Utopia – preposições de alternativas societárias

O ouro e a prata não têm, nesse país, mais valor do que lhes deu a natureza. Esses dois metais são ali considerados bem abaixo do ferro, o qual é tão necessário ao homem quanto a água e o fogo. Com efeito, o ouro e a prata não têm nenhuma virtude, nenhum uso, nenhuma propriedade cuja privação acarrete um inconveniente natural e verdadeiro. Foi a loucura humana que pôs tanto valor em sua raridade.

                                                                                          

                                                                                                          Thomas Morus –

 A Utopia.

 

As profundas desigualdades estruturais e a rígida ideologia econômica, esta última pautada na doutrina neoliberal do pensamento único, evidenciam, no espectro da crise mundial do capitalismo, um cenário que não sugere esperança. Ora, a dureza do cotidiano, acrescida à ausência de perspectivas – tanto existenciais quanto políticas –, acaba por mergulhar a sociedade, bem com os indivíduos, em um profundo sentimento de mal estar. A civilização encontra-se, então, lançada a total inércia e marasmo, no que tange às alternativas a apontarem possibilidades para novos caminhos societários. As gritantes contradições, a assolarem o contemporâneo, não deixam de conclamar, com veemência, pelo pensamento utópico, sugestionando projetos e possibilidades societárias, valores e prognósticos.

Há, de fato, obras literárias e filosóficas de caráter utópico, a remontarem da antiguidade, tão logo questões da organização da sociedade e das relações sociais tornaram-se preocupações no âmbito da reflexão filosófica. De certo modo, a origem delas se encontra na obra A República, século IV a.C., do filósofo grego Platão. Em sua República, intencionando representar uma sociedade que supere as contradições de seu tempo, Platão avança na negação do sistema democrático, pois entende que o governo da polis deve estar nas mãos da aristocracia culta. O filósofo descreve seu ideal de sociedade, propondo ousadas reformas, que não deixam de alcançar aspectos inusitados: comunidade de bens, comunidade de crianças, comunidade de mulheres, negação da propriedade privada.

O próprio cristianismo guarda e contempla, em sua memória originária, na tradição das primeiras comunidades cristãs, ainda no contexto da Antiguidade, vestígios e referências de experiências utópicas. Tanto nos relatos dos Evangelhos quanto nas narrativas dos Atos dos Apóstolos encontramos diversas alusões ao ideário da comunidade de irmãos, livres de qualquer distinção – seja de gênero, de origem étnica ou mesmo social –, a disponibilizarem e colocarem os bens em comum, revelando traços de um projeto utópico. Ainda encontramos eco e herança deste cristianismo utópico, na articulação da Teologia da Libertação, a fomentar a prática das Comunidades Eclesiais de base, vislumbrando novas estruturas eclesiais, econômicas, políticas e sociais.

Entrementes, o termo utopia aparece pela primeira vez no contexto do Renascimento, em 1516, no livro A Utopia, do filósofo Thomas Morus. Na obra em alusão, Morus elabora um sugestivo e interessante relato acerca da dinâmica social marcadamente justa e igualitária que compõe a estrutura da ilha de Utopia. Em linhas gerais, na ilha de Utopia, não há propriedade privada, logo a sociedade encontra-se livre de desigualdades sociais. O dinheiro e a posse de metais preciosos – como o ouro, por exemplo – não são considerados relevantes, ao contrário, expressam ignomínia. Os bens materiais, produzidos coletivamente, são fraternalmente distribuídos, respeitando as necessidades de cada um. A educação compõe-se como um bem acessível a todos os utopianos. A própria religião, contemplando a diversidade de práticas, assume uma dimensão de liberdade e fraternal convivência na ilha de Utopia.

Outra obra de referência do pensamento utópico é A Cidade do Sol, de 1623, do filósofo e teólogo renascentista Tommaso Campanella. Estruturada a partir de um governo guiado pela razão, a sociedade ideal, vislumbrada por Campanella, não comporta propriedade privada e os bens produzidos pertencem à coletividade, banindo-se a desigualdade econômica. Na utopia de Campanella, igualmente, não há hierarquias, a definirem lugares de privilégios. Todos são iguais, independente das funções que exercem. As residências são coletivas, abolindo-se a noção de família e de bem privado. Os interesses coletivos suplantam qualquer perspectiva de bens individuais.

Ora, a palavra utopia, de maneira literal, significa lugar nenhum, não lugar. Denomina-se utopia a toda proposição que almeja alcançar e criar uma sociedade perfeita, livre de contradições. A utopia formata-se em torno de teorias, ideias, representações, proposições etc., a sugerirem outra realidade – uma realidade ainda inexistente. O termo utopia passou a designar toda proposta social, anterior ou posterior a Thomas Morus, que tematize uma sociedade ideal, supondo que todos os problemas fundamentais da humanidade estariam solucionados. O projeto utópico contempla, dialeticamente, a crítica e negação da própria sociedade estabelecida; ao mesmo tempo em que anuncia e propõe uma dinâmica social alternativa. O pensamento utópico, imbuído de uma profunda perspectiva crítica e problematizadora, desvela-se como fundamental instrumento de articulação e proposição de alternativas societárias. Representa a superação de todo e qualquer discurso, ideologia,pensamento, elaboração teórica a enfatizarem o fim da história e a derrocada de todos os sonhos de resistência e inspiração libertária. Lança o germe a inspirar relações mais equânimes e democráticas, quando se quer a sociedade justa e a dimensão humana resgatada. 

——————————————-

O autor

 

Adelino Francisco de Oliveira é filósofo e professor da Faculdade Salesiana Dom Bosco de Piracicaba

6 thoughts on “Utopia – preposições de alternativas societárias

  1. Boa tarde Mestre Adelino!

    Como sempre sábias palavras que nos levam a repensar a humanidade em sua totalidade…parabéns!
    Confesso a falta que sinto das noites em que tais palavras agregam tanto para o meu conhecimento e me faz esquecer das banalidades dos BBB´s da vida.

    Um abraço!

    Esteja bem.

    NALDO

  2. Estimado Naldo,

    É bom saber que você persevera na disposição de refletir criticamente. Ainda teremos boas oportunidade de encontro e reflexão.

    Esteja bem!

    Com os melhores cumprimentos.

  3. Estimado Álvaro França,

    Talvez a nossa grande utopia seja uma sociedade na qual todos tenham acesso à uma educação de qualidade, promotora dos mais elevados valores humanos.

    Agradeço pela partilha e interlocução.

    Esteja bem!

  4. Professor Adelino boa noite.

    Em relação ao assunto formo a seguinte opinião que para a formação da sociedade utópica não é necessário a desestruturação da família, e nem da individualidade pois todos precisam de um lugar ou algo que seja seu, mas todos tendo o necessário para viver suas vidas com conforto, é logico que precisamos mudar mas acredito que não é a família nem a individualidade que são os culpados desse problema e sim uma sociedade mau estruturada e a individualidade gananciosa, a sociedade precisa se ajudar mas não é necessário destruir a família pra que ela se ajude.

    Eu só não sei como fazer com que todos indivíduos tenham consciência disso,pode ser que esse é o sentido de terem inventado as primeiras religiões,hahaha.Acho que em base é essa minha ideia a força sempre vai esta no conhecimento.

    Agradeço pela reflexão, é sempre bom aprofundar as ideias.

  5. Prezado Matheus,

    Talvez o mais interessante do pensamento utópico não esteja em algumas propostas objetivas, mas no convite a buscar outras alternativas… O importante consiste na percepção de que as sociedades decorrem de construções históricas.

    Esteja bem!

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *