Os medíocres

Os medíocres

Como várias pessoas achei por muito tempo que chamar alguém de medíocre tinha peso de ofensa grave, uma afronta moral, como se isso representasse um dano ético irreparável em atribuir a alguém “qualidade” de desqualificado ou incapaz deplorável. Mas ainda na juventude entendi a necessidade da pesquisa para se descobrir o que não se sabe, fui ao dicionário e compreendi que a mediocridade não é um status moral ou motivo para insulto, antes, é uma condição, talvez até um momento solto da vida de alguém mediano, médio, limitado, modesto, pequeno, acanhado. Ou seja, não é uma doença em si mesma, não é algo que não tenha cura, não encontre solução, mas um estágio, um estado possível na vida, na história de qualquer um.

Uma pessoa medíocre pode e deve se expandir. A maioria de nós, com exceção dos gênios, passou por um momento mediano da crítica, da razão e se ampliou, evoluiu, cresceu. Há formas de se alargar a capacidade pensante e racional. O meio acadêmico, por exemplo, é uma excelente experiência para quem deseja expandir seus horizontes no campo do conhecimento e da análise. A capacidade de observação também é um caminho profícuo para uma pessoa ganhar altura, postura, serenidade, para compreender a vida, avaliar situações, formar opinião e colocar opiniões. É claro que a evolução de nossa personalidade depende também de onde estamos, de nossa convivência, dos lugares e situações que passamos. Mas, em linhas gerais, há sempre uma possibilidade, uma porta aberta para nos libertar das amarras da limitação.

Mesmo assim existe quem se negue a navegar, a ir em frente e ganhar os mares da razão. Uns por comodismo, outros, por limitação cognitiva, outros por influência, para não se indispor com alguém que lhe seja importante ou para não descontentar algum parente próximo. Mas há quem se restrinja, não por incapacidade, por ignorância ou por não ter condições de dar elasticidade aos músculos do raciocínio. Muitos têm vasta reflexão, capacidade de análise, senso crítico e até agilidade de raciocínio, mas se fazem medíocres, se atacanham, se rebaixam, por interesse, por ambição, porque lucram com a propagação da estupidez, ganham com a proliferação da limitação alheia, com a incapacidade do próximo, com a falta de compreensão de quem dele depende.

O pior, o mais nojento e vergonhoso, não é o que não consegue ou não quer se safar dessa limitação, o mais terrível está na maldade, na deslealdade, na imoralidade dos que alimentam, incentivam e sustentam a mediocridade social custeando indústrias da mentira, pânico, instabilidade e ignorância para se servirem e se esbaldarem nos braços da pobreza de espírito e da falta do saber. A esses ávidos ratos que vivem de corroer a inteligência popular é que está reservada a perdição eterna, a perdição do caráter, da honra e da admiração, pois antes de serem promotores de lucidez, trabalham para obscurecer o entendimento, antes de cuidarem do bem estar, agenciam a balbúrdia, antes de serem humanos, são seres tomados dos mais pobres sentimentos, inomináveis e totalmente deploráveis, retratos do mais profundo grau de insensibilidade e desumanidade, aproveitadores da pouca reflexão alheia, parasitas da incapacidade crítica social.

 

 

Prof. Dr. Rev. Nilson da Silva Júnior é pastor e professor

revnilsonjr@gmail.com

 


Imagem de capa: “Retrato do Louco olhando através de seus dedos” – pintura atribuída a “Maître”, 1537.

 

One thought on “Os medíocres

  1. Tento achar uma nomenclatura pra esses que alimentam e promovem o encurtamento da reflexão, que usam de má fé, mas não encontro a classificação pra esses seres… Me ajudem a chamá-los pelo nome correto!

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *