Adeus às almas

Adeus às almas

O jipe chegou só com um soldado e um cabo, conforme havia sido previsto. O Comandante-em-chefe ficou olhando, pensativo. Onde estariam os outros? O soldado e o cabo desceram do jipe meio desajeitados que desajeitosos. Ao Comandante, bateram continências tímidas enquanto limpavam das fardas o poeirão acumulado no caminho. O Comandante-em-chefe meneou a cabeça negativamente, em decepção. O soldado e o cabo tiraram dos bolsos suas máscaras hospitalares amarrotadas e fizeram menção de colocá-las no rosto. “Pode para com isso aí, pode parar! Seus maricas!” – esbravejou o Comandante. O soldado e o cabo se entreolharam e acabaram não colocando as máscaras – afinal, não havia mesmo restado mais viv’alma junto a eles e ambos também já estavam vacinados contra as sandices do Comandante. Mais do que isso, o soldado e o cabo sentiam um já costumeiro constrangimento em contrariar as ordens do Comandante – e, talvez por piedade, acharam por bem novamente fingir que o obedeciam.

Parado ao lado do jipe, que permanecia ligado, o Comandante-em-chefe parecia contemplar na distância vazia a realidade de tempos idos. E que tempos foram aqueles! O Comandante quase que sorria. Porém, a planície deserta de agora em nada lembrava a praça na qual ele gostava de vociferar seus impropérios em meio à massa – e foram tantos esses momentos, tantos os cuspes e perdigotos que se volatizaram pelos ares e que caíram como chuva sobre o povo que o aclamava. No começo, pelas manhãs e nos finais das tardes, havia sempre um frisson na hora de falar aos que se acotovelavam no cercadinho que separava o Comandante de seus comandados. Nessas ocasiões, um algo a mais tomava conta de seu espírito porcino e ele não poupava ninguém de suas declinantes declinações. Que tempos! Com era bom poder expressar-se livremente e ser acolhido no mais fundo âmago intestinal das pessoas. E não eram necessárias muitas frases nem orações complexas, não – bastavam alguns palavrões, alguns sons guturais, algumas ofensas e todo um mundo de inigualável idiotia se criava de repente. Que tempos… O Comandante-em-chefe ergueu os ombros e os soltou junto a um suspiro sentido.   

O problema sempre foi o comunismo – o Comandante lembrava-se agora de quando os primeiros comunistas começaram a morrer nos hospitais e postos de saúde do país. “Malditos comunistas!” Só para prejudicar a economia, os comunistas começaram a morrer à toa – e qualquer gripezinha já era motivo para partirem dessa para melhor, criando um caos absurdo (o Comandante se lembrava do passado assim, explicando de maneira simples, a si mesmo, coisas mais complexas que ele não conseguia entender direito). “Maricas…” Depois, lembrou-se também que os comunistas – usando um vírus feito na China só para destruir o capitalismo e fazer com que o mundo tivesse de comprar vacinas da própria China (“vejam vocês que plano!”) – instaram o terror junto ao povo. “Todo mundo vai morrer um dia, e daí?” “Vamos olhar para a economia, esquece isso!” – recordava-se o Comandante de como tentou evitar uma desgraça maior orientando racionalmente a população.

Além disso, usando sua larga experiência militar e engenhosidade ímpar, o Comandante chegou até a descobrir que remédios para vermes e piolhos eram capazes de liquidar o vírus chinês comunista – e que não seria preciso comprar o que ele, com sabedoria diplomática, chamava carinhosamente de “vachina”. O soldado e o cabo olhavam para ele e o seguiam mudos que calados. O Comandante agora franzia a testa, rememorando as lutas que travou contra o comunismo para tentar salvar seu povo, comprando e distribuindo esses remédios a todos. Triste derrota. Já era tarde para um tratamento precoce. Mortos os comunistas, começaram a morrer também os socialistas, os capitalistas, os liberais, os neoliberais, os negacionistas e até os isencionistas. 

“Eles achavam que eu era coveiro, porra…” – disse o Comandante a si mesmo, enquanto – em despedida – olhava para a terra arrasada que o cercava. Então, num giro nostálgico de trezentos e sessenta graus, ele viu pela vez derradeira tudo o que sempre imaginou que seria seu, só seu. “Não sou coveiro, porra!” – disse ainda ao soldado que agora o ajudava a subir no jipe enquanto o cabo, discreta e rapidamente, fechava a porta do Palácio. “O que é que eu podia fazer, porra? Malditos comunistas”.

Segundos depois, no meio do centrão do serrado, só o motor do jipe é que se fazia ecoar na amplidão desértica país a dentro.

Alê Bragion é editor do Diário do Engenho.

Crônica também publicada nesta quinta-feira (08/04) em A Tribuna Piracicabana.

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