O futuro da Unimep: entrevista exclusiva com o reitor Ismael Forte Valentin

O futuro da Unimep: entrevista exclusiva com o reitor Ismael Forte Valentin

Ou a gente toma uma atitude como essa ou não temos mais condições de manter a instituição aberta.

O comunicado da Unimep (Universidade Metodista de Piracicaba) sobre o fechamento do campus de Santa Bárbara d’Oeste e de diversos cursos nos campus Centro e Taquaral, em Piracicaba, causou tristeza e decepção aos alunos, ex-alunos, funcionários, professores e ex-professores e em toda a população que acompanha com descontentamento as notícias cada vez menos felizes sobre a educação em nosso país.

O Diário do Engenho conversou com o reitor Ismael Forte Valentim, que assumiu o cargo de forma definitiva em novembro de 2020, após cumprir a função como interino durante nove meses.

Por que a Unimep chegou nesta situação de salários atrasados, fechamentos de cursos, de campus e demissões? Há como resumir de alguma forma essa trajetória?

A Unimep já vem enfrentando dificuldades financeiras há pelos menos 10, 12 anos e gestores que já passaram por aqui fizeram alguns movimentos que geraram uma série de descontentamentos na tentativa de que o nosso maior impacto financeironão fosse a folha de pagamento, principalmente pela perda de alunos. Nos últimos quatro, cinco anos nós tivemos uma diminuição de alunos muito grande por várias razões: problemas internos, de gestão e também pelo contexto externo, com o aumento de ofertas de instituições de ensino superior, de faculdades, universidades, polos de EAD (Ensino a Distância). As dificuldades internas e externas foram somadas com os problemas da economia, que estamos sofrendo desde 2016, e em 2020 veio a pandemia. Tudo isso faz com que a receita tenha uma queda violenta. Uma instituição que já vinha com dificuldades financeiras e agora enfrenta com todas essas situações chegou num ponto em que a mantenedora, com todas as avaliações da capacidade financeira das instituições, não só da Unimep – porque todas elas passaram por um levantamento criterioso e detalhado do orçamento – chegou para os gestores e pediu um projeto, uma proposta para não fechar as portas. Infelizmente, essas medidas que a mantenedora adotou – de suspensão de cursos e supressão de turmas – e colocou para nós cumprirmos é uma solução encontrada para não fechar a instituição. Estamos aqui com muita dificuldade, com muito stress, muito pesar e tendo que colocar em prática.

Na visão do senhor, foi vantajoso a Unimep ser comandada pela Rede?

Lá atrás, há 12, 13 anos, quando a mantenedora decidiu trabalhar com a ideia de Rede para otimizar os recursos, reduzir as estruturas e centralizar alguns serviços, nós aqui da Unimep, na época, avaliamos e produzimos um documento manifestando a nossa preocupação com a proposta porque o objetivo da mantenedora era otimizar os recursos e os serviços para melhorar as condições, reduzindo os custo e aumentando a  receita para resolver o problema das instituições que estavam com dificuldades financeiras, como era o caso da Unimep. Mas isso foi mal estruturado, mal trabalho e as organizações que estavam com resultados operacionais positivos acabaram tendo muita dificuldade e hoje todas elas que estão ligadas à educação metodista com a ideia de Rede estão em situação de extrema dificuldade, com déficits absurdos. É aquela ilustração: a laranja podre dentro da caixa acaba contaminando as outras. Foi o que infelizmente aconteceu. Por muitas dificuldades de gestão e de condução da ideia, aquilo que deveria gerar resultado acabou complicando ainda mais”.

A Unimep também tem uma dívida imensa com professores e funcionários, pagamento de salários e direitos trabalhistas atrasados – com professores e funcionários que foram demitidos e nada receberam até agora. E esse processo já se dá há vários anos. Quando isso será acertado? Ou a Unimep pretende não pagar a esses profissionais?

Nós temos muitas dívidas bancárias, tributárias, passivos trabalhistas e os nossos salários não estão sendo pagos na integralidade desde março do ano passado. Há algumas medidas que estão sendo tomadas. Uma delas é essa ação de diminuição das estruturas da instituição para reduzir os custos. Os cursos deficitários estão sendo suprimidos e ficam apenas os superavitários. Isso permite que a instituição tenha recursos para colocar os salários em dia. Sobre as dívidas passadas, a mantenedora chegou à conclusão de que precisa entrar forte nesta questão porque as instituições de ensino não têm condições de pagá-las. Há duas situações: a mantenedora já autorizou a venda ou aluguel de imóveis e a outra estratégia é a disponibilização de ativos, em que um grupo ligado à mantenedora está contatando algumas empresas que captam investidores para as vendas. Já há uma quantidade grande de imóveis da Igreja Metodista que podem ser vendidos e esses recursos devem ser utilizados para quitar as dívidas.  A Igreja está abrindo mão de patrimônio para que possam ser feitos esses pagamentos.

Há imóveis de 300 mil a 30 milhões sendo negociados por esse grupo e nós imaginamos que as vendas maiores, que vão permitir o pagamento das dívidas, aconteçam até o meio do ano. Só de fundo de garantia são 15 milhões. Há também o valor devido para os professores que estão na ativa e para aqueles que não estão mais, as dívidas bancárias… é uma soma bastante substanciosa. Existe a necessidade de um tempo para fazer todas essas transações, mas a nossa expectativa é que com essas mudanças dentro dos próximos dois, três meses, no máximo, os salários já estejam regularizados e que até o meio a gente já tenha, se não tudo liquidado, pelo menos boa parte”.

Por que até o fim do ano a Unimep ofereceu vestibular, cursos de pós-graduação e agora chegou a notícia do fechamento da maioria desses cursos? Não houve um planejamento para esse fechamento?

Isso nos surpreendeu. Essa nova gestão assumiu no final de novembro de 2020 e nós já sabíamos que o endividamento era muito grande, que alguma coisa precisava ser feita, mas naquele momento não houve um movimento na questão da redução de folha salarial porque os professores entraram em greve e no contexto de greve você não pode fazer demissões. O grupo ligado à mantenedora, que trabalhou a proposta, identificou que a única alternativa para fazer redução na folha docente era com a supressão das turmas e a suspensão dos cursos. Muitos dos cursos da lista que foi publicada não tem mais alunos, são cursos que já há algum tempo não formam turma. Por exemplo: tem um curso que tem apenas um aluno, que tem uma DP. Será dada a oportunidade pra ele terminar essa DP e concluir o curso. São cursos com a demanda muito pequena e a alternativa para fazer a redução na folha de pagamento dos professores foi, inclusive, previsto no acordo coletivo de trabalho, a supressão das turmas. 

É claro que isso aconteceu em um momento muito inoportuno, com os alunos matriculados, perto do início das aulas e foram surpreendidos com essa notícia. Isso foi um baque muito grande, por mais que a gente tentasse argumentar e rever alguma coisa, a mantenedora está muito firme e resistente com a proposta porque é a maneira que eles encontraram para permitir a instituição aberta. A fala é: ‘ou a gente toma uma atitude como essa ou não temos mais condições de manter a instituição aberta’.

O nosso compromisso junto com os coordenadores é achar alternativas para os alunos. Os contatos estão sendo feitos, as instituições que têm os cursos e que nós estamos fazendo os contatos estão muito abertas e felizes porque todas as instituições estão precisando de alunos. Essa situação da queda de alunos não é, infelizmente, só a Unimep que vive. As outras instituições, até públicas estão tendo perdas de alunos ou a diminuição do ingresso. A questão dos programas é a mesma coisa. Como é que você reduz a pesquisa? Não recebendo novos alunos. Foi a alternativa que a mantenedora colocou: ‘vamos suspender as matrículas para manter o número de alunos e de carga horária de pesquisa que nós já temos para não aumentar ainda mais o déficit’. Repito: são medidas drásticas, num tempo não muito adequado, já estamos há uma semana vivenciando isso com muita dificuldade.

A Unimep vai fechar a pós em educação? Sem pesquisa como se manterá como Universidade?

Nem uma pós foi fechada, nós não podemos fazer isso. Se a gente fechar a pós perdemos o status de universidade. Nós estamos no limite dos programas de pós-graduação. O que nós fizemos foi suspender as matrículas desse ano. Os candidatos que ingressaram agora em 2021 nós estamos suspendendo as matrículas. Os alunos que já vinha desenvolvendo as pesquisas de mestrado e doutorado continuam com a gente e vão até o final. Nós precisamos ter pelo menos quatro programas de mestrado e dois doutorados. Nós temos quatro mestrados e quatro doutorados e a perspectiva é mantê-los.

Há algum projeto para a Unimep deixar de ser Universidade e passar a ser Centro Universitário?

Não, pelo menos que eu tenha conhecimento não há nenhum projeto que tenha sido formalizado e chegado até nós dessa proposta. É claro que se nós não cuidarmos para que continuemos tendo os cursos em todas as áreas e não mantermos os programas nós corremos o sério risco de perder o status de universidade.

Como será a Unimep de 2021 em diante? Ainda é possível confiar em uma Universidade que vai se desfazendo aos poucos? A Unimep vai fechar de vez? Pretende ser vendida?

O que a mantenedora passou para nós é que essas medidas são necessárias para que a universidade continue aberta, continue tendo o projeto educacional da Igreja Metodista aqui em Piracicaba e região. O próximo passo, depois que a gente fizer todos esses acertos, é investir novamente. Agora não temos feito investimentos nos projetos, seja em equipamentos, laboratórios… A ideia agora é fazer essa redução, fortalecer o que nós temos e voltarmos a crescer.

Nós vamos avaliar os cursos que foram suspensos, analisar o nosso portfólio, fazer uma análise de mercado para o reposicionamento da Universidade com toda a estrutura e os recursos. A Unimep, assim como outras instituições, estava no processo de venda. Isso não é segredo para ninguém. O pessoal até brinca que desde que a Unimep surgiu ela está à venda, mas hoje não há nenhuma proposta, nem o interesse da mantenedora em vender. A expectativa é que a partir de 2022 seja uma nova universidade, com a retomada de investimentos, com o seu reposicionamento da marca e o fortalecimento dos cursos que ficaram e dos que nós vamos oferecer. Nós temos alguns cursos tramitando no Ministério da Educação para podermos oferecer. Cursos de engenharia, de biomedicina. O curso de arquitetura já está autorizado pelo MEC. Os cursos de engenharia que nós oferecíamos em Santa Bárbara d’Oeste, nós esperamos que já possam ser oferecidos a partir do ano que vem no campus Taquaral, aqui em Piracicaba.

E a Escola de Música? A Escola é um bem quase municipal, foi praticamente doada à Unimep. Qual a proposta para a EMPEM? E como fica a situação do Colégio Piracicabano?

O Colégio Piracicabano também passou por esse processo de avaliação orçamentária e continua tendo resultados positivos. Todas as ações serão voltadas para que ele se fortaleça e volte a crescer.

Depois que eu assumi a direção, nós estamos recompondo a Escola de Música, que estava meio abandonada. Toda a estrutura de governança estava defasada. Nós estamos agora com todos os conselhos reestabelecidos, com uma nova direção. Tem todo um movimento pra fortalecer a Escola com parcerias interessantes. Hoje nós estamos fazendo o acerto documental com a família do maestro Ernst Mahle, algumas questões pendentes lá do passado que estamos acertando. A própria Igreja Metodista entendeu que esse é um projeto importante e que interessa para toda a mantenedora. Há algumas ações que virão por meio de órgãos da Igreja para que tenhamos uma revitalização da Escola, inclusive a gestão será compartilhada entre o Instituto Educacional Piracicabano e a Igreja Metodista, não só na questão de recursos humanos, mas também na parte financeira. Vamos retomar os projetos da Escola que ficaram parados em função da pandemia, com dificuldades das aulas presenciais, das apresentações e dos cursos, tomando todos os cuidados com os protocolos de saúde.


Entrevista realizada pela jornalista Carol Castilho, co-editora do Diário do Engenho.

(Foto de capa: acervo/Unimep. Fotos internas: Alexandre Bragion)

2 thoughts on “O futuro da Unimep: entrevista exclusiva com o reitor Ismael Forte Valentin

  1. Vamos ficar ao lado do Rev. Ismael “ele é” Forte mesmo, com disposição de honrar seu cargo e o nome da Igreja Metodista, mas ele encontrou uma universidade estraçalhada por má administraação anteriores o Rev. Dr. Richar E. Senn infelizmente por má politica dentro do nosso arraial foi obrigado a deixar ela e assumiram o Elias Boaventura e Almir Maia totalmente despreparados honestos sim de boa reputação, mas sem tino algum, o Elias trouxe e hospedou a Une e a OLP e o Almir a restauração desnecessária da casa de Miss Marta investido ali 2 milhões de reais… creio q temos q vender o campus de SBD’Oeste e pagar primeiramente os funcionários e professores e para maior desgraça num Concilio Geral criaram o tal Rede e deram para um desqualificado carioca sem tino algum e o mesmo não cumpriu com o TAC veja agora a divida de quase um milhão de reais, Rev. Ismael como pagar? Tenho fé e confiança no senhor, vamos orar e abçs.

  2. Confiança e fé, sem ingenuidades mas com profissionalismo, empatia com os que precisam receber salarios e verbas rescisórias, desesperadamente. Honra!!! Honestidade!!! Essas virtudes Dr. Ismael possue para esse novo tempo da Unimep e Rede Metodista de Educação.

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