Amou (amamos) daquela vez como se fosse a última. E era. Quem diria? Tijolo por tijolo – ou tijolinho à vista por tijolinho à vista – desconstruiu-se, proparoxítona por proparoxítona, um verdadeiro império pelo qual transitaram a um só tempo mais de 14 mil alunos e alunas. Sem recebermos beijos como se fôssemos filhos pródigos, tropeçamos no céu da ilusão, flutuamos no ar e agonizamos todos – comunidade inteira – na contramão (sem sequer atrapalharmos o tráfego: que o som grave do corpo unimepiano batendo ao chão foi incapaz de acordar aos que – sentados para descansar como se fosse sábado – assistiam o ruir de uma universidade inteira.
Desenho ilógico, quem viu o vídeo que circulou pelas redes sociais piracicabanas esta semana – no qual um cidadão, ao que parece inadvertida e oportunamente, filma e registra como está o interior do que um dia foi o campus Taquaral da Universidade Metodista de Piracicaba -, pode rever os tijolinhos à vista que tanto caracterizaram a arquitetura da Unimep e se tornaram um de seus mais afetivos símbolos. Tijolo por tijolo, a desconstrução unimepiana (retratada no vídeo de maneira única até aqui) expõe o cadáver de uma instituição e as ruínas de uma arquitetura que, em via de mão dupla, simboliza também a desconstrução de nosso próprio tempo e cidade.
Nem Chico Buarque seria capaz de explicar com alguma lógica – mesmo que poética – o que aconteceu com a Unimep e com os tijolinhos que sustentavam uma das mais importantes universidade particulares do país. Desenho ilógico, é impossível (pelas vias do racional) entender como é que o grupo religioso que fundou e mantinha a Unimep não foi capaz de interferir no seu processo de desconstrução a fim de salvar não apenas a instituição mas, de alguma forma, o respeito (que se sempre se teve) pela presença metodista no Brasil e – em especial – em Piracicaba. No mesmo sentido, não houve também um filho pródigo sequer – entre tantos ilustres nascidos nessa universidade – que ousasse atravessar a rua como se fosse máquina e buscasse – efetivamente – salvar essa universidade, evitando que ela despencasse do alto de sua própria desconstrução.
Com seu passo bêbado, morreu um instituição centenária – fruto da primeira escola metodista no Brasil. A incredulidade da fala do cidadão que fez o vídeo das ruínas da unimep é também a nossa aqui do DE. Como foi possível? – perguntam nossos olhos embotados de cimento e lágrimas. Terá sido um projeto? Terá sido – como muito acontece no Brasil (e em especial, novamente, em nossa cidade) uma desconstrução planejada? Era hora de por fim a “esquerda” unimepiana? – como muitos insistiam em dizer. Desenho ilógico, e plenamente possível.
Morreu a Unimep – mas seu corpo ainda jaz estirado (como um pacote flácido) em pleno sábado. Com ela morreu, no passeio público, também a cidade de Piracicaba – e não é exagero dizer que, por aqui, curiosamente nada mais frutificou ou vingou depois do fim dessa instituição. Afinal, Piracicaba anda para trás desde então – e essa afirmação não é mera argumentação. Tijolo por tijolo, de prefeito ruim atrás de prefeito ruim, de politicagem atrás de politicagem, vem ruindo também a nossa cidade – enquanto os piracicabanos e piracicabanas comem feijão com arroz como se fossem príncipes. Será coincidência?
Triste cidade. Triste canção. Desenho ilógico. Desconstrução e mortes (mais do que) anunciadas.
Diário do Engenho.

O Editorial descreveu bem, com amarga poesia!
Triste, desanimador este estado em que se encontra a UNIMEP…
O último parágrafo fecha mostrando a realidade do status do incivilizado cidadão piracicabano…
Apesar de triste, parabéns ao Alê Bragion pelo belíssimo texto!!! 👏🏼👏🏼