O Segredo de Monjaléu

O Segredo de Monjaléu

Dois soldados vão na mata
fechada, funda e escura
Troncos lisos, copas altas
formam muro de espessura
Dentre os galhos, algo mexe
nasce o medo que perdura

Os dois tremem, com pavor
escondidos a espreitar
Esperando em silêncio
pra saber o que vai dar
Um arbusto se remexe
Algo vem se aproximar

Surge enfim a coisa estranha
De pele parda e rachada
Veias verdes a saltar
Pele toda arrepiada
Pelos cobrem o seu corpo
Garra longa, afiada

Anda a esmo, sem destino
em andaísmo a vagar
Nada resta pra ele ter
Só água, só palha no ar
Quer as flores de jacinto
Indecifrável, sem par

Não tem terra, nem tem lei
A justiça tem senhores
De capa, espada e brasão
Julgam com seus favores
Monjaléu não tem defesa
Foge apenas entre as flores

Os soldados, com fúria
Golpeiam com toda a mão
Cravam fundo suas lanças
Vísceras caem no chão
O monstro enfim tombou morto
Rasteja o resto de um povo
Que a história nunca coroa

Amarram logo o tal monstro
E o levam com cautela
E caminham pela mata
Até chegar em Castela
E perante o rei o entregam
Prêmio de quem tanto vela

Chegam ao pé do castelo
Traz o rei a criatura
Vinda do inferno abssal
Pra seu nojo e amargura
Mas o pior, meu rei, meu leitor,
Inda vem noutra moldura

As feridas vão se fechando
A carne volta a nascer
O monstro que estava morto
De novo torna a viver
O rei apavorado manda
Que a corda vá prender

Amarram no trono a fera
Perto do seu tesouro
Ali fica condenada
Presa em correntes de ouro
E ali revive outra vez
o eterno retorno chacinado

Seu nome é Monjaléu
Não tem uma vida só
Tem muitas vidas guardadas
Bem longe do mundo, no pó
Ele sempre existiu
Escondido nesse nó

Lá no fundo do oceano
Um caixão jaz enterrado
Dentro do caixão, uma pedra
Segredo bem guardado
Dentro da pedra um pássaro
De vida tão apegado

Dentro do pássaro, um ovo
Dentro do ovo, uma vela
Que arde eterna a chama
E é a vida daquela
Criatura que não morre
Enquanto a chama não cessa

Se um dia a vela apagar
Monjaléu enfim morrerá
Mas ninguém sabe onde é
Ninguém jamais achará
Por isso o rei perde o medo
E o tempo então passará

De tempos em tempos o rei
Convida seus cavaleiros
Soltam Monjaléu no bosque
Pros caçadores ligeiros
Fazem ali a cavalhada
Perseguem o Monjaléu

O monstro corre e se esconde
Foge sempre assustado
Sempre morre na floresta
Sempre volta ressuscitado
Pois sua vida verdadeira
Nunca foi encontrado

 


Texto verbal e desenho: professor e historiador Rafael Gonzaga.

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