Madalena, presente!

Madalena, presente!

Piracicaba perde hoje uma de suas mais ilustres e históricas figuras: a ex-vereadora Madalena. Perde também, a cidade, para o ódio, para o preconceito e para violência. Independentemente do motivo mais ignóbil e vil que possa ter levado a esse crime hediondo e brutal que tirou a vida de Madalena, difícil entender como alguém consegue praticar atos de tamanha selvageria.

Em outras palavras, é necessário entender que Madalena é sim vítima da violência que, no Brasil, mata cotidianamente a negros e negras, à comunidade LGBTQIA+ e populações periféricas – dentre outros grupos sociais costumeiramente perseguidos. Por isso, e ao mesmo tempo em que nos choca, que nos entristece e que nos indigna, a morte de Madalena nos impõe a triste percepção de que algo imediato precisa ser feito para que possamos viver numa sociedade diferente – justa, humana, equânime e muito (muito) mais amorosa.

Madalena foi muito mais do que uma vereadora, muito mais do que uma trabalhadora doméstica, muito mais do que uma figura – por que não dizer – folclórica dentro da cultura piracicabana.  Sua alegria, seu bom humor, sua irreverência e, mesmo, sua ousadia e coragem marcaram época e desafiaram por décadas o conservadorismo tacanho dos piracicabanos – provocando, também por que não dizer, um novo olhar sobre as relações pessoais, sobre as relações de gênero e sobre manifestações acerca de padrões sexuais e comportamentais que precisavam vir à tona e serem expostos em praça pública.

Ou seja, quando ainda não se falava e se defendia publicamente o direito de cada um ser o que quiser ser, quando os últimos raios do falso moralismo de um regime ditatorial ainda podiam ser fortemente sentidos na cidade de Piracicaba, Madalena descia a Rua Governador escancarando alegria, distribuindo beijos, provocando as pessoas que passavam e mostrando que – sim – cada um pode ser feliz do seu jeito. Por isso, quem viveu a Piracicaba nos idos da década de 1980 vai se lembrar de Madalena, em meio à tradicional Banda do Bule, distribuindo flores para os homens que transitavam pelas ruas por onde a banda ia passando.

Eleita vereadora, Madalena sentiu o peso de defender seus ideais e ideias. Por vezes, foi ameaçada de morte. Adoecida, chegou a se afastar  do cargo no legislativo para cuidar da saúde – que sentia, evidentemente, a carga que suas bandeiras e sua luta se lhe impunha nos ombros. Todavia, e mesmo distante da Câmara, Madalena jamais deixou de ser quem era – e jamais deixou de transformar a realidade a sua volta e à volta de nossa gente.

Que seu algoz ou algozes sejam identificados, julgados e condenados. Que sua morte possa, ao que nos pese a tristeza, ser ainda mais um sinal de alerta para que busquemos sempre o resgate de nossa humanidade. E que sua alegria, sua ousadia, sua força, sua determinação e sua coragem nos sejam hoje e sempre exemplos a nos modificarem e a nos impulsionar diuturnamente na luta pelos direitos de todas e todos.

Que nosso nome também seja Madalena!

Madalena, presente!


Rai de Almeida é vereadora pelo Partido dos Trabalhadores.

(Foto de capa: Foto: Emerson Pigosso)

2 thoughts on “Madalena, presente!

  1. Simplesmente irretocável as palavras da vereadora Rai ! Descanse em paz vereadora Madalena, pessoa linda e batalladora que fez muitas amizades entre nós. Esse possível crime não pode passar em branco. Justiça à Madalena!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *