Um lance de dados.

Deus joga dados com o Universo. Contrariando o que disse Einstein, Stephen Hawking, outro semideus da física moderna, afirmou certa vez que em se tratando do aparecimento de buracos negros no espaço, Einstein estaria errado na sua afirmação. “Einstein estava errado quando disse que ‘Deus não joga dados’. Considerando o que os buracos negros sugerem, Deus não só joga dados, Ele às vezes nos confunde jogando-os onde ninguém os pode ver” – teria afirmado Hawking. Eu, que não tenho lá muita sorte em jogos de azar e desconheço por completo o conteúdo astrofísico que Einstein e Hawking conheciam melhor e mais profundamente do que o que sabiam sobre os próprios almoços, lanço-me aqui numa mais que arriscada e perigosa artimanha linguística no que diz respeito ao uso de citações e atrevo-me – e o fim dos tempos nos permite algumas aventuras – a descontextualizar as afirmações desses gênios para afirmar, com a minha pouca genialidade de sempre, que para mim Deus joga dados conosco o tempo todo.

Mallarmé talvez pensasse nisso – em Deus jogando dados com o universo sobre um tabuleiro, ao pé da lareira da eternidade – quando escreveu seu famoso livro-poema “Um lance de Dados” (em francês Un coup de dês). Já pensou? O destino da humanidade girando dentre de uma canequinha, dentro de uma xícara, até ser lançado no espaço-tempo dos homens e apresentando-se a eles já determinado e fatalmente acabado. Talvez, se Deus jogar os dados sozinho, numa mesa de jogos coberta com um feltro verde (de esperança), quem sabe possa Ele fazer uma fezinha em si mesmo e desejar que os dados, divinos, revelem um destino numérico cabalisticamente criativo e vital ao rolarem sobre o tabuleiro do mundo. Mas se Deus for um jogador desses compulsivos – o que parece ser, aliás –, desses que viram noites entre copos de uísque e cigarros, a chance de a humanidade ser extinta num lance de azar deve ser quase sempre muito grande – e pode se concretizar numa noite qualquer dessas, quando o Todo-Poderoso errar a mão feio, deixando cair sobre nossas cabeças os dados cruéis do destino que se finda.

“Um lance de dados jamais abolirá o acaso” – Un coup de dés jamais n’abolira le hasard – escreveu Mallarmé, provocando o leitor de seu livro-poema a imaginar a seguinte cena: “Pegue um Mestre, coloque-o em um navio que está naufragando e imagine o lance de dados. Ele está nas mãos do destino. É o último desafio que lança ao céu. Mas será ele mais forte do que o acaso?” O livro-poema de Mallarmé, de grande formato e beleza, foi concebido pelo poeta para ficar aberto numa mesa: são onze páginas duplas com caracteres “de raro uso”. Mallarmé dedicou ao livro um cuidado especial e corrigiu com zelo todas as várias provas entregues pela editora. Ao final, quando o livro estava a gosto e pronto para edição, Deus jogou seus dados novamente. Mallarmé morreu no dia seguinte à última prova – e, obviamente, nunca pode ter em mãos a versão final impressa do que ele chegou a chamar de a “edição mais linda do mundo” (a qual, aliás, diga-se de passagem, só foi realmente publicada muito tempo depois da morte do poeta).

Naufragando no barco poético-metafórico de Mallarmé estamos todos nós agora. Nas mãos de Deus, giramos dentro de um copinho e esperamos que nossos números da sorte surjam como a luz do sol ao amanhecer sobre um campo de trigos. Porém, a nossa realidade não é nada poética nem tem apanhadores pelo campo ao final da página. Pior. Nosso barco mallarmeano que naufraga não é conduzido por um Mestre sensato. No descomando da embarcação brasileira, um ex-capitão do exército – aposentado por invalidez e demência – deixa o leme à deriva enquanto diz obscenidades e ofensas aos navegantes, fazendo orientações absurdas a todos e dando ordens imbecis à tripulação despreparada que ele mesmo colocou no comando da nau. Nosso derradeiro lance de dados – para além do que disse Einstein, Hawking e Mallarmé – teria um assim elemento nonsense a mais a nos anunciar que já não nos basta a sorte de acasos felizes ao final da jogada divina. Nossos dados estão viciados e foram batizados nas rodas mais perversas do crime e da milícia que adentram a esfera do poder político nacional. Neutralizado pela burrice humana, talvez Deus não precise mais jogar seus dados por aqui. O lance final, e fatal – tristemente mallarmeano e depressivamente astrofísico – talvez já não precise mais ser jogado. Nossa embarcação pode naufragar antes da jogada divina.

(Crônica publicada originalmente em A Tribuna Piracicabana, 24/03/20)

Alê Bragion é editor do Diário do Engenho e um péssimo jogador de dados.

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