Piracicaba é feita de histórias apagadas

Piracicaba é feita de histórias apagadas

Em novembro de 1851, um homem chamado Serafim foi sepultado no Cemitério da Vila. Tinha quarenta anos, era escravizado, casado com Joaquina, escrava de outro senhor. Morreu de moléstia e inflamação, recebeu todos os sacramentos, foi amortalhado de branco. O assento está guardado no arquivo da Diocese, onde também repousam, em silêncio, milhares de outros nomes. Mas Serafim chegou ao livro. A maioria não chegou.

Três anos antes, em 1848, a Câmara da Vila Nova da Constituição se reuniu em sessão extraordinária. Estava em choque. Pedia reforço da Guarda Nacional, que era a polícia da época, para conter o que chamava de “ensaio de insurreição na classe africana”. A denúncia havia partido de uma mulher que morava na esquina da Rua Boa Vista. Disse ter ouvido dois negros combinando alguma coisa. As testemunhas e os jornais que cobriram o caso falavam em africanos reunidos no fim da Rua do Pau Queimado, junto ao Engenho da Boa Vista, organizando danças, marchas, batuques, capoeira, combates a pau.

Por volta de 1860, um viajante austríaco, J. J. von Tschudi, esteve em Piracicaba. Tinha vindo ao Brasil para observar a situação dos imigrantes europeus na Fazenda Ibicaba, no município vizinho. De passagem por aqui, registrou observações que não foram nada elogiosas. Anotou que vivia em Piracicaba um médico alemão, responsável por atender as famílias mais ricas da vila. Sempre que era chamado, deixava o mesmo diagnóstico no ar: sintomas de envenenamento. E sempre que isso acontecia, instalava-se a paranoia. Quem poderia estar envenenando as famílias ricas da época? A respostaera óbvia. A suspeita caía sobre os escravizados. Muitos foram punidos. Açoitados no Pelourinho que ficava ali, na atual Praça José Bonifácio, mais ou menos onde hoje fica o coreto. O mesmo lugar em que, agora, jovens periféricos se reúnem para fazer batalhas de rima. A geografia tem suas ironias.

Era mentira. O médico alemão fabricava o diagnóstico de envenenamento para aumentar a clientela. Mais suspeitas, mais consultas, mais visitas, mais honorários. Os envenenamentos eram invenção. Os açoites foram reais.

Voltemos ao Serafim. Ele foi sepultado no Cemitério da Vila. Você sabia que já tivemos um cemitério com esse nome? Pois é. Ficava na atual Praça Tibiriçá, onde hoje está a Escola Moraes Barros. E voltemos ainda mais no tempo, porque esse mesmo lugar coincide com o local em que as autoridades diziam que os africanos se reuniam para batucar e fazer festas. Alguns relatos descrevem esses encontros à sombra de uma grande figueira. A figueira do Largo da Boa Vista revelava muito da identidade étnica dos escravizados de Piracicaba, quem mandou cortar?

No próprio IHGP, a história desta cidade parece começar somente com a chegada dos imigrantes europeus. Temos grandes historiadores, é verdade. Mas no trabalho monumental de Leandro Guerrini, História de Piracicaba em Quadrinhos, os escravizados aparecem como nota de rodapé. Existem, sim. Na margem da página.

Maria Paes de Barros, filha do Comendador Luís Antônio de Souza Barros, dono da Fazenda São Lourenço, deixou registrado em suas memórias o procedimento. Quando chegava a estação do corte da madeira, os homens negros mais fortes eram mandados à mata. Eram os “derrubadores”. Enfrentavam as árvores maiores com machado, e cada uma só tombava depois de jornadas inteiras de labor pesado. O chão que pisamos hoje em Piracicaba foi aberto por esses braços. Que não viraram fundadores em livro nenhum.

O Largo da Boa Vista, no fim da antiga Rua do Pau Queimado, que também já foi Rua da Boa Vista e hoje se chama Rua Alferes José Caetano, se transformou num cemitério. Um cemitério que também enterrou boa parte história da cidade. A camada de baixo é a dos batuques, a da figueira, a da irmandade da Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, depois Irmandade de São Benedito. A camada de cima é a da pacificação, da praça com nome de governador.

Em 1830, Piracicaba, ainda Vila Nova da Constituição, tinha aproximadamente 10 mil habitantes. Pelo menos 3 mil eram escravizados. Um terço da população, praticamente. Uma população sem memória registrada, porque quem registrava não eram eles. Aparecem, sim, e aos montes, nos processos-crime: assassinados, fugitivos, suspeitos, açoitados, denunciados, envenenadores hipotéticos diagnosticados pelo médico alemão. O acervo dessa documentação, que guarda em si o que sobrou desses nomes, está no Centro Cultural Martha Watts. Que, aliás, corre risco de desaparecer.

 


Rafael Gonzaga é historiador, doutor em história social pela PUC-SP. 

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