Crise no transporte coletivo em Piracicaba revela falta de planejamento e gestão.

A rescisão amigável do contrato entre a Prefeitura de Piracicaba e a Via Ágil, anunciada pelo prefeito no último dia 8, acende uma luz vermelha em relação à gestão do transporte coletivo da cidade. Apesar da garantia da administração de que a população não será prejudicada, o anúncio da empresa que deve começar a operar o sistema, uma empresa do Acre, foi feito apenas três dias antes do início do novo contrato.

É importantíssimo ressaltar que o rompimento do acordo não é motivado pela pandemia do coronavírus, pois como admite a própria administração, as conversas com a empresa já aconteciam desde o início do ano, tendo se intensificado no mês de março e resultado na formalização do pedido de rompimento no dia 16 de março. A quarentena, no Estado de São Paulo e em Piracicaba, começou apenas no dia 24 de março.

As justificativas para o pedido de rompimento estão ligadas à crise econômica pela qual passa o país já desde 2015/2016, segundo as informações da administração. A crise teria provocado uma redução drástica de passageiros pagantes, o que inviabilizaria cobrir os custos do serviço, já que as despesas se mantiveram ou aumentaram.

Os dados existentes certamente corroboram essas justificativas. Entretanto, a questão central a ser debatida, a meu ver, é outra. Será que a população estava sendo bem atendida pelo sistema? Qual o grau de satisfação do usuário do transporte, o trabalhador, o estudante, a dona de casa que dependem dos ônibus para se locomoverem?

O que espanta passageiro é passagem cara, ônibus velho e com baixa qualidade. O que espanta passageiro são os atrasos, a falta de cumprimento de horários, ônibus superlotados.

Essa combinação de fatores faz o uso de serviços como o Uber compensarem, mesmo que a conta fique um pouco mais cara. E este é um problema seríssimo para a cidade, pois aumenta a quantidade de veículos em circulação, prejudica o trânsito e consequentemente o meio ambiente.

Uma gestão eficiente no transporte coletivo precisa levar em conta não apenas os custos, mas, principalmente, a qualidade do serviço. Quanto mais qualidade, mais passageiros, quanto mais passageiros mais saudável o sistema em termos operacionais e financeiros.

É responsabilidade do Poder Público – Prefeitura e Câmara de Vereadores – fiscalizar o serviço de transporte coletivo da cidade, definir diretrizes para o seu bom funcionamento e o atendimento de qualidade aos passageiros. E isso deve ser feito com transparência, participação popular e o uso das mais modernas práticas de gestão.

Vale lembrar que a última intervenção estrutural realizada no transporte coletivo na cidade ocorreu no início dos anos 1990, quando na gestão do prefeito José Machado (PT) foi implantada a integração do transporte coletivo, inclusive com a inauguração do TCI – Terminal Central de Integração. A partir de então vários outros terminais foram construídos, o que ampliou e consolidou a política de integração.

Quase 30 anos depois – a maior parte deles sob governos do PSDB – é preciso repensar o sistema, buscar inovações, viabilizar atendimento de qualidade e que atraia o passageiro. Ônibus novos, com ar condicionado, wifi, que circulem no horário e em linhas bem planejadas certamente proporcionam aumento do uso e consequentemente de receitas.

O transporte público coletivo é um direito fundamental dos cidadãos. Um sistema com bom funcionamento melhora a qualidade de vida das pessoas.

Ainda sobre a rescisão do contrato, algumas questões certamente ficam: a) Qual o saldo financeiro a pagar pela Prefeitura à Via Ágil (informação ainda não divulgada); b) Por que a concessão de um prazo tão curto para o encerramento do serviço pela empresa; c) Se as conversas formais sobre um possível rompimento ocorriam desde o início de março, por que o fato não foi divulgado antes à comunidade?

Vale lembra também que o contrato assinado com a Via Ágil previa um prazo longo de atuação na cidade, de 25 anos, com vencimento só em 2039. O valor: R$ 1,47 bilhão.

O acompanhamento da execução de um contrato deste porte, em um serviço tão essencial à população, deveria feito de forma intensa, inclusive pela Câmara de Vereadores, para não haver surpresas. Não é o que parece ter ocorrido neste caso.

Paulo Roberto Botão – Jornalista e professor universitário

2 Comments on "Crise no transporte coletivo em Piracicaba revela falta de planejamento e gestão."

  1. Maria de Fátima dos Santos | 14 de maio de 2020 at 13:53 | Responder

    Faço minha todas as palavras do Botão.Realmente a muito tempo que o transporte coletivo de Piracicaba vem sendo tratado com total descaso…..ônibus velhos,sempre quebrando;além de muito atraso em varias linhas.E pra piorar ainda mais,no segundo semestre de 2019, O poder público juntamente com a Via ágil resolveram reduzir varias linhas tirando vários ônibus de circulação e prejudicando uma grande número de pessoas.Ficou muito evidente que não há nenhum Respeito Com os usuários.Agora precisamos nos mobilizar para não piorar ainda mais o que já existe ……

  2. Francisco Nuncio Cerignoni | 14 de maio de 2020 at 19:23 | Responder

    Uma das maiores injustiças no Sistema de Transporte Público em Piracicaba é que boa parte do valor das gratuidades, inclusive todo o Transporte ELEVAR, está embutida na tarifa. Isto é, quem utiliza o ônibus (normalmente trabalhadores do comércio, de trabalhos domésticos e estudantes) é que banca.

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