Identidade Cultural: limites e desafios à globalização – por Adelino de Oliveira

“Construamos para nós uma cidade e uma torre cujo cume atinja o céu. Conquistemos para nós um nome, a fim de não sermos dispersos sobre toda a superfície da terra. (…) O Senhor os dispersou sobre toda a superfície da terra, e eles cessaram de construir a cidade.”  – Gn 11, 4b; 8

 O processo de globalização cultural tem avançado de maneira quase irresistível, definindo paradigmas nos campos da política, da economia, da religião, do conhecimento etc. Os efeitos de um mundo globalizado se manifestam, inexoravelmente, no cotidiano da vida – não se restringindo apenas ao universo virtual. De fato, as influências estrangeiras – sinais inequívocos de um mundo trançado em rede – fazem-se perceptíveis em uma gama cada vez mais ampla de representações culturais. Revestidos com a aura de modernidade, os postulados da globalização despontam triunfantes, decantando um estilo de vida circunscrito a uma estética única e hegemônica, fazendo surgir sociedades desenraizadas e divorciadas de suas tradições mais genuínas. Talvez um dos efeitos mais nocivos da globalização seja justamente o sucumbir das culturais locais e suas tradições originais.

Entrementes, é pertinente destacar que projetos similares de hegemonia cultural não são raros, nem se constituem como exceções na história. Parece-nos que o relato bíblico da Torre de Babel (Gn. 11,1-9) preconiza menção a tema análogo. Vislumbrando a narrativa bíblica como chave hermenêutica para o contemporâneo, temos que o texto bíblico em questão refere-se, muito provavelmente, ao período de dominação tirânica que o grande Império Babilônico exerceu sobre Israel bíblico. Não satisfeita com o pleno domínio político-econômico, a Babilônia buscou – nos conta a narrativa bíblica – construir uma grande torre que alcançasse os céus – recurso literário para denunciar um projeto de dominação global – consolidando assim uma dominação muito mais radical, a assumir a terrível face de um etnocídio. Uma imensa torre edificada a partir da massificação lingüística, aniquilando identidades culturais e sujeitando todo mundo conhecido a uma mesma matriz cultural. No entanto, segundo o relato bíblico em tela, por uma intervenção divina, tal pretensão hegemônica é colocada por terra. A dignidade das culturas emerge na pseudo confusão de línguas que para Israel bíblico soergue em defesa de sua identidade mais profunda – desvelada, por sua vez, nas tradições narradas na língua sagrada (o hebraico) dos ancestrais fundadores. Belo relato! Expressão autêntica de uma sabedoria sagrada. Espelho fascinante, a denunciar projetos de dominação e refletir formas de resistência a partir da alteridade cultural.

Neste ambiente, torna-se fundamental refletirmos as possibilidades de permanência e de resgate da cultura em seus diversos desdobramentos, destacando, sobretudo, a essencialidade da produção cultural local, a exprimir e manifestar tradições originais. Ressalta-se que todo fazer cultural desvela-se como patrimônio histórico de um povo, sendo a expressão maior de sua identidade. Neste esteio, o intercâmbio entre culturas delineia-se como possibilidade impar de exercício de alteridade, resguardando, não obstante, a dignidade inerente a cada cultura. A partir de tal entendimento, a cultura, em um sentido amplo, traz, em seu bojo, de modo simbólico – portanto em perspectiva de universal – as vivências históricas de um povo, e, como representação simbólica de vivências, carrega, intrinsecamente, a marca indelével de uma dignidade perene, que não pode sucumbir diante de pretensões hegemônicas intolerantes, impetradas por culturas que se arrogam o status de excelência, construindo soberbas torres etnocêntricas.

A cultura constitui-se como propulsora depositária e morada de sensibilidades humanas: expressões idiomáticas e lingüísticas; gestualidades e sotaques; liturgias religiosas e rituais; arte culinária e suas iguarias; manifestações populares de músicas, danças e contos; produção artesanal etc. Quiçá a globalização seja menos a imagem da Torre de Babel, erigida em torno de uma única cidade e mais a representação da dispersão das línguas, a preservar o intercâmbio de riquezas e belezas culturais. 

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O AUTOR

 

 

 

 

 

 

 

 

Filósofo, teólogo, Adelino Francisco de Oliveira é mestre em Ciências da Religião pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC). É professor de Ética e Teologia da Faculdade Salesiana Dom Bosco de Piracicaba e coodenador do curso de extensão dessa faculdade.

13 Comments on "Identidade Cultural: limites e desafios à globalização – por Adelino de Oliveira"

  1. Achei muito interessante a comparação que voce fez entre a globalização e a Torre de Babel, pois apesar da globalização facilitar a vida das pessoas, ela massifica as culturas, o que as faz perder suas raizes.

    juliana oliveira – aluna do 2 ano B do DBA

    • Adelino F. Oliveira | 15 de abril de 2011 at 18:20 | Responder

      Querida Juliana,

      Sua percepção é bem correta… apesar dos elementos positivos da globalização é preciso um movimento de preservação das mais genuinas tradições culturais… Cabe a nós resistirmos a uma globalização excludente e fechada…

      Um abraço,

  2. A disseminação de uma cultura como forma de influência não deve ser vista apenas como uma temeridade para a cultura local. Caso um país não tenha um projeto de inserção da sua cultura, talvez a melhor saída não seja a negação da cultura globalizada e sim o seu entendimento e domínio, até como forma de inserção da cultura local e proteção dos seus interesses. Uma vez que o domínio de um conhecimento, normalmente sempre é a melhor forma de traçar estratégias de auto proteção contra interesses opostos.

    • Adelino F. Oliveira | 15 de abril de 2011 at 19:17 | Responder

      Prezado Ronaldo,

      Concordo com suas ponderações. No entanto ressalto que é fundamental se orquestrar uma nova perspectiva de globalização, superando a dinâmica de negação e exclusão do diferente. É inaceitável uma globalização nesses termos. Neste ponto, torna-se fundamental uma postura de abertura e diálogo, afirmando o singular e preservando identidades.

      Com cordial amizade,

      Adelino

  3. Achei muito interessante a comparação que voce fez entre a globalização e a Torre de Babel, pois apesar da globalização facilitar a vida das pessoas, ela massifica as culturas, o que as faz perder suas raizes.

    juliana oliveira – aluna do 2 ano B do DBA.

  4. Prof. Adelino, precisamos resgatar tais culturas que estão se extinguindo diante dessa massificação da globalização, onde tudo é virtual, distante. Temos que inverter esse processo e buscar a proximidade, o contato e aquele abraço afável e carinhoso. A compração feita entre a globalização e a torre de Babel foi fantástica, parabéns…
    Deus escreve certo por linhas tortas.

    Abraços

    Naldo

    • Adelino F. Oliveira | 16 de abril de 2011 at 18:25 | Responder

      Prezado Luiz,

      Você toca em um ponto fundamental: a questão da massificação e banalização da cultura. Aprofundando um pouco mais enveredamos na problemática da Indústria Cultural, a estrumentalizar todas as formas genuinas de arte.

      Esteja bem!

      Cordialmente,

      Adelino

  5. Professor Adelino, acho que o texto esta ótimo, parabéns pela iniciativa.

    • Adelino F. Oliveira | 16 de abril de 2011 at 18:26 | Responder

      Caro Rafael,

      Agradeço pela interlocução… Perseveremos na tarefa da reflexão.

      Esteja bem!

      Com cordialidade,

      Adelino

  6. Cara Dr. Adelino,
    O texto esta explicando perfeitamente o que é globalização, e demonstra os problemas agravantes, porem esse processo é irrevogável tendo em vista os moldes do comércio, educação e religião(como é citado) adotados atualmente, que é tido como uma espécie de padrão, por outro lado esse processo já ocorreu antes, no Império Romano por exemplo. Sendo assim o processo de absorção e esquecimento cultural não seria normal? Ou pode-se afirmar que com a tecnologia o mundo esta se unificando e criando uma nova cultura na qual somente as “partes interessantes” são assimiladas?

    • Adelino F. Oliveira | 19 de abril de 2011 at 20:19 | Responder

      Estimado Renan Botta,

      De fato a perspectiva imperialista não é nova e você lembra bem o Grande Império Romano… Mas fico pensando o que significa o aniquilamento de uma cultura… Quantos grupos etnico-culturais (com suas tradições, linguas, conhecimento etc) já não existem mais em nossa grande América Latina? Certamente é uma perda insuperável… e a perda é para toda a humanidade… não podemos nos esquecer disso…

      Um forte abraço,

      Adelino

  7. Prof. Adelino,
    Muito interessante suas reflexões e seu ponto de vista. Parabéns pela iniciativa. Victor Pitanga

    • Adelino F. Oliveira | 19 de abril de 2011 at 20:21 | Responder

      Querido Pitanga,

      Agradeço por sua leitura atenta… o tema é, de fato, provocativo e merece nossa atenção.

      Esteja bem!

      Cordialmente,

      Adelino

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