Descarrilhamento

Descarrilhamento

Há uma aparente festa, de muita alegria, há gozo, sorrisos, gritos, elogios, aplausos, louvação e reverência. É uma suposta comemoração, de um certo triunfo, uma certa vitória, como se o final dos tempos houvesse chegado e, enfim, o bem houvera vencido definitivamente o mal. Todos cantam e batem palmas. Não é que haja motivo, pelo contrário, há razão para medo e pavor. Na verdade, todos estão num trem em alta velocidade, viajando rapidamente para lugar nenhum, num sentido incerto, imprevisto, descabido e espantoso.

A rapidez da viagem assusta cada vez mais, a falta de prudência, sensatez, lucidez e cuidado do condutor é alarmante. No fundo todos sabem que não há tranquilidade, muito menos, segurança. Não há estabilidade, não há certeza. O horror é iminente. Ninguém está desavisado, ninguém é inocente, todos reconhecem o perigo. Mas como lunáticos, como se não fosse o caos, como se aquilo não estivesse acontecendo, preferem cantar, cada vez mais e mais alto, talvez na tentativa de camuflar seu próprio desespero. Tentam espantar o pânico com muito barulho, alvoroços, assovios, como quem vê seu time do coração ganhar um campeonato. E mesmo diante do vozerio, da euforia nervosa, da aflição desfaçada, o trem não se controla, não se arruma, está cada vez pior, veloz e perigoso.

Ignoram friamente outros vagões, onde viajam crianças pequenas, inocentes, despreparadas e dependentes de algum juízo, de alguma lucidez, para sobreviver à viagem. Elas têm uma vida pela frente, ou não. É delas o amanhã incerto, que não se sabe, que não se tem, nem certeza, nem perspectiva, nem nada, a não ser a impressão de uma desordem ainda maior. Outros assentos comportam idosos, que vivem a dicotomia de saberem bem o risco e a consequência e mesmo assim não poderem fazer nada. Olham pra outras viagens, lembram outros cenários, revivem dentro de si histórias antigas que imaginavam nunca mais ver. Relembram a dor, o drama, o sofrimento e choram, sem consolo, porque mesmo sabedores das probabilidades apresentadas, não têm mais forças, não têm mais como, não são ouvidos, principalmente por aqueles que estão na festa, na música, inconsequentes, ironicamente, em louvação àquilo que também os ameaça e agride.

Há também enfermos que viajam no trem. Estes estão sem consciência, sem ação, lutando pela pouca vida que têm, carentes de ajuda, de socorro e misericórdia. Dependem exclusivamente de cuidados para resistir o momento incerto, carecem de atenção, de providência e amparo. Estão entre a vida e a morte, mas, pela tragédia do destino, quem tem poder para lhes assistir está no vagão da festa, cantando, sorrindo, como que tentando esquecer dos que padecem sem poder respirar.

Entre os vagões transitam os guardas. Fardados, austeros, duros e insensíveis, trabalham para “tranquilizar”. Tratam os passageiros como se fossem soldados. Dizem em alto e bom som, como que em voz de comando, “não há perigo algum”, “o trem está seguro”! “não há motivo para medo e pânico”! “estamos aqui para garantir a ordem e a paz”! Mas o que eles falam não tem relação com o que se vê na janela, os fatos falam mais alto, o terror é evidente. E mesmo assim, eles berram, fazem o que podem, o que sabem, gritar, ordenar, impor, talvez só por submissão, mesmo que cega, mesmo que absurda, insana, talvez por medo do pânico que também vivem internamente e que a farda insiste em tentar esconder deles mesmos.

Na impossibilidade de retomar o trilho, ou de se atirar do trem, ou de acabar com a festa para recuperar a lucidez de quem pode fazer alguma coisa e não faz, resta fechar os olhos, talvez para orar, talvez pra chorar, ou, talvez, somente para esperar a próxima curva, o descarrilhamento e o fatídico impacto final, onde todos, indistintamente, serão mortos.      

Dr. Rev. Nilson da Silva Júnior é professor e pastor.

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