(M.I.C.T.M.R.) Ou: de Bach a Carlyle – filosofia, música e filologia para salvar o dia

(M.I.C.T.M.R.) Ou: de Bach a Carlyle – filosofia, música e filologia para salvar o dia

Nas aulas de latim, sempre surgem frases que levam a refletir para muito além das relações sobre a origem da nossa língua, “inculta e bela”. Foi o que aconteceu recentemente quando topei com a frase “Mens in corpore tantum molem regit”.

O latim não é difícil para quem se propõe a estudá-lo, ainda mais se encararmos as estruturas com o olhar da análise sintática. A frase na qual meditei tem vários pontos chave: “molem”, acusativo singular, funciona como objeto direto de “regit”, terceira pessoa do singular, presente do indicativo do verbo “regere”, de reger, dirigir, cujo sujeito é “mens”, substantivo feminino significando “mente, espírito”. “Tantum”, funciona como advérbio, modificando o verbo “regit” que pode significar: tanto, só, somente. “In corpore”, no corpo, é ablativo de “corpus, corporis”, substantivo neutro da terceira declinação.

Enfim, o espírito é que dirige todo o corpo. Parece frase pronta, mas não é com elas que aprendemos muito sobre nós mesmos há séculos, num eterno “Conhece-te a ti mesmo”? As Artes mostram isso durante séculos, principalmente quando nos deparamos com aquela expressão que mais tocou a humanidade ocidental, o Barroco. Tamanha Arte, com expressões na arquitetura, artes visuais, música, pintura, literatura, dominou o cenário artístico ocidental até o século XVII, com primeiras manifestações na Itália datando das últimas décadas do século XVI, enquanto em algumas regiões, notadamente na Alemanha e na América do Sul colonial, certas conquistas culminantes do Barroco não ocorreram até o séc. XVIII. Como sempre, não é só vacina que chega atrasada por aqui.

A obra que distingue o período barroco é estilisticamente complexa, até contraditória. O desejo de evocar estados emocionais apelando para os sentidos, muitas vezes de maneiras dramáticas, fundamenta suas manifestações, com toques de grandeza, riqueza sensual, drama, vitalidade, movimento, tensão, exuberância emocional e uma tendência a confundir as distinções entre as várias artes. Tamanho turbilhão de informações pode evocar a centralidade do ser humano em si, como a lenda grega.

Ovídio narra a lenda de Narciso ou “O Auto admirador” (em grego clássico: Νάρκισσος), na mitologia grega e com equivalente romano Valentim, era um herói do território de Téspias, Beócia, famoso por sua beleza e orgulho. Considerado filho do deus Cefiso e da ninfa Liríope, teria o adivinho Tirésias, no dia do seu nascimento, profetizado ao estilo de Pã que a criança teria vida longa desde que jamais contemplasse a própria figura. Narciso cresceu, e se transformou um jovem bonito de Beócia, que despertava amor em todos, independente do gênero. Orgulhoso e arrogante, até as ninfas se apaixonaram por ele, incluindo Eco, que o amava incondicionalmente, mesmo  menosprezada. Com isso, as moças desprezadas pediram aos deuses para vingá-las, e conjuraram o lado sombrio de Afrodite, Nêmesis, que o condenou a apaixonar-se pelo seu próprio reflexo na lagoa de Eco. Encantado pela sua própria beleza, Narciso deitou-se no banco do rio e definhou, olhando-se na água e se embelezando. Depois da sua morte, Afrodite o transformou numa flor, Narciso.

Pausânias (c. 115 – 180 AC), conhecido geógrafo e viajante grego, localiza a fonte de Narciso na cama juntos em Donacon, no território dos Téspios. O autor cita uma variante menos conhecida da história, na qual Narciso tinha uma irmã gêmea, tão idêntica que ambos se vestiam da mesma forma além de caçarem juntos. Narciso, apaixonado por ela, consumiu-se de desgosto após a morte da irmã, e fingiu que o reflexo que via na água era dela. Lá ficou até a morte, e, onde o seu corpo se encontrava, apenas restou uma flor: o narciso. O mesmo autor conta outra história sobre o uso da flor narciso, que fora criada para atrair Perséfone, filha de Deméter, para longe das suas companheiras e permitir que Hades a raptasse.

É preciso introduzir essa lenda para entrar no conceito de narcisismo, cuja derivação fornece outra palavra: narke (“entorpecido”), de onde também vem a palavra narcótico. Assim, para os gregos, Narciso simbolizava a vaidade e a insensibilidade, visto que ele era emocionalmente entorpecido às solicitações daqueles que se apaixonaram pela sua beleza. O mito não simboliza apenas um aspecto de negacionismo: o mito representa não só para os gregos o drama da individualidade, antes, a profundidade de um indivíduo que toma consciência de si mesmo, em si mesmo, e perante a si mesmo, ou seja, no lugar onde experimenta os seus dramas humanos. Seria uma porta para a auto-construção?

Bobbie Carlyle esculpiu algo que vai além da arte, quase um Barroco Pós-Moderno. A sua obra Self Made Man”, representando o homem que se esculpe e seu futuro a partir da pedra em bruto da qual ele emerge, retrata a ousadia de um Michelangelo “art nouveau” em bronze que poderiam bem ser representadas pela frase bem piracicabana: “Audax in intellectu et in labore”. Vamos considerar, essa obra traz um forte elemento psicológico por lidar com o espectro completo e a complexidade da emoção, as lutas e os triunfos da vida.

A escultura provoca reflexão, que é uma das funções da arte, fazer pensar sobre nós mesmos. Lapidar é talhar, polir, aprimorar, retirar arestas, processo que provoca dor em nós e em outros. Quantas vezes, no decurso da vida, perdemos pedaços de nós mesmos quando perdemos algo ou alguém querido, quando as coisas não saem como desejamos ou planejamos, quando não passamos nos concursos almejados, quando o(a) namorado(a) nos deixa, quando nos separamos de amigos queridos, quando mudamos de casa, quando a esperança parece acabar…

Lapidar sem dor, não existe, pois, é intrínseca ao ato de se esculpir. A escultura mostra o uso de martelo e cinzel, ferramentas que lascam o bronze, com batidas fortes e frequentes, nem muito leve e sem força, senão não há aprimoramento interno, provocando muitas vezes a frustração. Rubem Alves já dizia que chegara aonde chegou por uma sequência de erros, aprendendo muito com o que dá errado, ou não sai como o esperado, se assim desejarmos.

Há um fim para esse processo? Sim, a Morte. Mas, não é o fim de si, em si, antes, a admissão que tudo tem um fim que nos motiva a um novo início, nova normalidade a educar a criança, o adolescente, o adulto, enfim, como escreveu Caetano:

“Quando eu te encarei frente a frente não vi o meu rosto

Chamei de mau gosto o que vi, de mau gosto, mau gosto

É que Narciso acha feio o que não é espelho

E à mente apavora o que ainda não é mesmo velho

Nada do que não era antes quando não somos mutantes

E foste um difícil começo

Afasto o que não conheço

E quem vende outro sonho feliz de cidade

Aprende depressa a chamar-te de realidade

Porque és o avesso do avesso do avesso do avesso”

 

Reforço, ouçamos Bach e o Salmo 91:

 

1Você que habita ao amparo do Altíssimo,

e vive à sombra do Onipotente,

2diga aoSenhor: “Meu refúgio, minha fortaleza,

meu Deus, eu confio em ti!”

3Ele livrará você do laço do caçador,

e da peste destruidora.

5Você não temerá o terror da noite,

nem a flecha que voa de dia,

6nem a epidemia que caminha nas trevas,

nem a peste que devasta ao meio-dia.

7Caiam mil ao seu lado

e dez mil à sua direita,

a você nada atingirá.

É isso!

 

 

 

 

 

 

Antonio Pessotti é músico, doutor pela Universidade de Campinas (Unicamp), pesquisador colaborador do Laboratório de Fonética e Psicolinguística (IEL – Unicamp) e professor de Canto e História da Música na Escola de Música Maestro Ernst Mahle (EMPEM).

 

 


 

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