Não há protestantismo no Palácio!

Artigo alusivo às comemorações da Reforma Protestante – em 31 de Outubro.

“De acordo com a tradição, não existem provas documentais de que, no dia 31 de outubro de 1517, Martinho Lutero afixou a lista das 95 teses na porta da igreja do castelo de Wittenberg. Alguns estudiosos afirmam, ao contrário, que as teses foram afixadas em novembro. Outros defendem ainda que Lutero teria, inicialmente, enviado as teses ao arcebispo de MainzAlbertode Hohenzollern, ao Papa Leão X(Giovanni di Lorenzo de’ Medici, pontífice de 1513 a 1521) e a diversos de seus amigos e professores universitários. Somente depois da ausência de resposta dos altos eclesiásticos, Lutero – ou um pequeno grupo dos seus estudantes – teria publicado na porta da igreja do castelo de Wittenberg as 95 teses, para expô-las do mesmo modo que os comunicados e editais públicos da época”(http://www.ihu.unisinos.br), o certo é que esse monge desencadeou um grande debate ético/teológico na Igreja – o que ameaçou inclusive sua própria vida e o fez se refugiar, como um fugitivo, entre 1521 e 22 no castelo de Wartburg,que fica na cidade hoje conhecida como Eisenach, no leste da Alemanha.

O fato de Lutero ter publicado suas 95 teses e isso ter se tornado o dínamo precursor da Reforma Protestante todos nós sabemos mas, o que pouco percebemos ou destacamos é que ele saiu da zona de alcance da igreja e se enclausurou em um palácio alemão, no conforto e na segurança de príncipes que tinham interesses políticos na Reforma – pois, uma vez independentes do poder da Igreja, não mais teriam obrigações com as pesadas contribuições que deviam a ela. O mais lamentável é que mesmo rompendo com o dever dos envios financeiros ao Papa, os príncipes alemães não deixaram de cobrar os impostos anteriormente exigidos de seus súditos. Lutero foi duramente criticado pelo povo porque se eximiu do dever de defender a justiça junto aos príncipes, preferiu se manter protegido e aquecido pelos castelos alemães. Lutero fez um bem enorme à religião no sentido de questioná-la (a Igreja pode ser questionada) mas abdicou de sua responsabilidade profética quando se calou vendo o povo continuar sendo oprimido.

Pelos meus olhos passam cenas muito similares àquelas dos tempos da Reforma e que servem de reflexão, especialmente a quem se diga “protestante”. Se por um lado, num passado breve, tivemos que nos posicionar e fazer questionamentos sérios relacionados à justiça, se exigimos investigações, se apoiamos a apuração de denúncias, se defendemos o direito de acusação e defesa visando a proteção e a importância de valores que temos como sinais do Reino de Deus na Terra – justiça, verdade, respeito, igualdade, vida – por outro, devemos prosseguir atentos a qualquer postura, atitude, ação que simbolize afronta a Deus e ao que Ele significa.

Principalmente aos “profetas” atuais, devemos alertar para as tentações dos castelos, dos palácios, das aparentes seguranças que se assentam sobre a omissão, o descaso e a indiferença. Infelizmente vejo pastores “passando o pano” para muitas atrocidades, a troco de cargos, de favores ou mesmo valores. Um profeta é aquele que não “passa por cima” daquilo que Deus reprova, mas o que sai do palácio, que se junta ao povo e que confronta a injustiça, mesmo que seja daqueles que o protegem. Não é cabível, principalmente a um “protestante”, deixar de protestar quando se depara com brutalidade, truculência, ignorância, soberba e desrespeito. As 95 teses devem saltar no coração de quem se depara com opressão, seja lá de que forma for. É preciso haver Reforma permanente.

A Reforma não pode apodrecer pendurada na porta de uma catedral! Temos que aplaudir o que for bom, mas reprovar severamente o que não for. Na alma de um “protestante” não pode existir duas personalidades, duas caras, dois olhares. Não é possível sorrir de olhos fechados! É preciso manter olhos abertos e a serviço do céu! A boca, a inteligência e a lucidez de um verdadeiro Protestante deve estar àdisposição de Deus, do mesmo Deus que em Jesus confrontou os Principais da Sinagoga, que açoitou os vendilhões do Templo, que resistiu aos Escribas e Fariseus.

Não há protestantismo no Palácio! O protestantismo faz menção à justiça, ao direito e, principalmente à igualdade. Não pode haver conforto no Palácio e pobreza pro povo sem o protesto de sacerdotes incomodados com o descaso, à desumanidade e a alusão a violência. É preciso sair do palácio para se juntar ao povo! É preciso não se esquecer da realidade de quem mais sofre! É preciso não se distanciar da vida comum das pessoas para também não se distanciar da vontade de Deus! Não podemos nos manter escondidos sob a tutela de “reis” injustos! Parafraseando as palavras do Cristo, se os verdadeiros cristãos, sejam Protestantes ou Católicos, políticos ou apolíticos, letrados ou incultos, carismáticos ou tradicionais, se calarem diante do preconceito, da insensibilidade, diante da carência, do desamparo e da morte, as próprias pedras clamarão! (Lucas 19:40) e as Reformas mais importantes da vida se perderão nalguma história, de algum país, de alguma religião, de algum passado remoto.

Nilson da Silva Júnior é pastor e professor.

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