Beatles Cordel: trabalho do grupo piracicabano chega aos streamings

Beatles Cordel: trabalho do grupo piracicabano chega aos streamings

É possível imaginar como o som do quarteto de Liverpool seria recebido em um simples radinho de pilha numa casa de barro no sertão brasileiro? Para o grupo piracicabano Beatles Cordel, essa história “saltou” da imaginação para os palcos e agora ganhou os streamings para espalhar o resultado da mistura da literatura de cordel com a música nordestina e as canções que marcaram época com John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr.

“O Beatles Cordel surgiu de uma vontade que eu tinha de unir duas grandes paixões: Beatles e música nordestina. Além de unir isso musicalmente, ou seja, tocar as músicas dos Beatles no universo da música nordestina, eu queria algo a mais. E assim veio a ideia de trazer a poesia de cordel para o projeto também. Então criei um personagem, o Seu Quité, um poeta matuto que descobre o som dos Beatles, mas não faz ideia de quem são esses caras que, na interpretação dele, ‘tocam um forró muito doido’. Eu quis dar essa narrativa para o projeto, que é o olhar de um matuto com uma certa inocência, pois na visão dele toda música que existe é forró. Logo, ele “inventou” esses Beatles que tocam com zabumba, triângulo, sanfona, viola, enfim, instrumentos da música regional nordestina”, destacou o vocalista Rafael Beibe, que também toca zabumba.

O disco virtual traz a releitura de oito canções de sucesso dos Beatles, como All you need is love, Come Together e Blackbird. “Intercalamos as faixas com os cordéis em que o Seu Quité vai contando como ele faz pra descobrir mais sobre os Beatles. Eu não vou dar mais spoiler e quero convidar todo mundo pra ouvir o disco do início ao fim, como se fosse uma faixa só, e se permitir viajar um pouco na imaginação desse personagem. O disco, inclusive, foi masterizado com as faixas todas juntinhas, como se fosse uma música só. Eu acredito que usar a nossa imaginação é algo poderoso e que nos liberta. Quem não consegue usar a imaginação pra abstrair, inventar, sonhar, acaba ficando aprisionado e, pior, condicionado a viver em um mundo mais seco e apático. Então bota o Beatles Cordel no som e bora exercitar a imaginação”, complementou Beibe.

Além de Rafael, também integram o grupo: Rafa Virgulino (sanfona), Gugué Medeiros (bateria e percussão), Matheus Tagliatti (baixo), Alysson Salvador (viola) e Giovani Bruno (Seu Quité). Beatles Cordel estreou no dia 21 de fevereiro de 2019, no palco do Sesc Piracicaba e desde então foram diversas apresentações, mas a pandemia da covid-19 interrompeu os shows. “O projeto surgiu como um espetáculo com a banda interagindo com um ator no palco, mas por conta da pandemia resolvemos fazer essa adaptação em disco digital. Já tínhamos o projeto do disco antes, mas a pandemia acelerou o lançamento porque infelizmente não podemos estar na estrada tocando. Que destacar que o Rafa Virgulino também foi o responsável pela gravação e encabeçou a produção do disco. Sem esses caras, que são todos amigos e artistas que admiro muito, o projeto ficaria muito mais difícil de realizar. Agradeço também o Felipe Romano Cogo, que fez a mix, o Renato Napty, que fez a master, e o Matheus Fractal que fez um trabalho sensacional na capa do disco”, disse o vocalista.

A ARTE E A PANDEMIA

A pandemia tem sido um momento de reinvenção para o setor cultural, mas também um dos mais difíceis para a classe artística que depende das apresentações para sobreviver.Existe uma tristeza muito grande em mim porque essa situação da pandemia é uma grande tragédia. A gente tem exemplos de países que já conseguiram conter, e muito, a proliferação do vírus, pois tomaram medidas responsáveis a tempo, mas no Brasil… Sabemos que tem muita gente passando muito apertado, músico vendendo instrumento que trabalhou a vida toda para conseguir comprar. E não só músicos, né? A população de uma maneira geral. Tenho a sorte de não ter perdido ninguém próximo de mim e de ter condições de me manter nesse tempo longe palcos. Tenho produzido bastante, apesar de tudo isso que está acontecendo, e mais uma vez evoco o poder que a imaginação e, por consequência, a arte tem na nossa vida. O que seria da gente na pandemia sem a arte?”, contou Beibe.

Enquanto não é possível retornar aos palcos e seguindo esse “novo formato” de apresentações durante a pandemia, no próximo sábado (29), às 19h, o Beatles Cordel tocará o disco ao vivo e na íntegra no canal do YouTube. O trabalho da banda também pode ser acompanhado pelas redes sociais (Facebook e Instagram) e as músicas estão disponíveis no Spotify, Apple Music e no Deezer.

 ZAÍRA

Junto com o Beatles Cordel, Rafael Beibe também concilia os projetos com a Zaíra, da qual foi um dos fundadores, e diversos outros projetos. “A Zaíra é o primeiro projeto musical da minha vida como músico profissional. Eu dei o nome pra banda, vi tudo nascer do zero. Tenho muito orgulho de tudo o que construímos, ainda mais por pensar que éramos literalmente uma molecada caipira querendo subir no palco e tocar e, olha só, conseguimos chegar em muitos palcos brasileiros e internacionais. Em junho, inclusive, a Zaíra lança um som novo som”, falou.

“Acho legal a gente poder se expressar e coexistir em vários espaços de criação, uma coisa não barra a outra. Eu tenho outros projetos além desses dois: tem o Zabumblog, que é o meu canal de zabumba onde compartilho dicas sobre o instrumento; também sou um dos vocalistas de uma banda de forró muito maravilhosa que se chama Fuá de Guegué, projeto do parceiro Guegué Medeiros, em que divido o vocal com Danilo Moraes e Janayna Pereira, e estou prestes a lançar meu trabalho solo também. Então tudo isso existe junto e ao mesmo tempo, a gente é múltiplo e pode criar em vários espaços”, finalizou Beibe.

 

 

 

 

 

 

 

Carol Castilho é jornalista e co-editora do DE. 

 

 


(Foto de capa: Matheus Fractal)

 

 

 

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