Crônica sem centro

Crônica sem centro

Centro. Reajo atento ao carro em movimento que quase me atropela. Olho a cidade. Será ela? Será esta a minha cidade? Veloz cidade entre motos e mortos que agora se acumulam dia a dia no trânsito das suas vias. Transito com cuidado porque sei que ando sempre sonhando – e sonho com seu corpo passado, com um tempo alado que ainda flutua sobre o asfalto bruto da memória que tenho de suas ruas. Paro de me mentir. Tento reagir. Tento. Mas não há como negar que com o passar dos anos venho perdendo o centro.

Ou talvez meu centro agora seja outro – ouro e unguento a me iludir com brilhos de riqueza a falsamente acolher o meu lamento. Concreto, decreto que seus vazios são meus – e que meus casarões abandonados agora são seus. Vago meus olhos vagos por eles. Seus tantos cômodos desabrigados, seus telhados, suas ruinas de histórias tão minhas a sucumbir nas esquinas feito ervas daninhas. Certamente, há hoje um outro centro – ao qual renego e não entro. Centro de arranha-céus sobre véus sem vitórias. Centro passado, herdeiro penhorado e convertido em dinheiro ganhado errado. Pobre centro, meu centro, centro de agiotas, de idiotas, centro vendido, centro coitado.

Centro sem centro. Deserto noturno a céu aberto. Centro de contradições, de tradições abandonadas, de praças feias e calçadas esburacadas. Sob suas marquises e em beira de suas guias, dormem ainda os esquecidos, quase sempre aquecidos noite à dentro à cachaça – quando há – tão companheira. São eles os seus filhos, centro, seus irmãos, sua respiração ofegante, sua triste oração desolada, seu símbolo de carne, seus ossos e sua alma violada.

Senão eles, o que sabem de ti os que não te amam, os que te negociam, os que te enganam? Centro que já foi chama. Quem são os endinheirados que te chamam “investimento”? Quem são os que te querem futuro sem saber de seu passado feito vento? Centro, centro. Quem se prostitui no centro não são aquelas que oferecem o corpo, mas os que te vendem, os que avalizam ofícios e te cravam a cada momento edifícios imensos onde habitarão um contingente sem fim quem de ti só deseja o apagamento.

Centro de larápios, de punguistas, de ladrões. Sim! O centro está cheio deles – e todos muito bem vestidos, muito bem apanhados, em seus carros importados e esnobes, e outros até – alguns – engravatados. Centro dos danados. Centro, cuidado! Há ladrões por todo lado! E de ti levam quase tudo! Só não conseguem (nem conseguirão) surrupiar o amor de quem te ama. Jamais embolsarão a sua melodia, assoviada por quem em ti diariamente caminha – caminho de gente honesta e trabalhadora que também o és.

Centro da tanta dor.

Centro coração.

Centro de tantos pés: poesia, eterna canção. A ti a minha mais sincera declaração de amor e de esperança de que, um dia, ainda veremos os seus vendilhões levarem o seu revés.

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