Ossadas que não estão no ofício

Ossadas que não estão no ofício

O silenciamento, no Brasil, costuma vir educado e aparece, mais das vezes, numa ata, numa deliberação unânime, num vocabulário administrativo que não levanta a voz. Num país desigual como o nosso, em que a história ficou nas mãos de quem controla os aparelhos oficiais, quem foi registrado, e de que maneira, sempre dependeu de uma decisão alheia. Do Rosário e do Largo de São Benedito (à época, o Largo da Boa Vista) ficou muito pouco, e esse pouco quase sempre como assunto de passagem: uma linha de óbito, um requerimento, um pedido de muro ou sua derrubada. Os livros, esses, guardaram a elite com nitidez.

Em 7 de dezembro de 2006, o Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural de Piracicaba (CODEPAC) deu uma demonstração precisa desse modo de funcionamento. O historiador Noedi Monteiro, em ofício encaminhado ao conselho, solicitou um levantamento arqueológico no pátio vizinho à Igreja de São Benedito, terreno em que ele suspeitava terem sido feitos enterramentos de irmãos da devoção negra. A resposta do conselho foi em sentido contrário: desconhecia, na documentação que tinha à mão, qualquer indício de cemitério naquele lugar, e devolvia a Monteiro, em cinquenta dias, a tarefa de provar, com documento, que o cemitério ali existira. Inverteu, com isso, o ônus da prova, e cobrou ofício justamente de quem havia pedido o método que serve para onde o ofício falta. Monteiro teria de cumprir uma exigência impossível: para mostrar a ossada ao conselho dentro do prazo, precisaria escavar o pátio, e a escavação era precisamente aquilo que o conselho, no mesmo gesto, acabara de proibir. No fim, tratou-se a falta de assento como prova de que nada houve.

O que falta no ofício são os ossos. Segundo Guilherme Vitti, a irmandade dos homens pretos já existia em Piracicaba, então Vila Nova da Constituição, em 1824. O cemitério extramuros só começou a se firmar como prática urbana na cidade ao longo da década de 1830, e a Irmandade de São Benedito, especificamente, teve sua solicitação de terreno acolhida em 1858, a pedido do vereador Coelho, com as vinte braças efetivamente demarcadas no ano seguinte e um ano de prazo para erguer o muro. Antes disso, enterrava-se junto às igrejas. Esses dados, é necessário observar, não rendem a certidão que o conselho de 2006 exigia, e não foram feitos para render; ou foram apagados, e com o que sobrou não temos como saber. De um modo ou de outro, o efeito sobre o morto pobre e negro foi o mesmo.

Convém, contudo, ser honesto quanto ao que se tem. Para o Largo de São Benedito não há a ossada exumada nem o assento que nomeie alguém enterrado naquele chão. Há, porém, outro tipo de indício, e ele não é frágil: o indício das práticas. Antes daquilo que João José Reis, em A Morte é uma Festa, chama de disciplinamento do enterramento, processo gradual de retirada dos mortos de dentro das igrejas para o cemitério murado e fiscalizado, sepultava-se ao pé do templo, e cuidar do enterro dos irmãos era razão de ser das irmandades negras desde, ao menos, o século XVII. Isso está documentado para o Brasil, e não como caso isolado. Até onde a documentação permite ver, falta o registro pontual daquele pátio, não o comportamento histórico que o tornaria esperado.

Foi o que Monteiro entendeu e o conselho preferiu não entender. Outras cidades, é importante notar, passaram por procedimento parecido. Em São Paulo, o cruzamento de registros paroquiais revelou um cemitério de escravos na Penha; antes de 1826, os negros da capital iam para o adro do Rosário, em covas gratuitas reservadas a cativos e pobres. E há quem sustente que o próprio Largo do Rosário, no centro da cidade de São Paulo, fora cemitério antes de a valorização do terreno substituir esse uso por outro mais lucrativo. O padrão das devoções negras se repete pelo país, ao que tudo indica: enterrar nas igrejas, ou nos fundos delas, e cuidar dos irmãos quando o poder público se recusava a cuidar. É essa escavação, e o método que ela representa, que a deliberação do CODEPAC, em 2006, manteve de fora. Pediu-se a evidência material e negou-se, no mesmo gesto, o método capaz de produzi-la. Os ossos, se estiverem ali, seguem soterrados enquanto ninguém aceitar cavar.

 


Rafael Gonzaga é historiador, doutor em história social pela PUC-SP.

 

(Foto de capa: acervo IHGP).

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