Diário da Biblioteca I : um retorno à leitura de livros emprestados

Diário da Biblioteca I : um retorno à leitura de livros emprestados

Há aqueles que não podem imaginar o mundo sem pássaros;

há aqueles que não podem imaginar o mundo sem água.

Ao que me refere, sou incapaz de imaginar um mundo sem livros.

(Jorge Luiz Borges)

 

Depois de alguns meses (quase um ano!) pensando em fazer isso, hoje, finalmente, fiz: logo depois do almoço, fui à biblioteca pública de Piracicaba, cujo nome homenageia Ricardo Ferraz de Arruda Pinto (1887-1968). Nos últimos anos, me dei conta de que nada, até agora, tem sido mais permanente e constante na minha vida do que livros, bibliotecas, livrarias e sebos; não há o que eu mais tenha sido e continue sendo que um leitor – às voltas com tantos “professores” mudos, bons e ruins, vivo como eterno aprendiz.

Assim sendo, acumulei em casa, ao longo dos anos, milhares de livros. De modo que há décadas beneficio-me de uma modesta biblioteca pessoal, tendo ao alcance das mãos as obras de que desejei me aproximar e não mais me separar, incluindo textos técnicos e científicos (por necessidade profissional de economista e também por curiosidade humanista), filosóficos (por inquietação existencial) e literários (para acessar, com prazer, uma forma de conhecimento para além da estritamente racional). Por isso, habituei-me a ler no conforto do lar, nos momentos mais propícios e em cantinhos acolhedores.

Esse mundo e essa multidão, que é uma biblioteca dentro de casa, não foi o que me transformou em leitor; foi, sim, o ter me tornado leitor, muito convicto da importância e do prazer de sê-lo, que me levou a, com sacrifícios (principalmente durante a adolescência e a juventude pobres), comprar livros com regularidade. Meu encantamento pelo hábito da leitura veio do fato de ter conhecido e conseguido usufruir gratuitamente, por volta dos onze anos de idade, de uma biblioteca pública: a Biblioteca Municipal “Martinico Prado”, na cidade de Araras, interior do Estado de São Paulo.

Lembro-me com enorme carinho o dia em que minha mãe, Elvira, inteligente e sábia, porém analfabeta e muito tímida, foi comigo à sala administrativa daquela biblioteca (que para nós dois era suntuosa) para assinar (na verdade apor sua digital) como responsável pelo filho menor o seu cadastro de usuário/leitor. Eu me senti adentrando um mundo novo, colocando os pés num infinito e luminoso caminho.

Minhas idas à biblioteca da pequena cidade – de bonito prédio, com entrada por dois lados (um deles defronte ao Hospital São Luiz e outro com vista para uma bela residência) – eram momentos de pura expectativa e alegria. Ao chegar, eu tinha a sensação de adentrar um outro mundo, imensamente mais rico e promissor do que o meu rotineiro, de menino da periferia, estudante de escola pública sem biblioteca, num tempo em que os livros didáticos não eram dados pelo governo e as famílias pobres adquiriam para seus filhos mais novos os exemplares utilizados pelos mais velhos, em séries anteriores.

Biblioteca Municipal “Martinico Prado” – em Araras

Ao sair da biblioteca, com um ou dois livros emprestados por uma quinzena, eu me sentia levando comigo um pedacinho daquele universo apaixonante. Isso não sem um temor trepidante, que as recomendações da bibliotecária (Dona Bazula) acentuavam: “Cuidado, não rasgue, não suje, devolva do jeito que recebeu, na data escrita no cartão ou antes dela.”

Entre o centro da cidade (proximidades da Praça Barão de Araras), onde ficava a biblioteca, e  minha casa, lá longe, na Vila Dona Rosa Zurita (caminho sempre percorrido a pé), havia um parque e um zoológico municipais (local conhecido por “Lago”, pois continha um represamento artificial de água com barcos a pedal para aluguel por meia hora, oficialmente Parque Municipal “Fábio da Silva Prado”): ali – vindo de um “Prado” e chegando a outro “Prado” – eu parava e começava a folhear e a inspecionar os livros recém-emprestados, sempre um “sério” e um “para divertimento” (critério que, olhando para trás, me espanta num menino de onze-doze anos). No início, a diversão foi a coleção das Aventuras de Tintim, que ocupou o lugar dos gibis do Tio Patinhas, do Pato Donald, do Mikey, dos Irmãos Metralhas, dos Escoteiros Mirins (Huguinho, Zezinho e Luizinho), que o tio Anésio me transferia depois de lê-los.

Pois foi por vontade de verificar se seria possível recuperar, ao menos em parte, ainda que como sombra, aquele prazer infantil e juvenil de ir à biblioteca pública, que acalentei por meses, e afinal levei a efeito, no dia 27 de abril de 2026, a decisão de tornar útil meu cadastro na Biblioteca Municipal “Ricardo Ferraz de Arruda Pinto”, feito em dezembro de 2024 (ocasião em que fui fazer a doação de uma dúzia de livros ao acervo) e que havia caducado sem ter sido utilizado uma única vez.

Talvez a “gota d´água” para minha decisão de prestigiar a biblioteca pública da cidade onde moro (há 36 anos) tenha sido uma notícia que me impactou demais: o descarte, em grandes caçambas utilizadas para remoção de entulhos, de milhares de livros da Biblioteca Pública Municipal “Monteiro Lobato”, em Osasco ( https://www.instagram.com/reels/DXqByhRiGvU/ ). Atitude inaceitável e imperdoável dos dirigentes da Prefeitura daquela grande cidade, mas, por outro lado, provavelmente justificada pelo fato de se tratar de um acervo cuja manutenção implica em despesas de investimento e de custeio, sem que, todavia, os munícipes façam dele uso significativo, nesses tempos de baixo apreço pela leitura, mormente pela leitura em suporte físico. Oxalá o mau exemplo não repercuta!

Como foi, então, o meu primeiro dia de leitor na biblioteca pública de uma cidade que a possui desde 1939 (a primeira do Estado de São Paulo, dizem), tendo iniciado com pouco mais de 800 volumes e possuindo hoje em torno de 96 mil? Senti-me motivado a voltar a ler livros emprestados, levando-os para casa ou abordando-os ali mesmo, nas mesas e poltronas próximas das estantes.

(Continua)


Valdemir Pires é economista e escritor.

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