente, por exemplo) que, por isso, paga.
Acho que fica bem dizer que ler literatura (romances, novelas, contos, poesia, fábulas, crônicas, teatro) é levar a alma (ou espírito ou a mente, como se prefira) a passear, pois é o prazer de perambular para lá e para cá sem ter destino previamente definido que impulsiona a ação. E também é uma boa aproximação dizer que ler ciência, filosofia, história, teorias em geral é levar a alma a trabalhar ou a “malhar”, na medida em que, neste caso, a mente não se deixa levar, não segue a esmo, tem um objetivo para além de descobrir um tanto ao acaso: deseja conhecer, entender, para explicar (a si ou a outras mentes).
É claro que a distinção entre ler literatura e ler teorias nunca é total. Muito menos evidente. Não só porque o “material” com que se lida – palavras escritas, manchas distinguíveis num papel –, mas fundamentalmente porque não é tão simples, como parece, dizer que não há literatura em textos teóricos (que tantas vezes fazem uso de metáforas, por exemplo, em busca de entendimento ou potência explicativa) ou que não há teoria em textos literários (a começar por tantas digressões de que lançam mão os romancistas e contistas). Além disso, há textos que, por natureza e vocação, recorrem a estratégias combinatórias: biografias contam histórias pessoais, mas seu fundo é histórico (não trata de uma personagem, mas de um indivíduos que realmente nasceu, viveu e morreu), apesar de a leitura se assemelhar à de um romance, por exemplo; ensaios são escritas de natureza investigatória (aproximação de pesquisa científica), mas seu “método” não é científico, mas literário, o eu (subjetividade) interferindo de tal modo que suas conclusões não podem ser consideradas objetivas, propriamente, embora levem a conclusões válidas.
Seja como for, a percepção disso que acabo de dizer não é uma dádiva da natureza: é uma conquista da cultura, ou seja, é resultado de cultivo, de experiência com objetos forjados pela inteligência e sensibilidade humanas. Quantos são os leitores que atingem esta percepção, de fato fundamental para fazer de alguém que lê uma consciência leitora, alguém que sabe escolher a embarcação adequada (o tipo de texto) para lançar-se ao mar, ao rio, ao lago (às águas da existência humana), sem risco de naufragar ou de não chegar a lugar nenhum? Acho até que essa habilidade de perceber as distintas naturezas dos textos e usufruir delas é um dos primeiros troféus conquistados por um leitor maduro. Leitor este que, por exemplo, evita textos banais, textos que funcionam para quem lê do mesmo modo que funcionam para o turista as viagens, os passeios e as visitas “mecânicas”, muitas vezes guiadas (e mal), que não lhes permitem adentrar a alma do lugar e de seus habitantes vivos ou mortos.
Refletindo sobre isso, descubro agora o porquê de eu nunca ter sido um economista “seco”, do tipo que se contenta com a ideia (absurda, para mim) de que o ser humano é um indivíduo racional-maximizante, única e fundamentalmente (quando não exclusivamente) em busca de obter o máximo de resultado com o mínimo de esforço, mandando às favas valores e princípios, a ética, numa só palavra. Não há leitor de literatura que não sinta náuseas diante desta visão de mundo, do homem e das suas relações sociais e interpessoais. Creio, mesmo, que se a busca de vantagens econômicas e financeiras, de produtividade mesmo às expensas da qualidade de vida (tanto individual como coletiva) é hoje tão proeminente, isso não se deve senão a um erro de conduta coletiva que se explica pela crença exagerada que os economistas (teoricamente) e os capitalistas e financistas (na prática) cultivam e difundem, há aproximadamente três séculos (diante de milênios de História), em benefício de pouquíssimos e para desgraça da imensa maioria dos seres humanos em todo o mundo.
Dizer isso me faz menos economista? Se assim for (e eu não acho que seja, com base em elementos substanciais), prefiro agarrar-me à atitude mental e prática de quem faz questão de se afirmar, minimamente, um tanto menos materialista, um tanto menos frio, um tanto menos calculista, um tanto menos desumano, um tanto mais “gente” do que animal que ainda não adquiriu a capacidade de reduzir sua propensão pré-histórica a predar e pilhar instintivamente. Sinto-me bem assim, e aproveito para prestar tributos a quem me ajudou a consolidar esse jeito de ser: uma tríade de economistas que foi fundamental na minha formação profissional (iniciada em Piracicaba) e também política, trio que tem minha profunda e eterna admiração: José Machado, Renato Sérgio Jamil Maluf e Lineu Carlos Maffezolli.
(Continua)
Valdemir Pires é economista e escritor.
