Apenas mais uma decepção


Começo a escrita deste artigo pensando por onde começar a falar sobre as últimas notícias do governo desgovernado do presidente Jair Bolsonaro. Tem me intrigado, inclusive, o uso repetido desses termos para descrever sua atuação política – governo desgovernado – no entanto, na ausência de um termo que seja tão adequado quanto simples, continuo adotando-os.

Eu já havia chamado a atenção em artigo anterior para os perigos latentes da desastrosa política ambiental deste governo. A pasta do meio ambiente comandada por Ricardo Salles já vinha sendo conduzida de forma irresponsável, equivocada e ignorante – para não dizer burra – desde o início deste ano: as declarações descreditando o INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), as associações descabidas entre os alertas de cuidado do meio ambiente com ideologias e teorias da conspiração, a flexibilização e consequentemente, o afrouxamento nas leis de reflorestamento das áreas de proteção ambiental na Amazônia, o episódio envolvendo os veganos e nem mesmo aquilo que o homem expurga em suas necessidades básicas, passou batido nas declarações do nosso presidente: “[…] quando se fala em poluição ambiental, é só você fazer cocô dia sim dia não que melhora a nossa vida bastante.”.

As questões de ordem ambientais têm sido cada vez mais destacadas em sua urgência e importância nos planos políticos de grandes países, o próprio presidente da França, Emmanuel Macron, em evento recente do G20, declarou que não se aliaria politicamente com países que não dedicassem a devida atenção a esses temas e não se implicassem em buscar soluções para diminuir os impactos ambientais causados pela poluição e pelo homem. A chanceler alemã, Angela Merkel, em declaração semelhante, apontou inclusive, suas preocupações sobre os comportamentos adotados por Jair Bolsonaro neste assunto. Pois bem, na sexta-feira passada (09/08/2019), a Alemanha emite um comunicado informado sua saída do Fundo Amazônia, um fundo sustentado por recursos financeiros provenientes principalmente da Alemanha e da Noruega, que tem por finalidade financiar projetos de combate ao desmatamento da Amazônia e de degradação do meio ambiente. “Não posso dar dinheiro enquanto continuam desmatando”, são as palavras de Merkel.

É lamentável que além da continuidade do desmatamento, temos um ministro – Salles – e um chefe de estado – Bolsonaro – que para além de se eximir de pensar e planejar ações para combater essa realidade, quase que diariamente se posiciona desmentindo os dados que apontam para a situação de calamidade das nossas florestas. É preciso que se faça um exercício profundo e urgente de reflexão neste momento no tocante ao impacto que isso tem para o Brasil no âmbito da diplomacia, e para a Amazônia, no que se refere a sua árdua preservação.

Mas os ataques não cessam, obviamente, pois, trata-se deste governo desgovernado.

O dia é 12 de agosto de 2019, e a CAPES – Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – responde negativa à solicitação de financiamento da edição do 9º Congresso Internacional de Constitucionalismo e Democracia a ser realizado na UFSC – Universidade Federal de Santa Catarina, justificando que “O aspecto negativo é a necessidade de recorrer aos cofres públicos para a realização de congresso que não apenas voltado à construção científica, mas também à crítica política. A CAPES não pode destinar verbas públicas para eventos, publicações ou formação de cunho político ou partidário.”.

Novamente, trata-se de censura velada. Digo velada, pois, o evento poderia ocorrer se financiado de outras fontes, no entanto, é certo que a negativa da CAPES dificulta consideravelmente a realização. E nem se trata de discutir a realização ou não do evento no tocante seu financiamento. Trata-se de discutir por qual razão um órgão como a CAPES, responsável pelo incentivo direto à pesquisa e formação superior no Brasil, se nega a financiar um evento composto por renomados profissionais a nível nacional e internacional dentro de uma universidade federal? É a tentativa clara e objetiva de se tentar calar as vozes que provocarão nos indivíduos sociais o incômodo, o desconforto e a inquietação, ou seja, os sentimentos primeiros daqueles que se movem, que não se conformam, e que de formas distintas, lutam. Lutam diariamente contra os autoritarismos maquiados ora de líderes e salvadores, ora de Estado democrático de direito.

Não é um exagero e muito menos uma perseguição para com o sujeito que está presidente da república no Brasil, apontar os sérios riscos de sua postura negacionista e autoritária, leviana e usurpadora. Nosso chefe de Estado continua a errar seriamente continuando a provocar e incentivar as diferenças e polarizações, contribuindo perigosamente para o distanciamento cada vez maior entre os brasileiros.

É preciso, mais do que nunca, termos consciência de que os efeitos do desgoverno serão sentidos por todos, e não apenas pelos chamados “esquerdistas/petistas”, como uma grande maioria parece acreditar piamente. O presidente governa para todos. Suas ações têm impacto direto na minha, na sua, e em nossas vidas.

O Estado é de exceção, não tenham dúvidas.

Yone Moreno é historiadora formada pela UNIMEP.

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