Ana e Eduarda: joio e trigo na democracia

Ana e Eduarda: joio e trigo na democracia

O cansaço e a decepção com os resultados do poder tal como exercido pelos homens e adultos têm levado a que se defenda maior protagonismo das mulheres e dos jovens. É algo que faz sentido: a mudança é o caminho para se buscar uma realidade melhor do que a vivida. Sem mudar, tudo continua como é: nada mais lógico.

Mas, cuidado! Veja-se o caso de duas mulheres jovens – portadoras, portando de duas qualidades identificadas como necessárias para melhorar o desempenho de cargos políticos, visando melhores governos em benefício da sociedade – eleitas no último dia quatro de outubro: Ana Elisa, do PT, em Minas Gerais; Eduarda Campopiano, do PL, em São Paulo.

A generalização falha: apesar de ambas se igualarem no quesito gênero e faixa etária, não é possível esperar, igualmente, de ambas, um mandato com potencial para melhorar a concepção, articulação e aprovação de leis em seus respectivos estados. É tanta diferença no comportamento, nas atitudes, no discurso, nas propostas, que é impossível que as duas caminhem na mesma direção. Muito pelo contrário: ocupassem o mesmo plenário, viveriam confrontos a cada sessão.

O importante, nesse caso, é verificar as diferenças fundamentais entre elas: a mineira é pobre, preta e petista; a paulista é de classe média, branca e bolsonarista. Ocupam os extremos opostos sociais, raciais e ideológico/partidários existentes na realidade socioeconômica e política brasileira.

E de qual delas é possível esperar uma postura política, decisões e ações de valor na direção das mudanças que precisam ser levadas a cabo no Brasil? Mudanças para fortalecer a democracia, para melhorar as condições econômicas e sociais de seus estados.

Basta ouvir por alguns minutos as duas, comparando. A maturidade salta aos olhos no caso da ponderada e claramente bem informada Ana Elisa (524.216) votos; a contundente e mirabolante Eduarda (1.956.238 votos), mais parece uma criança esperta e teimosa (mais teimosa que esperta), o tempo todo querendo “lacrar”.

Essas duas meninas são absolutamente representativas dos dois lados da polarização aparentemente insuperável que marca a realidade política brasileira há alguns anos, desde que o PT chegou ao poder. Uma pedirá votos para Lula e outra fará campanha para Bolsonaro 01 no segundo turno das eleições presidenciais.

Não vale a pena convidar os eleitores a assistir a dois ou três vídeos delas (https://www.youtube.com/@eduardacampopiano e https://www.tiktok.com/@euannaelisa) e, após comparar as posturas mantidas e os argumentos apresentados, decidir em quem votar, pois a mencionada polarização fará cada um dos lados vibrar com uma e vibrar com outra. Mas, não fossem os fanatismos envolvidos, sinceramente, seria impossível acreditar que alguém aceitaria a indicação de candidato feita pela Eduarda. Assim como seria impossível, antes dos resultados das urnas, acreditar que ela seria eleita. Assim como é incrível que Bolsonaro 01 tenha vencido Lula no primeiro turno.

Se o bom senso e a sensatez retomarão seu lugar no segundo turno, saber-se-á até o meio ou final da noite de 25/10/2026. Enquanto isso, tomara os eleitores tomem consciência do que acontecerá com o país e com suas vidas se o vitorioso do primeiro turno for também o do segundo: os Bolsonaros continuarão enchendo seus bolsos e esvaziando não só os nossos bolsos (com desemprego, precarização do trabalho, fim do SUS, do Bolsa Família, do Pé de Meia, das quotas nas universidades, da expansão do ensino superior público etc.), mas também as nossas esperanças de democracia, distribuição de renda, soberania.

 


Valdemir Pires é economista e escritor. 

 

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