Vou-me embora para Quatis – cidades visíveis I.

Vou-me embora para Quatis – e levo Bandeira comigo. Vou brincar de poesia, vou ler para toda gente em voz alta de alegria, vou dizer que sou amigo de quem quiser poetar de noite (à noite todo poeta é rei) e dormir ao longo do dia. Vou-me embora para Quatis. E como subirei de manhã cedo suas ruas de pedra e leite deixado rente no vão de casas todas-tão-todas chãs. Vou-me embora para Quatis. Vou viver um lá tão diferente do que o aqui até agora fiz. Vou-me embora para Quatis. Lá não tem cara feia mandando folgada em castelos de marfim, não tem político reeleito de qualquer jeito ou em troca de dentadura. Em Quatis não tem usura que nunca – nunca – chega ao fim. Vou-me embora para Quatis – por aqui, vejam só, olhem bem, ninguém é de fato feliz.

Vou-me embora para Quatis. Lá, a existência é uma pintura de tal modo tão dolente que me sinto um contraparente de parentes que nunca tive. Vou-me embora para Quatis. Aqui eu não sou feliz. Aqui vejo a linha dura do horizonte morrer abraçada num pé de cana plantado na beira de toda estrada. Vou-me embora para Quatis. Quão longe de cá estiver, nem que seja literariamente, tão longe me sinto afastado de um certo tipo de gente que manda mais do que pode, que cheira pior do que podre e vive exibindo o nariz. Vou-me embora para Quatis. Aqui já não dá mais pé – é cada gestor chulé mandando dependurado nos sacos suspensos da glória eterna desta triste matriz. Ah, se vou! Vou-me embora para Quatis.

Vou caminhar pelas montanhas, vou saber de ver a vida, vou querer erguer subidas às catedrais do meu sonhar. E levo Bandeira junto – levo! Levo Pessoa, Vinícius. Levo Torelli e Aparicius sem Carpinejar. Vou-me embora para Quatis. Vou visitar o Rocco e a Lilian – e tomar limonada gelada sentado nos degraus da escada do meu imaginar. Vou-me embora para Quatis! Aqui eu só vejo gente doente – da cabeça que não retém um pensamento sequer e do coração que bate sem saber por que é tão duro ser como se é. Vou-me embora para Quatis. E como tomarei banho de ares repletos de sempre-viva-sempre-novas exalando aconchego aos fins de tardes não quentes e de noites mais do que um pouco frias. Vou-me embora, vou no vento, vou-me embora para Quatis.

Em Quatis tem quase tudo – e ainda há civilização! Aqui é só ponte e subúrbio a se erguer sem emoção. Em Quatis, como aqui, graças a Deus não sou amigo do rei. Mas lá o rei não se sabe rei – lá não é como em algumas cidades em que manda quem faz a lei e obedece quem não tem siso nem senso nem juízo. Vou-me embora para Quatis. E se um dia eu ficar cansado, (cansado como estou agora), se um dia eu ficar estafado de ver tanta exploração, tanta falta de cultura e obsessão pelo poder, deito a cabeça no meu travesseiro e imagino meus desejos – desejos de um novo mundo – se realizando inteiros. Vou-me embora, vou certeiro!

Vou-me embora para Quatis! Me espere Bandeira, me espere! – que aqui já não dá mais, não.

Alê Bragion é editor do Diário do Engenho.

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