2019: o ano interminável.

É comum ouvirmos que o tempo está cada vez passando mais rápido. Nos últimos anos, ao chegar dezembro também experimentei a sensação de “como assim, já é dezembro?” No entanto, 2019 está sendo diferente. O cansaço é imenso, confesso. Por um lado, uma sensação de alívio: que bom que já é dezembro. Por outro, um atordoamento derivado, acredito, do ritmo de sandices que desfilaram pelas páginas dos jornais e pelas timelines das redes sociais. Tantas coisas aconteceram que me perco e o primeiro semestre, já tão distante, parece que foi ano passado ou retrasado. Tenho dito a colegas e amigos que parece que faz uns três anos que estamos em 2019. Escrevo em 21 de dezembro e sei que é temeroso dizer que estamos no fim. Aprendemos que tudo pode acontecer em questão de horas nesse Brasil de 2019, o ano que entrará para as minhas memórias como o ano do absurdo. 

Um absurdo que teve início em outubro de 2018. Deve ser por isso que parece fazer tanto tempo que é 2019. Desde o resultado das últimas eleições eu sinto que entrei num buraco, espécie de túnel espaço-temporal que não segue nenhuma lógica, mas que nos leva para o passado. A última eleição nesse país foi um acontecimento que, decididamente, extrapolou o campo da política e desaguou no campo da moral, colocando em risco nossas relações de afeto familiares e de amizade. As escolhas não se orientavam por questões como ‘mais estado’ ou ‘menos estado’, ‘estatização’ ou ‘privatização’, ‘intervenção na economia’ ou ‘livre mercado’. As escolhas foram feitas no campo do ‘bem’ contra o ‘mal’, dos ‘honestos’ contra ‘corruptos’, dos ‘cidadãos de bem’ (que defendiam o armamento da população, a redução da maioridade penal e a pena de morte) contra ‘defensores de bandidos’ (que eram contra a redução da maioridade, contra o porte de armas, enfim, que eram os defensores dos direitos humanos). O Brasil virou uma loucura desde a última eleição.

E agora, na iminência das festas de fim de ano e reunião de família, pipocam pessoas perguntando o que fazer na ceia de natal com os parentes que elegeram esse governo e, pior, que ainda insistem em defendê-lo, a essa altura do campeonato. Foram tantas ações destrambelhadas, tantas declarações estapafúrdias, tanta vergonha alheia para um ano só. Funcionários de baixo escalão, mas também secretários e até ministros terraplanistas. Ministros canastrões achando que são engraçados, fazendo ceninhas patéticas – um dança com guarda-chuva, a outra chama uma coletiva de imprensa, fica em silêncio e depois chora e se retira sem dizer nada. Até peixe inteligente que foge de mancha de óleo no mar apareceu em live presidencial – modalidade de comunicação oficial do ano. Ah, claro, e teve presidente dizendo I love you para o mandatário dos EUA…

Se tivesse ficado só nisso, seria muita vergonha, mas estaríamos no lucro. Mas tem ministro do Meio Ambiente negacionista do aquecimento global, chanceler revisionista histórico; avião oficial da presidência carregando alguns quilos de cocaína. E o que dizer da tentativa de botar deputado fritador de hambúrguer na embaixada dos EUA? (não era de cozinheiro, era de embaixador!); tem também o vereador do Rio de Janeiro que passou mais tempo em Brasília e no Twitter do presidente postando fake news do que na câmara de vereadores carioca; e o caso do senador da rachadinha e da fantástica loja de chocolates;o que esses três casos têm em comum? A papatocracia! Porque mamata não existe mais nesse país desde janeiro de 2019. Mas ainda teve denúncia de candidaturas laranjas e briga no Partido Só Laranja (PSL); e teve saída do partido, lavação de roupa suja entre ex aliados e o governo (Alexandre Frota e Joice Hasselmann que o digam…). E teve outro crime ambiental envolvendo a Vale, queimada criminosa na Amazônia, vazamento de óleo no litoral do nordeste com contaminação das praias (e em todos os casos muita ineficiência nas ações de órgãos responsáveis); mortes criminosas de indígenas,prisão de ativistas sociais e ambientais, muitas ameaças nas redes sociais, muitas mortes de crianças, cidadãos, famílias inteiras que estavam no lugar errado – leia-se na favela- e levaram cinco, dez, setenta tiros dos agentes de segurança pública.

E teve vaza-jato, pavão misterioso, de(re)forma da previdência, o fim e/ou redução de direitos sociais. E entre uma e outra loucura tivemos fake news, mas muitas fake news divulgadas pelo presidente, por seus filhos, aliados e robôs. Teve presidente se referindo a governadores do nordeste de forma preconceituosa, presidente agredindo e atacando jornalistas e veículos da imprensa quase todo dia. Teve corte de verbas na Educação e na Ciência, cortes de bolsas, mais fake news, ministro fazendo conta com chocolatinhos e errando a conta, ataques às universidades, aos professores, mais fake news, ministro confundindo Kafka com kafta, presidente popularizando fetiches sexuais em pleno carnaval… E, quase me esqueço, tem o  condomínio Vivendas da Barra, aquele que é bem democrático e que qualquer um pode entrar, onde políticos ilibados e milicianos são vizinhos (e amigos…).

A verdade é que dá muita canseira só de lembrar. E a cada absurdo listado, não consigo deixar de pensar que tudo pode piorar, afinal esse governo tem um astrólogo terraplanista como guru. Um sujeito claramente perturbado, que se autointitula filósofo, cujo vocabulário orbita em torno de sua fixação por genitais e xingamentos de baixo calão. Nesse momento, boa parte das instituições públicas do país estão nas mãos de ferrenhos defensores das teorias da conspiração e sandices como: a Pepsi usa fetos abortados para adoçar refrigerantes; Einstein e Newton são burros; as letras das músicas dos Beatles foram escritas pelo Adorno – pensador comunista da Escola de Frankfurt; soviéticos infiltrados na CIA distribuíram LSD em Woodstock e por aí vai… devidamente ensinadas pelo velho grosseiro e pornográfico defensor da família e dos bons costumes que mora nos EUA, a quem insistem em chamar de professor.

Esse 2019 está sendo um ano particularmente difícil para a área da Educação, com um ministro que escreve muito mal, além de ser extremamente mal educado, temos visto Paulo Freire ser atacado como doutrinador e culpado por todas as mazelas da educação no país, enquanto o astrólogo, que nem diploma do ensino fundamental possui, que ataca as Universidades Públicas brasileiras por claro ressentimento e inveja, é chamado de professor e mestre por deputados, secretários e ministros de Estado.

E quantas bizarrices ainda podem acontecer até dia 31 de dezembro. Como seria bom dormir no dia 31 e acordar em 2023 ou 2028… sei lá, só por segurança, queria acordar bem longe de 2019!

Francine Ribeiro é filósofa e professora de Filosofia no Instituto Federal campus Capivari.

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