Voemos

Ando cansado de ter e ser em estado de solidão. Ando cansado de ver, trancado, o mundo na contramão. Derrubo serpentes da estante, abro garrafas de vinho em forma de esperanças, fumo jornais alados na distância dos meus sonhos – que são tantos – e tão simples. E canso. Confesso. Ando cansado de ver a força bruta bater continência na esquina. Ando cansado de ver a sina dos que não podem ser senão oprimidos em opressão. Ando cansado. Talvez cansado de não saber fazer pelo outro nada mais do que a minha obrigação, de não ser pelo outro pouco mais que o nada em oração sempre tardia a pedir, a desejar, entre deuses e deusas, um pouco de amor e compreensão. Ando cansado. Ando cansado de ver e saber que a raiz do meu país ainda planta em nós suas ervas daninhas do mal, da exploração e da desumanidade. Ando cansado. Ando triste e cansado, de verdade. Evoluímos tão pouco em já mais de quinhentos anos de idade.

Ando cansado de ver que nossos campos não têm flores melhores que de outros campos, que nosso céu não tem mais estrelas ou amores mais belos que de outros cantos – como cantam famosos poemas nacionalistas mentirosos. E eu, de cismar sozinho à noite, até penso se não encontrarei lá, longe desta terra de palmeiras idílicas e falsas, o amor que por aqui não há. Pátria falaciosa, falsamente gostosa, madrasta mãe gentil a comer seus filhos sem ao menos ser Medeia diante de uma plateia que sofre e sangra em atos mil. Brasil do baronato, da banana, do capitão do mato, da burguesia ignorante que se quer ascendente e inteligente (mas que acredita que a Terra é plana!). Brasil dos Condes Joões, da gordura lírica e burra, da adiposidade hipócrita e racista como já apontou, com muito mais qualidade, em outros tempos, o mestre Mário de Andrade. Pátria ainda tão jovem e já tão senil: Brasil, o país do futuro? Ai, que preguiça. Ai, que cansaço.

Ando cansado de pensar sobre até quando lamberemos as botas de um militarismo idiota que vive nos ameaçando? Afinal, até quando nos submeteremos à força armada antiquada, cafona, anacrônica, velhaca de quem já deveria já ter guardado a farda no armário e colocado o pijama? Até quando seremos no mundo o que anda para trás ao ameaço da baioneta? Em ilusões de outrora, achávamos que já havíamos deixado de baixeza, que já havíamos posto de lado tanto vileza, que já havíamos subido alguns degraus da escada da civilidade mundial – mas não, nada, nonada (nos salve, Guimarães!). O silêncio de muitos e tantos, que talvez fosse medo e vergonha de ser tão ridículo e bruto, agora ganhou força, ganhou inspiração, ganhou chama. E como dói ver novamente o nome da pátria mãe na lama, como dói sabê-la matéria de ameaças, de sabê-la corpo de blefes de patifes, de sabê-la assim explorada e triste.

Ando cansado. Ando desiludido. Porém, resisto. Resisto e insisto porque não vejo outro caminho senão o do amor e o do amar. Sim, ando cansado, mas sei dentro de mim que ao fim (mesmo que muito ao fim) eles não passarão – me perdoe Quintana pela adaptação – porque nós, poemas que somos, sempre também seremos passarinhos. Por isso, sento na beira do galho o meu cansaço pátrio e descanso erguendo as asas. Ando cansado, sim, andamos – mas, como se diz por aqui, passarinho que abre as asas quer voar. E na poesia verdadeira de nosso dia, o desejo de voar de novo só pode ser em nós a esperança certeira. E há tanto, ainda, por voar! Há tanto por começar de novo e sempre, partindo de um novo ninho, partindo do ovo novinho do mesmo eterno sonhar. Ando cansado, confesso. E sei que muitos, tantos, como eu, também estão. Mas o que há mais em nosso coração de passarinhos do que o desejo de recomeçar, do que o nosso desejo vital de reaprender a voar em união? Eles passarão, sim, salve Quintana, e nós passarinhos. Acreditemos, por que não resta muito mais do que acreditar.

Ando cansado de cansar. Mas percebo que há ventos novos passando entre os galhos das árvores. E sei, em mim, que ainda há poesia. Ainda há no ar a poesia que nos move, que nos comove e nos instiga. Poesia, sempre! Jamais nos esqueçamos, mesmo cansados que estamos, que o mal não gosta de poesia – como há muito sabemos. Passarinhos, há vento, cantemos! E alcemos logo nossas asas. Se há ventos, há história. Se há poesia, ainda vivemos – e somos. Somos muitos! Somos juntos muito mais do que setenta por cento! Evoé, revoadas! É hora! Voemos.

Alexandre Bragion é editor do Diário do Engenho.

3 Comments on "Voemos"

  1. Parabéns pela crônica. Realmente cansa, mas quem tem olhos voltados para luz não se perderá em sombras, antes, se manterá aquecido no calor da esperança.
    Forte abraço.

  2. Alê obrigado por este poema lindo. Parabéns artista das palavras

  3. Sensacional. Reflete minha alma, meu estado de espirito, minha compreensão do que realmente acontece aqui no seu pais, no meu pais, no nosso pais…mas…embora ainda acredite que o mal não gosta de poesia…não consigo sentir a força de ventos novos….me parecem mais redemoinhos a deriva, desgarrados. Sim acredito também que somos muitos, mas não conseguimos nos organizar…e combater este mal entranhado, sedimentando e que todo dia mostra uma “cara” nova como um espectro estrambolico. Socorro…

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