A passarela que Piracicaba prefere não atravessar

A passarela que Piracicaba prefere não atravessar

No dia 29 de abril de 2026, a Prefeitura de Piracicaba abriu licitação para a construção de uma passarela metálica de 6,4 milhões de reais sobre a avenida Dr. Paulo de Moraes, ligando a Área de Lazer do Trabalhador Antônio Geraldin ao Parque da Rua do Porto. A Secretaria de Turismo informa que a obra terá “design futurista que remete a um peixe”, em alusão ao nome tupi da cidade, e deverá se tornar “mais um atrativo turístico”. Trata-se de um futuro sem vínculo com o próprio passado arquitetônico do entorno, não há diálogo com o nosso maior patrimônio que é a atmosfera “colonial” da Rua do Porto, que o diferencia de um lugar genérico que poderia estar em qualquer cidade. É uma mania nosssa.

O Brasil sempre quis ser moderno sem olhar para o passado. A elite oitocentista mandava os filhos para a França, importava arquitetos, derrubava igrejas barrocas para erguer fachadas neoclássicas e financiava tudo isso com o trabalho dos escravizados nas senzalas. A modernidade brasileira nasceu dependente do atraso que se recusava a reconhecer. O historiador alemão Walter Benjamin, numa imagem célebre, descreveu o progresso como um anjo arrastado por uma tempestade, com o rosto voltado para o passado, vendo crescer diante de si um monte de escombros. Em Piracicaba, os escombros têm documentos, datas e endereço.

O caso da Igreja e da Irmandade de São Benedito mostra como, durante décadas, a Câmara Municipal trabalhou de forma contínua contra a própria história da cidade. A reconstituição cuidadosa feita pelo historiador Guilherme Vitti, a partir das atas, deixa o padrão à vista. A primeira menção à Irmandade da Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos data de 1824. Em 1858, a Irmandade ainda tinha voz e negociava com a Câmara um pedaço do Cemitério da Vila (designação utilizada pelos vigários nosassentos de óbitos registrados no arquivo da Diocese) na atual Praça Tibiriçá. A partir de 1869, começam as pressões. A Câmara ameaça retirar o direito de enterramento, em 1886 tenta abrir uma rua atrás da igreja e, em 5 de maio de 1888, oito dias antes da Abolição, pede a demolição da taipa que vedava o pátio dos fundos sob a alegação de que ali aconteciam “atos ofensivos à moral”. Vale parar aqui um instante. Que moral era essa? Em 1987, num livro hoje clássico, a historiadora Célia Maria Marinho de Azevedo revelou que a elite enxergava a presença majoritariamente africana das vilas como um perigo iminente, ameaça coletiva que precisava ser contida por todos os meios disponíveis, da polícia ao branqueamento, da repressão à reforma urbana.

Em Piracicaba, esse medo tinha objeto concreto. Tratava-se da articulação real da população negra, capaz de produzir, sob uma figueira ou atrás do muro da igreja, batuques que sustentavam memória, devoção e política ao mesmo tempo. O que se chamava de “imoralidade” em maio de 1888 era a linguagem desse medo diante daquelas formas de reunião. A moral invocada pela Câmara era a moral do controle, e o controle era, no fundo, a contenção do medo provocado pela culpa inconsciente. A irmandade resistiu, mas se enfraqueceu.

Curiosamente, o largo em volta da igreja não deixou de ser, depois disso, lugar de ajuntamento popular. Em 1902, A Gazeta de Piracicaba anunciava ali um espetáculo circense da companhia equestre de Galdino Pinto, com o palhaço Polydoro. O Largo de São Benedito, antes funerário, devocional e político da população negra, virou também praça de circo, festa e circulação popular ao longo do século XX. Não faltam, hoje, iniciativas que buscam resgatar essa vocação popular. A Rota Afro, com apoio do SESC e do IHGP, reinsere a Igreja de São Benedito e a Praça Tibiriçá no mapa de memória da cidade. O Baque Caipira retoma o espírito do Largo de São Benedito e da Praça Tibiriçá como um espaço de cultura popular.

Vale dizer o óbvio. Ninguém é contra modernizar a cidade. Todo mundo quer viver numa Piracicaba bonita, próspera, com turistas, com equipamentos culturais. O ponto está em outro lugar. A passarela de 6,4 milhões de reais nasce sem diálogo com a Rua do Porto que ela diz valorizar, e o seu “design futurista que remete a um peixe” não dialoga com a paisagem arquitetônica da região nem com quem vive nela. Reproduz, no método, exatamente o gesto histórico, o gesto de decidir de cima, em nome do progresso, sobre um território cuja história foi feita de baixo. Esse é o atraso que a modernização piracicabana segue carregando, e que custa caro. Uma cidade que não suporta a própria história continuará erguendo pontes, cada vez mais luminosas, sobre os lugares que finge ter esquecido.

 


Rafael Gonzaga é historiador, doutor em história social pela PUC-SP

 

(Imagem de capa: ilustração divulgada pela Prefeitura Municipal de Piracicaba).

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