Em um mundo à beira do colapso ambiental, social e moral, uma verdade incômoda torna-se cada vez mais difícil de ignorar: simplesmente não há mais espaço para tantos milionários. O planeta não pode mais sustentar os níveis de consumo, impacto e privilégio acumulados por uma elite econômica global que prosperou por décadas em um modelo extrativista e predatório. Por grande parte da história moderna, empresas baseadas na exploração intensiva de recursos naturais, mão de obra barata e crescimento ilimitado eram sinônimo de progresso. Mas esse paradigma está ruindo. A conta chegou — não apenas na forma de desastres climáticos, desigualdade extrema e instabilidade geopolítica, mas também em um colapso ético em que a luta por poder e recursos se torna cada vez mais turva, violenta e injusta
O modelo que está morrendo. O extrativismo — econômico, ambiental e até humano — foi a base para o surgimento de muitos dos milionários de hoje. De campos de petróleo a dados de usuários, tudo se tornou um recurso a ser extraído, monetizado e maximizado. O problema? Esse modelo repousa em uma ilusão perigosa: a de que a Terra tem recursos infinitos. Não tem. De acordo com a Oxfam, os 1% mais ricos da população global emitem mais carbono do que os 50% mais pobres somados. Esse nível de desigualdade não é apenas moralmente indefensável — é ecologicamente catastrófico. Estamos falando de jatos particulares, fazendas de mineração de criptomoedas, projetos de imóveis de luxo construídos em costas que afundam. Enquanto bilhões lutam pelo acesso a água limpa, educação básica ou moradia digna, uma pequena elite concentra riqueza suficiente para viver milhares de vidas em conforto extravagante. E esse desequilíbrio não será corrigido por filantropia ou promessas de ESG.
O que enfrentamos é um impasse estrutural. A nova competição: inética e invisível. À medida que o modelo antigo começa a se desfazer, poderíamos esperar uma transição. O que vemos, em vez disso, é um surto de táticas inéticas para preservar o status quo. O lobby corporativo enfraquece as regulamentações ambientais. Plataformas digitais exploram dados pessoais em nome do lucro e da influência. Empreendimentos ditos “verdes” mascaram práticas prejudiciais atrás de uma cortina de marca sustentável. Tudo é impulsionado por uma lógica de “tudo vale” — incluindo desinformação, manipulação narrativa e a captura de instituições democráticas. Trata-se de um jogo em que a ética é tratada como obstáculo, e qualquer ação, por mais questionável que seja, é justificada em nome da lucratividade. Antes, a competição era sobre produtos, inovação e trabalho. Agora, ela acontece às portas fechadas — por meio de poder, influência e controle sistêmico.
O que vem depois? A questão não é mais se o modelo atual vai colapsar — mas o que virá depois. Embora existam caminhos alternativos, eles exigem coragem política e reinvenção cultural. O futuro deve incluir modelos econômicos regenerativos que visem restaurar, não esgotar. Deve abraçar ideias como a desaceleração, que desafia nossa obsessão pela expansão infinita do PIB. Deve valorizar economias locais, circulares e baseadas na solidariedade. E deve introduzir políticas redistributivas que imponham limites à acumulação extrema e garantam uma base de dignidade para todos. Os milionários não desaparecerão da noite para o dia. Mas o mundo está sinalizando que chegou ao seu ponto de ruptura. O luxo extremo de poucos está diretamente ligado à precariedade crescente de muitos. O que antes parecia uma competição de mercado agora se tornou uma batalha moral — ou imoral. A civilização deve escolher: continuar alimentando um sistema suicida ou construir algo radicalmente diferente. A história — e o planeta — aguardam nossa resposta.
Glauco Frederico de Menezes é psicólogo social e clínico que trabalha na América do Sul. Seu trabalho também considera o impacto global de questões sociais e culturais contemporâneas no indivíduo.
