De Ostensílio a Tecnofóssil Vivo – crônica de Carla Ceres

A tecnologia envelhece mais rápido do que nós ganhamos dinheiro para substituir nossos ostensílios (utensílios de ostentação) eletrônicos por modelos último tipo. Produtos de ostentação pública, como celulares, ficam no topo da cadeia de renovações periódicas. Alguém ainda sai carregando um celular antigo, tipo tijolão? As TVs, como ostensílios domésticos, nos quais vemos o mundo e sonhamos ser vistos por ele, também são trocadas com frequência. Passam por achatamentos, esticamentos e fazem jus a uma infinidade de novos painéis e suportes decorativos para mostrar pras visitas.

No meio dessa gastança, alguns aparelhos permanecem essencialmente inalterados e sobrevivem desde períodos tecnológicos muito antigos. São tecnofósseis vivos. Claro que, em termos de tecnoconsumismo, a expressão “muito antigo” significa uns dez anos.

Antes visto como um ostensílio de primeira necessidade, o videocassete chegou à categoria de tecnofóssil vivo, ao sobreviver ao meteoro publicitário que anunciou a chegada do DVD. “Vídeo” ou “VCR”, para os íntimos, ele segue pacificamente ruminando suas fitas ao lado de novas tecnologias e deixou saudade nos que o trocaram por seu lerdo concorrente.

Nos primórdios da videolatria, a sofisticação e o preço do aparelho intimidavam os seres humanos adultos. As crianças, no entanto, aprendiam logo a abrir e fechar o compartimento da fita, que se erguia como um elevador, na parte superior do equipamento. Bastava os pais saírem, para os meninos colocarem seus carrinhos de brinquedo dentro do vídeo. O barulho das engrenagens emperrando precedia o grito e o chororô de “Pai, o videocassete engoliu meu carrinho!” E tocava levar o vídeo pro conserto!

Cães e gatos tampouco se intimidavam com a importância do VCR. Sem cerimônia, roíam o fio de seu controle remoto. Sim, o controle remoto era com fio. Acho até que só evoluiu para sem fio, por causa dos animais de estimação famintos. Por falar em fome… Quando a entrada da fita passou a ser feita por uma abertura frontal, o aparelho ganhou uma aparência mais amistosa para as crianças menores. Aos olhos delas, aquela grande boca retangular precisava ser alimentada com balas, chocolates e poderia (por que não?) aceitar chupetas.

Quando encontravam bolachinhas entre as engrenagens, as formigas se alegravam, mas seria injusto culpar as crianças pelo fato de alguns vídeos se tornarem verdadeiros formigueiros. O aparelho atrai formigas porque é quentinho e tem uma graxa doce, de cheiro apetitoso. Enquanto passeiam entre os componentes eletrônicos, as formigas são inofensivas, mas, quando morrem, liberam um ácido que danifica o aparelho. Pro conserto, outra vez!

Como um monstro mitológico, o VCR foi ganhando cabeças ao longo de sua evolução. Começou com uma de áudio e duas de vídeo. Terminou com sete, entre áudio, vídeo e apagamento. A cabeça, ou cabeçote, era o componente mais caro e frágil ao alcance do usuário metido a técnico. Quando a cabeça ficava suja, era comum haver quem se aventurasse a abrir o aparelho para limpá-la como se fazia com os cabeçotes dos velhos gravadores de fita K7, ou seja, usando álcool e um cotonete. Resultado? As fibras do algodão se enroscavam no cabeçote e o quebravam. Depois de desembolsar um bom dinheiro, os proprietários aprendiam como limpar direito ou deixavam a missão com os profissionais.

Por sorte, esses profissionais não se extinguiram. Foram apenas obrigados a evoluir, o que garante aos tecnofósseis atuais e futuros uma vida saudável enquanto existirem peças de reposição.

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Carla Ceres é escritora. Mas dizer apenas isso sobre ela é dizer pouco – ou quase nada. O melhor seria dizer que Carla Ceres é uma escritora genial! Uma escritora de verdade – dessas que a gente não encontra fácil por aí. Premiada, ela já venceu todo tipo de concurso literário – dos mais fáceis aos ultraconcorridos! – sendo que até concurso da Academia Brasileira de Letras (a ABL!) ela já ganhou, acredita? Formada em Letras, Carla também esconde – por trás de sua impávida modéstia –  os cursos que fez na Inglaterra, onde permaneceu por um período.  

Aqui, no “Diário do Engenho,” a genial Carla Ceres escreve sempre na segunda quinzena de cada mês.

4 Comments on "De Ostensílio a Tecnofóssil Vivo – crônica de Carla Ceres"

  1. Olá Carla, tudo bem contigo!
    Creio que deve saber que deixar uma sugestão para que gosta de ler, só podia resultar nesta visita, e que me deixou cheio de saudades, além de lembrar muitas histórias passadas com aqueles aparelhos, com crianças e formigas, belo e alegre texto, como todos que escreve que sempre nos faz ler sem se distrair do início ao fim, parabéns e obrigado pela dica!
    Divirta-se, abraços e até mais!

  2. Eu adorei essa frase: “As TVs, como ostensílios domésticos, nos quais vemos o mundo e sonhamos ser vistos por ele, também são trocadas com frequência.”
    Uma maneira bem sutil de revelar uma grande e inconsciente verdade.

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