“Saudades, coretos e praças” – por Júnior Flôr

Andava cabisbaixo no trabalho. Remuneração boa, família estruturada sem problemas. Mas algo sempre o deixava entristecido: a saudade da cidade natal. Resolveu tirar um fim de semana para rever os amigos de outrora e a cidade onde viveu a infância e adolescência. Foi em busca dos amigos de outrora.

Planejou tudo. Olhou fotos do passado, imaginou como estaria fulano, beltrano e aquela praça onde todos se encontravam antes de ir para a aula. Flutuou pelas imagens nas fotografias guardadas de longo tempo. Separou algumas e colocou em um envelope. Sua mulher havia concordado com o passeio. Até seria bom para o filho conhecer onde seu pai brincava na infância. Partiram para um alegre fim de semana junto aos amigos de outrora.

 Deixaram a paisagem cinzenta da capital e rumaram a caminho do verde que cercava sua cidade de origem. No caminho, narrava para o filho como era a cidade. Pequenina, com uma praça pequena, coreto no meio da praça.

– Pai, o que é coreto?

Ficou embaraçado e a melhor resposta encontrada foi dizer ao filho que iria mostrar e contar histórias com todos sentados no coreto da praça, como fazia na infância.

Horas de viagem. As lembranças do passado vivido retiravam qualquer cansaço. Chegaram pela madrugada à cidade e encontrou, logo na entrada, algo que ele não sabia existir (pelo menos lá): um hotel. Para não acordar nenhum dos parentes, nem amigos, foi ao tal hotel descansar da viagem.

Saltou cedo da cama. Acordou esposa e filhos. Vamos, temos pouco tempo e muitas histórias por contar. O clima era o mesmo, ameno. A paisagem era outra. As ruas asfaltadas. Não conseguia ver o prédio dos Correios. Era ali, dizia ele. Caminhou um pouco mais e os rostos de outrora não conseguia enxergar. Sabia os endereços. O Rogério morava na rua conhecida como Rua de Cima, e o Francisco, na Rua de Baixo. Assim eram conhecidas as ruas em sua infância. Via agora que somente pelos nomes, cuja lembrança não tinha, encontraria tais ruas. Havia uma rotatória no centro da cidade. Também inexistente em sua época.

         – Pai, onde é o Coreto?

         – Chegaremos lá em pouco tempo.

 A esposa percebendo a aflição tratou de acalmar o filho. Mas sua preocupação residia no esposo. A tal rotatória construída no centro da cidade com o objetivo de facilitar o trânsito havia sido erguida no lugar da saudosa praça, do coreto.

 Caminharam até a rotatória e ele, com olhos marejados a esconder do filho. Sentaram em uma parte cimentada que circundava árvores na tal rotatória. Como iria dizer ao filho que ali era a praça? O coreto não mais existia?

Angústia.

Dirigiu-se, então, a uma banca de revistas. Havia visto que o dono era o mesmo, Sr. Antônio – aquele que lhe dava figuras para colecionar na infância. O proprietário olhou meio que desconfiado e não acreditou no que via. Era aquela criança, magra, que tanto brincava com figuras. Como havia crescido. Uma festa. Perguntou a Sr. Antônio o que havia ocorrido com a cidade, que não conseguia encontrar as ruas do passado, a praça onde brincava e nem o coreto. Muito menos as pessoas de outrora.

Depois de duas horas de conversa sob olhar atento da esposa e do filho, saiu da pequena banca mais triste que quando havia saído da capital. Havia descoberto que sua cidade era tão moderna quanto o cotidiano da capital. Ninguém mais sentava nas calçadas à noite para conversar. A praça? Demolida em nome da modernidade. O coreto? Quem se importa hoje com coretos? E os amigos? Estavam todos perto dele. Apenas não sabia. Residiam todos na capital. Alguns poucos haviam ficado na cidade. Um era o Prefeito e o outro era proprietário de uma escola.

 Resolveu partir sem almoçar. Comeriam quando chegassem. Viagem amargurada a de retorno. Resolveu passar as fotos à esposa pedindo que separasse uma onde era mostrado o coreto.

         – Filho, olha como era o Coreto.

         – Pai, que coisa linda. Devia ser divertido brincar aqui.

Guiava de retorno à cidade grande, não podia chorar. Entendeu que teria ]de matar suas saudades nas fotografias trazidas. Elas formavam sua memória. Sorriu entristecido escutando perguntas sobre coretos vindas de seu filho embelezado pelo que nunca havia conhecido: o coreto na praça.

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O AUTOR

 

José Flôr de Medeiros Júnior nasceu em Esperança – PB, radicado em Campina Grande – PB, desde 1990. Graduou-se em História na (UEPB) e é especialista em História do Nordeste (UEPB) e em Sociologia (UFPB). Lecionou no Curso de História na Universidade Estadual da Paraíba e na Universidade do Vale do Acaraú. Tem pesquisas no campo da História das Religiões e História Política, especificamente nos estudos sobre a República Brasileira e a formação dos Partidos Políticos no Brasil – e é um apaixonado pela literatura.  Contato – twitter: @juniorflor

(foto extraída do blog do autor)

1 Comment on "“Saudades, coretos e praças” – por Júnior Flôr"

  1. Já tinha passeado neste belo texto no blog do autor.
    Texto doce, que deixa em gostinho de saudade e nostalgia.
    E também a dúvida que talvez às vezes seja melhor deixar o passado somente na lembrança e não revisitá-lo, para que ele não perca encanto e nem o doce gostinho da saudade.
    Conheço e admiro Junior Flor, passeio em suas poesias, textos e histórias, como quem passeia em paisagens de luz e brilho pela vida.
    Parabenizo a vocês por contarem com um colaborador de tanto talento em seu site.

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