A ignorância sobre o 31 de março

A ignorância sobre o 31 de março

Para quem tem menos de 50 anos, dificilmente o 31 de março terá algum significado maior. Fica como mais uma das datas da história brasileira – com alguns defendendo veemente uma versão cheia de saudosismo a um golpe militar e outros tentando manter viva a memória em torno de uma luta contra ele e suas práticas.

Penso ser uma ilusão mantida apenas em uma bolha de intelectuais, alguns professores e os militantes contra a ditadura ainda vivos, de que se trate de uma data que mexa com emoções, com conceitos, com compromissos baseados em democracia, liberdade, respeito aos direitos humanos.  Para a grande população brasileira, se questionada, seja ela mais ou menos escolarizada,  o golpe militar ou a “revolução”, como alguns ainda insistem em definir que o que houve em 64 é algo que pouco importa. Que não faz diferença no dia a dia. Que talvez tenha sido objeto de algumas poucas aulas, especialmente para os jovens, durante o ensino médio.

Depois de passar anos envolvida nesta temática, de pesquisar, publicar, participar de debates, ter construído uma biblioteca particular especializada nesta área, não me iludo. Poucos sabem o que aconteceu. Poucos se importam e se interessam realmente. Poucos ainda estudam o assunto. Até mesmo um recente ministro, nem tão jovem, comentou com tranquilidade sobre por que deveria saber detalhes sobre o AI-5, uma das mais fortes referências sobre o autoritarismo militar de 64. E a tendência é que o interesse e o apelo diminuam ano a ano.

Tenho para mim que a maior oportunidade para mostrar às gerações mais jovens – e interessá-las – sobre o que ocorreu naqueles anos se perdeu quando todo o trabalho da Comissão Nacional da Verdade teve pífia divulgação. E não só ela, mas tantas outras comissões da verdade instaladas em universidades, em cidades, em instituições específicas. Há milhares de páginas documentadas, cujo conteúdo não tem como ser contestado, dados os depoimentos e arquivos o sustentam. Dali podem se extrair dezenas de publicações sobre pessoas – conhecidas e anônimas – e como tiveram suas vidas afetadas pelos militares durante o tempo em que estiveram a frente do poder, com suas arbitrariedades,  sua ditadura instalada,  as torturas e mortes nunca esclarecidas ou punidas. Nenhum professor ou acadêmico que queira dados pode reclamar da falta deles, considerando-se esse material hoje disponível com um simples toque em botões de um computador.

Mas tenho para mim que isso apenas supriria uma lacuna muito maior que foi o medo que envolveu a maioria daqueles que viveram a ditadura em falar sobre ela. A censura não ocorreu apenas nos meios de comunicação, nos instrumentos culturais, na vigilância forte que se fazia sobre as lideranças. A censura parece ter ficado entronizada entre aqueles que tiveram que fugir, buscar o exílio, ver filhos mortos ou desaparecidos. Durante décadas houve silêncio entre familiares, vizinhos e amigos, gente comum que foi tão afetada como as figuras que se tornaram públicas e com militância mais conhecida. Quando começaram a falar – e nem foram tantos assim dispostos a contar o que haviam vivido –, novas gerações já haviam se formado e até punham em dúvida o que ouviam.

Ao final dos anos 1990, quando pouco se conhecia do conteúdo dos arquivos do DEOPS-SP, recebi um pedido insólito de uma jovem de Piracicaba, que militara nos piores anos do governo militar, que fizera parte dos procurados nos cartazes espalhados pelo país, quando a entrevistei. Sabendo que eu tinha em mãos farta documentação recuperada sobre sua atividade, inclusive no assalto a bancos, ela perguntou se eu não poderia dar-lhe uma cópia. Com uma filha adolescente, nascida no exílio, ela me dizia, entristecida, que a garota apenas ria quando ela lhe contava de sua luta, praticamente sendo incapaz de acreditar que a mãe tivesse realmente realizado tais “proezas”.

Especialmente este 31 de março – que o atual governo insiste em defender e apontar como “salvador de uma pátria infestada por comunistas” – deverá passar batido para maioria dos brasileiros. A eles pouco interessa algo ocorrido há mais de 50 anos, quando o que agora realmente importa é apenas sobreviver a uma pandemia. Se tivessem sido melhor informados e formados no conhecimento da história de seu país, entenderiam que só chegamos onde estamos porque os militares nunca foram punidos, porque seus atos passaram a ser até aplaudidos, porque a tortura deixou de gerar indignação, porque os privilegiados continuam donos da corrupção, porque há muito o foco de fazer da educação uma forma de controle e não de conhecimento e avanço foi se fortalecendo desde 64. Quem duvidar pode consultar os relatórios das comissões da verdade, ao invés de simplesmente ignorá-los.


Beatriz Vicentini é jornalista.

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