“Que venham os brindes” – por Carla Ceres

Fim de ano, época de ganhar brindes: folhinhas, agendas, calendários de mesa… Época, também, de repassar brindes, afinal o que fazer com tantas folhinhas, agendas e companhia?

Poucas pessoas resistem a um presentinho aparentemente gratuito. Aceitamos, com alegria, aquele boné que não pretendemos usar, aquele chaveiro que acabará numa gaveta (junto com vinte outros), aquela caneta que… Olha, a questão das canetas requer um parágrafo à parte. 

Sou vítima das canetas de brinde. Quase todas elas foram inventadas para frustrar criaturas ingênuas como eu – criaturas que, quando veem uma caneta, acreditam que ela deveria escrever de verdade, não apenas rubricar uns papéis e passar o resto de nossas vidas emitindo tristes soluços de tinta. Acontece que esses instrumentos de não-escrita existem para ser belos e fazer propaganda. A tinta, como parte irrelevante e cara, não passa de um pinguinho. Por isso não abandono minhas BICs comuns e faço questão de jogar fora qualquer caneta que só sirva para fazer lavagem cerebral nos consumidores.

Sejamos francos, apenas formadores de opinião e consumidores (reais ou em potencial) ganham brindes em primeira mão. Porém, como esses sortudos costumam receber muitos brindes iguais e ter dinheiro para comprar coisas melhores, os brindes vão sendo representeados. Passam de uma pessoa para outra até chegarem a quem realmente precisa deles. No caso das canetas, quem precisa delas são os recicladores de plástico ou os colecionadores de canetas.

Minha avó era professora e recebia tantos lápis de brinde que resolveu colecioná-los. Quando veio morar conosco, trouxe quase trezentos. Eram lápis com propagandas de gráficas, livrarias, hotéis, bebidas, açougues, pontos de táxi, farmácias, remédios… Uma coleção intocável e sacrossanta, mas só até o dia em que nós, os netos, fomos pegos em flagrante usando um dos lápis para fazer tarefa. A pobre colecionadora desencantou-se com nossa ousadia e, imediatamente, perdeu todo o amor pelo tesouro conspurcado.

Colecionadores de brindes são assim. Quando o enorme valor afetivo que atribuíram à coleção se esvai por algum motivo banal, resolvem doá-la ao primeiro que aparecer. Um amigo meu enviou suas camisetas aos desabrigados de uma enchente porque descobriu uma traça ameaçadora no guarda-roupa. Benditas sejam as traças!

Gratuitos como isca em anzol, os brindes funcionam melhor quando são úteis imediatamente e entregues ao público certo. Em grandes exposições de livros ou automóveis, por exemplo, os brindes mais cobiçados pelos frequentadores são as sacolas para guardar os bonés, chaveiros, camisetas e publicações ganhos em outros estandes. E, também, os oportunos leques para combater o calor em meio à aglomeração de pessoas.

O pior brinde que já recebi foi um envelope com sementes de rabanete, oferta de um candidato a vereador. Político não tem jeito mesmo. Custava dar sementes de girassol, tão mais simpáticas? Por falar em sementes, minha amiga Anny recebeu um brinde muito fofo, como lembrancinha de uma festa infantil: um kit para cultivo de ervilhas, com vasinho, terra e tudo mais. Também quero!!! Quem tiver enjoado de brincar, por favor, repasse pra mim!

Sim, tenho condições de comprar um kit, mas a graça do brinde é ser de graça ou parecer que é.

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A autora:

 

Carla Ceres é escritora. Formada em Letras, já venceu diversos concursos literários – incluindo um concuros de microcontos promovido pela ABL.

 

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23 thoughts on ““Que venham os brindes” – por Carla Ceres

  1. Querida Carla, tão doces são suas palavras! Lembrei-me a primeira vez em que fui na Bienal Internacional do Livro em SP, como eram lindas as sacolas brindes das editoras! Beijos.

    1. Verdade, Maíra. Das Bienais do Livro, a gente sai carregando sacolas e mais sacolas com catálogos, jornais e revistas grátis. Material para ler durante um mês. 🙂 Obrigada pelo carinho! Beijos!

  2. Muito boa lembrança para a época. Melhores ainda são os brindes pelos quais pagamos. Até parece que a palavra perdeu seu sentido original, uma vez que encontramos quem nos ofereça, de graça, um brinde.
    Como sempre, uma delícia passear pelas palavras tão primorosamente ditas.
    Parabéns.

    1. Obrigada, Suzane! 🙂 Sei como são esses brindes. A gente coleciona alguns selos, paga alguns reais e “ganha” um bichinho de pelúcia. As crianças ficam doidas por essas promoções. Pobres pais! rsrsrs Beijos!

    1. Ai, ai, ai, Érico! Semente de feijão todo brasileiro conhece. Chama-se “feijão”. Acho que algum humorista sabotou a plantação de girassóis do seu parente. Tenho minhas suspeitas sobre quem tenha sido. 🙂 Legal que você gostou do texto! Beijos!

  3. Oi, Carla. Ri muito do comentário do Érico. Não há de ver que eu levo esse humorista tão a sério que me espantei com a planta nascendo trocada e só me caiu a ficha quando li sua resposta… De agora até o início de 2012 – temporada de brindes – vamos nos lembrar muito dessa sua crônica. Muito legal!
    PS: Se receberem meu comentário duplicado, podem deletar um… meu computador deu ’tilt’ quando fui enviar… 🙂

  4. Nesse momento de liquidez de sobras do ano… olhe Carla, eu teria receio em sair pedindo “mudas ou sementes” do que quer que seja! Vai quê… Sei lá… a louca aqui… plantou um abacateiro no apê… e agora olho pra ele, ele pra mim… e seriamente logo mais virá uma poda, pois que está chegando ao teto… Também, tenho outra hipótese: enviar como brinde! Boa a sua sugestão!! Outra boa pedida é deixá-lo sair janela afora e seguir pela altura do prédio de 12 andares!! Ah! Quando chegarem os abacates! Barraquinha de feira à vista!
    Beijo! Célia.

    1. Não acredito! Um abacateiro, Célia!? Vai ter que transplantar pra alguma área verde e ir visitar nos fins de semana. Aceito abacates de presente. 🙂 Beijos!

  5. Considero que o melhor brinde, que acabei de receber, foi o seu texto.
    Uma delícia de leitura, como sempre!
    Nunca tinha ouvido ninguém dizer que recebera de brinde um envelope com sementes! Só mesmo da cabeça dum político poderia sair tal ideia… 🙂
    Quanto a coleções… confesso que sou viciada, mas nada de brindes. Tenho uma coleção bastante grande de mochos – desde um com cerca de 1 centímetro, até outros maiorzinhos, mas nunca de grandes dimensões; miniaturas de frascos de perfume e (miniaturas)de garrafas de bebidas; bonecas (de vários países)…
    Brindes não coleciono, e descarto-os tão rápido quanto possível 🙂
    Coleciono também “coisinhas” minúsculas em cristal – borboletas, cisnes, vasinhos com flores… coisa assim variadas – tem é que ser pequeninas e em cristal.
    Não me alongo mais…
    Vou dar um saltinho lá ao seu blog.
    Beijinhos

    1. Que bom que você gostou do texto, Mariazita! 🙂 Minha mãe também coleciona miniaturas de perfume, bichinhos de cristal e elefantinhos. Por enquanto ela não coleciona miniaturas de bebidas e bonecas, mas pode se inspirar em você e começar. 🙂 Beijos!

  6. Hahaahha ri muito com esse texto. De fato a graça é serde graça!
    Canetas são mesmo terriveis, uma vez ganhei uma lixa de unha, foi util, aachei legal kkkkkk
    Os vasinhos sei quais são e são de fato lindos, tb fiquei com vontade!

    Excelente texto!
    Beijoooos!

    1. Valeu, Camila! 🙂 Também ganhei uma lixa de unha, de um político. Fiquei com a impressão de que ele queria que os eleitores se lixassem. 🙂 Mas foi útil, sim. Beijos!

  7. Olá Carla, que tudo sempre esteja bem contigo!

    Passar por cá é sempre garantia de ler ótimos escritos teus, assim feito este!

    A cada texto postado sempre dando seu recado. Este falando dos supostos brindes, e como os outros me fez desejar ler primeiro o fim, mas resisti e segui lendo cada parágrafo como deve ser. E o que posso dizer que já não foi dito, ora essa pra ficar sem saber o que dizer. Mas ainda assim agradeço por sempre compartilhar com os amigos belos escritos, inteligentes e repletos de humor. Fico a pensar que tais presentes, em muitos casos são verdadeiros cavalos de Tróia, ou seja, ninguém merece!
    Parabéns por mais este belo escrito neste Diário do Engenho, por falar em engenho, este final de novembro vou sentir falta do calor ai da beira do rio, e das sombras das grandes árvores desta rua de pedra do engenho, de caminhar pela rua do porto sentindo o aroma dos peixes assados, que pena que não vou poder estar ai, bem triste mesmo, após mais de cinco anos estando por ai por vezes duas no ano, e este ano somente me foi possível estar por ai no mês de agosto, e já estou com saudade de Piracicaba que tanto me faz alegre quando por aí estou, porém no próximo ano com certeza estarei por aí!
    Agradeço deveras por tuas visitas e comentários, sempre com imensa gentileza, e assim deixo sempre meu desejo que você e todos ao redor tenham intenso e feliz viver, grato também pela amizade, abraços e até mais!

  8. Lindas e belas palavras, me senti como aquela criança boba que abre um sorriso ao ganhar um folhetinho tolinho (mesmo que seja um “santinho” em época de eleições. Quem não se sente agraciado em receber um brinde, mesmo que seja a maior (ou menor) besteira do mundo! Todos querem se sentir especiais, todos querem um mimo e pode ser um brinde “pobrinho”, com ou sem significado, porque o que importa é que um brinde sempre nos remete ao contexto de que fomso lembrados 🙂

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