Aos idiotas como eu

Aos idiotas como eu

“Me consideram um idiota,

mas apesar de tudo eu sou inteligente

e eles nem adivinham.”

– F. Dostoiévsky 

Sempre tive uma queda por narrativas que se passam em sanatórios. Mausoléus do isolamento social, os sanatórios são um universo à parte – destinados à cura daqueles que, por motivos variados, felizmente já não podem conviver mais junto dos que habitam o mundo convencional da realidade cotidiana (forjada por um grupo seleto de moralistas, políticos, religiosos e outros juristas e juízes ocasionais da vida do outro, sempre de plantão). Loucos, idiotas, tuberculosos, leprosos, alienados, tarados, alheios, proscritos, condenados, moribundos e tantos outros tipos de “antinormais” dão viv’alma a essas habitações-bolha, quase sempre cheias de tristeza e dor – porém, inoculadas com vacinas sociais capazes de garantir a seus moradores os anticorpos necessários à imunização para uma existência outsider.

Na literatura, os sanatórios – via de regra – erguem-se como templos raros em louvor dos que recusam o senso comum da normalidade da vida dos homens de bem e das mulheres belas, recatadas e do lar. No sanatório de Davos, da Montanha Mágica de Thomas Mann, por exemplo, transitam pelas alas dos doentes figuras curadas dos males da vida cafona que se vive na planície do dia a dia de uma europa bélica e mortal tida como normal pelo mundo. No sanatório mágico de Mann não faltam os prazeres insanos dos párias da sanidade e sobram orgias fecundas nas madrugadas de sexo e música, numa abundância de vícios e figuras ímpares que não cabem no mundo dos sãos – como uma mulher capaz de assoviar pelos furos de seu pneumotórax e tuberculosos que não dispensam uma boa cerveja preta e um charuto até verem cair a neve sobre a tarde de seus último dias.

O sanatório da Casa Verde, de Simão Bacamarte – célebre alienista de Machado de Assis –, também abrigou por algum tempo aqueles que, ao exporem certo tipo de mania ou hábito pouco comum, eram recolhidos à força pelo médico às suas dependências. Alienista e alienado, ao ver sua Casa Verde muito populosa e as ruas da pequena Itaguaí minguando de gente, Bacamarte entendeu que aqueles todos que ele havia recolhido eram sãos demais para seu sanatório – e que o normal da vida é ter manias. Depois, o alienista soltou os internos e trancou-se ali sozinho interrogando-se se “deveras estariam eles doidos, e foram curados por mim, ou o que pareceu cura não foi mais do que a descoberta do perfeito desequilíbrio do cérebro?”

A idiotia não deixa de ser uma benesse quando a comparamos aos padrões mentais e comportamentais dos pertencentes ao aclamado reduto dos notáveis sensatos que creem serem capazes de conduzir as rédeas da carroça fuleira da vida-padrão em sociedade. E, nesse sanatório geral a passar pela avenida arrepiando paralelepípedos das velhas cidades, ninguém melhor do que Dostoiévsky a nos mostrar que ser idiota é doloroso, mas pode valer muito a pena. Afinal, e quixotescamente avesso aos sabores e dissabores da sociedade russa, Míchkin – protagonista de “O Idiota” – nos revela que o sanatório é paradoxalmente o melhor lugar para quem, apesar de se dedicar humana (e mesmo cristicamente) ao outro, sente-se não pertencente ao mundo que o cerca.

Entre espertalhões e abutres da fé, em meio ao consenso geral de uma sociedade capaz de perdoar os que promovem o morticínio dessa própria sociedade e celebram a mentira e a morte, fato é que – em nosso mundo real, sem poesia e ficção – ser idiota também é uma dádiva. Internos por vontade em nossos próprios sanatórios pessoais, sãos são (somos) os que se sabem cada vez mais idiotas ante os mitos de araque incensados por odiosas hordas de adoradores que se acham gênios. Inspirados em Thomas Mann, Machado de Assis e Dostoiévsky (a nos levarem para seus sanatórios-catedrais) e vendo o mundo tátil do factum a que nos sabemos imersos, ser um perfeito idiota nunca foi tão bom, honesto, humano e necessário. Sim. Ser idiota tornou-se questão de sobrevivência.

(Crônica publicada também em “A Tribuna Piracicabana” desta quinta-feira, 29/04/21).


 

 

 

 

 

 

 

Alê Bragion é editor do Diário do Engenho.

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