As eleições e a utopia regressiva paulista

As eleições e a utopia regressiva paulista

A bem dizer, e em se tratando do interior paulista, poucas são as novidades ao final do primeiro turno das eleições ocorridas no domingo – 4 de outubro. É fato que os números estão aí e precisam ser analisados caso a caso, com todo respeito, interesse e cuidado. Mas, de maneira geral, o movimento político-ideológico paulista continua, ao que parece, o que sempre foi: reacionário e regressivo.

A vitória esmagadora dos candidatos da extrema-direita em todo sudeste amplia ainda mais a visão de que o paulista (deixemos de lado, por enquanto, o paulistano) deseja, mesmo, o regresso a um passado (parte dele mítico) em que a opressão contra determinados grupos sociais era normalizada, em que as classes sociais eram mais definidas (e desiguais) e os direitos (sociais e humanos) não faziam o menor sentido. Prova do anseio paulista por essa utopia regressiva – se é que podemos emprestar esse termo das ciências políticas – comprova-se, por exemplo (dentre tantos), com a votação estratosférica da candidata Eduarda Campopiano, do PL, eleita com quase 2 milhões de votos e autora de considerações como:  “Glória a Deus que [nos] colonizaram” ,  “feminicídio não existe” e “indígenas são canibais”. No mesmo pacote ideológico, como se sabe, estão os votos esmagadores dados a Flávio Bolsonaro, Tarcísio, Derrite e por aí vamos.

Em terras piracicabanas – e em nossa sacrossanta região metropolitana – a toada de gado foi a mesma de sempre. Ao que pese o número de votos dados a Bolsonaro Júnior neste ano ser percentualmente menor do que os dados a Bolsonaro Pai em 2022 (Jair Bolsonaro teve 155.716 votos em 2022 contra os agora 143.775 votos de Flávio), o bolsonarismo continua raivando na terra em que o peixe para. Nesse sentido, não deu nem mesmo para os nossos candidatos “mais” locais. Os vereadores e vereadoras piracicabanos que pleiteavam cadeiras na Câmara Federal ou na Alesp não chegaram nem perto desse sonho – e mesmo Barjas Negri, do PSD, ex-prefeito de Piracicaba por dois mandatos, apontado como um dos mais fortes representantes da cidade para uma vaga em Brasília, não conseguiu seu intento (ficando, aproximadamente, em torno de 60 mil votos).

De maneira geral, não fosse pela excelente votação da deputada Professor Bebel (PT) para a Alesp (Bebel ultrapassou os 140 mil votos!), a esquerda mais diretamente ligada a cidade de Piracicaba teria sido completamente engolida pela extrema-direita (destaque-se ainda, é claro, dentre as 16 cadeiras conquistas pelo PT na Alesp, as reeleições do deputado Luiz Claudio Marcolino e da deputada Ana Perugini, também sempre atuantes no interior paulista e em nossa região metropolitana). Todavia, a saber, só o PL conquistou 27 assentos na Assembleia Legislativa de São Paulo.

Se em editoriais anteriores este Diário perguntava-se sobre como votariam os piracicabanos e como votariam os católicos diante dos escândalos envolvendo o nome de Flávio Bolsonaro nos casos de corrupção do Banco Master e na rixa entre evangélicos e católicos, é preciso reconhecer que o resultado de domingo responde claramente ao que questionamos: nada cola contra os líderes reacionários no interior paulista. E mais: a empatia pela baixa qualidade desses candidatos, por suas posturas falaciosas e por suas declarações utopicamente regressivas conquista deliberadamente o coração e o voto da “nossa gente,” que pensa e vibra como os candidatos mais radicais – e luta pela retomada de um passado tetricamente utópico, pelo fim da esquerda, do lulo-petismo e de qualquer ideia progressista.

Diante desse quadro, e se já nos assombra a probabilidade do resultado nacional do segundo turno para a presidência do país, se descortina com bastante clareza a tendência para as nossas próximas eleições municipais para prefeitura e câmara. Quer dizer, a se seguir essa toada interiorana, o resultado local em 2028 tende a ser ainda mais funesto por aqui.

Parodiando o poema de Manuel Bandeira, talvez não nos reste mais nem mesmo poder tocar um tango argentino. Se há algo a fazer, talvez possamos – e olhe lá – apenas tocar o berrante.

 


Diário do Engenho.

 

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