Salvador, cidade-Mundo, salvai-nos!

Salvador, salvai-nos. Salvai-nos dos donos do mundo – diabos sem salvação a federem a cebola e a enxofre atrás de seus cofres cheios. Salvai-nos, Salvador! Estendei sobre nós seu manto feito de mares e estrelas da manhã. Estendei sobre todos nós suas noites de escuridão estelar e vento entre coqueiros. Salvador, cidade-mundo, salvai-nos! Acolhei nossas orações em suas ruas de tantas pernas e gentes, de tantas cores a brilhar majestosas e magicamente numa e só numa única cor. Meu amor ti, Salvador, Salvador de Todos os Santos – Santos a quem descrevo e registro com letras maiúsculas como maiúsculas são as artérias urbanas que levam teus nomes e onde correm a fé, a esperança e a sensualidade. Salvador do mundo, de verdade, São Salvador, por amor, salvai-nos!

Livrai-nos do mal dos homens burros – livra-nos! – que a burrice no país virou norma, virou forma cheia de um terrível odor. Livrai-nos dos homens burros que nos impõe a sua dor de serem burros – São Salvador! Olhai para baixo, mas bem para baixo mesmo! Descei por seu elevador imperioso e imperial, que divide seu corpo de cidade e sal em duas vidas, em duas-quase-uma só parte e arte, Salvador – e tenhas dó. Tenhas muito dó de nós, que recorremos a vós, cidade Tenda dos Milagres, dos cantos da Umbanda e do Candomblé ao cair das tardes ao som de atabaques Amados e Jorges. Amai-nos, assim, e também, santa cidade, santidade sem dogmas nem moral fundamental. Amai-nos acima de todo mal, anima plural, salvadora de todo sofredor que há no mundo – salvai-nos dos moribundos apartados do pensamento profundo.

Venha a nós teus segredos guardados em cada viela de pedra batida e ferida em teus becos e bocas, entre teus muros e igrejas, entre tuas velas de encruzilhadas ou entre aquelas que bufam abertas em seu mar de azul-azulejos que zunam soberbos em teu horizonte sem fim. São Salvador, salvai-nos a todos e também a mim! Impregnai nossas almas com teu espírito ancestral, mostrai-nos que é possível não sermos para sempre escravos – e enchei-nos de uma certeza terçã que nos põe a acreditar que viver e amar ainda é incrível, e que o mal não sobreviverá quando vier o amanhã. São Salvador – cidade que tem no nome a salvação e a dor –, salvai-nos!

Acolhei minha mandinga, Salvador, minha macumba repleta de letras postas todas contra a opressão e os opressores dos tempos de então. Saravá! Eparrei! Acolhei! Acolhei minha oração em adro sagrado onde amarrei minha fita vermelha pedindo o fim do horror que se abate sobre nosso povo, Salvador, Santo e Senhor do Bonfim. Em teu seio fiz a fé, bati cabeça. Tudo para que não te esqueças de nós, ainda teus filhos, e nos mande daí os teus brilhos que de todos precisamos para restaurar a nação, São Salvador do meu coração. Dai-nos teus chás, teus cheiros, teus orixás, teus terreiros, teus axés – por que não é à toa que és a cidade dos mistérios da fé em outros mundos, dos espíritos do bem mais fundo que só querem fazer da vida não uma existência qualquer. São Salvador, não és homem, és mulher, és mãe, és terra materna e calor.

Salvador, cidade-Mundo, de todo mundo que sabe de ti. Salvador, atuai nas demandas erigidas contra os que te amam. Ainda é tempo. Ainda é! Salvador, cidade-mundo, salvai-nos.

Alexandre Bragion é editor do Diário do Engenho.

(crônica publicada originalmente em A Tribuna Piracicabana)

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