Brasil-escória

Brasil-escória

Editorial sem meias palavras

É preciso definitivamente entender a situação em que nos encontramos enquanto nação neste trágico momento de nossa história. Hoje, a necessidade de um “quem somos nós neste caos?’ e de um “por que chegamos ao que chegamos?”, senão nos garante nossa sobrevivência pessoal ou coletiva, ao menos nos coloca menos alienados ou idiotizados diante da eminência da morte que ronda a nossa porta. Para tanto, partamos inicialmente de alguns rápidos dados.

Morreram mais brasileiros por conta da Covid-19 somente um único dia nesta primeira semana de abril do que na China ao longo de um ano de pandemia. Pior. Em um ano, a Covid-19 matou mais gente na zona leste da capital paulista do que na China toda até aqui (sendo a China um país com uma superpopulação de 1,4 bilhão de habitantes). Quer conferir? Clique aqui. À beira dos 400 mil mortos, estamos prestes a ver em nosso país um número de vítimas fatais da Covid-19 que será duas vezes maior do que o número de soldados americanos mortos na II Segunda Guerra. Não acredita? Confira aqui.

Epicentro da pandemia no mundo, com média móvel de “baixas” quebrando recordes no planeta, com novas cepas e variações surgindo a todo instante por aqui (só em Belo Horizonte já foram identificadas 18 mutações do vírus nesta semana – confira) somos a escória do mundo, temos – evidentemente – um sem-fim de restrições para a entrada de brasileiros em outros países, temos restrições em nossas fronteiras e somos diariamente condenados pela imprensa e organizações mundiais atentas ao genocídio que aqui ocorre.

No cerne dessa tragédia, estamos à mercê de políticos incompetentes e tresloucados que acham que a terra é plana e que remédio de piolhos e outros vermes é tratamento precoce para a Covid-19. No momento mais cruel de nossa história enquanto nação, estamos submetidos àqueles que defendem o mercado a todo custo e que zombam dos mortos, que minimizam a tragédia nacional e se recusam a assumir posturas calcadas na ciência. Acumulamos ministros da saúde, deixamos de comprar vacinas, não usamos as máscaras de proteção como se deve, não fazemos lockdow, não ouvimos a ciência, não acreditamos que o vírus sequer exista.

Impulsionados por incapazes que vomitam sandices e vislumbram apenas a manutenção do poder ao qual imbecilmente foram alçados – parte expressiva dos brasileiros e brasileiras, sim, minimiza a pandemia e as mortes. Que país é este? Que país é este em que aqueles que deveriam defender a Constituição e a Lei citam versículos bíblicos e são aplaudidos pela massa? Quem somos nós? Nos acostumamos à barbárie ou somos parte fundamental dela e seu motor?

Falhamos individualmente. Falhamos enquanto nação. Nos deixamos dominar pela fé cega. Deixamos que nosso povo fosse transformado numa imensa seita feita de um infindável número de religiões e igrejas cheias de falsa moral, de um cristianismo forjado e ávido por dinheiro. Falhamos nas escolas, falhamos na cultura – e nos deixamos aniquilar pela indústria cultural que dinamitou nossa capacidade de crítica e reflexão. Por fim, nos tornamos o clássico opressor que, antes oprimido, agora quer fazer valer a sua vez de bater e matar. Falhamos em quase tudo.

Estamos sendo exterminados dia a dia, minuto a minuto. Mas quem se importa? O que é a vida ante o capital que aprendemos a adorar? Mortos são só números? 1 mil. 2 mil. 3 mil. 4 mil. 400 mil. Quem são esses? Por que não exigimos que o governo federal, que o governo estadual e municipal nos garantam condições para que todos nós (todos e todas) possamos ficar em casa? Por que nos acostumamos a aceitar o escárnio, a burrice, a loucura e o descaso como norma? Por que nos submetemos sem reação?

Vivemos um genocídio e não nos damos conta dele. Talvez mereçamos. Talvez o darwinismo social que praticamos sem pensar esteja agora em sua potência máxima e precise nos exterminar para construir um novo país – a ser erigido não na dor, não na mentira, não na fé moralizante, não na violência gratuita, não na incompreensão, não na bajulação do militarismo que nos oprimiu e oprime e não sob tantas outras mazelas que nos formaram e fizeram de nós um país (vejam que absurdo) frio – por mais paradoxal que possa parecer.

Triste país que morre – sem ar e sufocado também em sua própria ignorância. Talvez não tenhamos nem mesmo a capacidade de renascer.


(Foto: Dede – Amazonia Legal)

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