O santuário refletido no espelho – por Diógenes Moura

O santuário refletido no espelho – por Diógenes Moura

Bienal Naifs 2014 (8)

Uma pintura que vem da alma? Por que dizemos que o que vem da alma
pode ser popular num país onde o que temos de mais representativo é a
nossa própria cultura, o nosso modo de viver, de se multiplicar entre arte
e religiosidade, entre sagrado e profano, com o nosso jeito de olhar e de
sentir, dor e prazer? A arte naïf se apropria de um instante – como na
fotopintura – para em seguida imortalizá-lo em suas cenas da vida
cotidiana, com a representação da vida pública e privada, uma espécie de
espelho íntimo onde estarão representados os desejos e as esperanças de
ir do ontem e do hoje ao muito além. Trata-se de um ato de perpetuação.
Da construção de um mundo que surge de um interior profundo.

Libertos em sua expressão popular o artista naïf se desfaz do medo para
entregar-se à descoberta de si mesmo. Como na fotopintura: ao entregar
um retrato (entre os séculos XVII a XIX, nos Estados Unidos, a pintura primitivista nasceu da tradição dos retratistas amadores) para ser reproduzido da forma em que pensamos ou queremos ser, no ambiente que nos convém, entregamos aos olhos do artista fotopinturista uma parte da nossa
existência. Mas essa interpretação só será completa se houver liberdade e
mãos para trabalhar com as ferramentas que buscam os deslizes e acertos
da alma. Nem a arte naïf nem a fotopintura mentem. Trata-se de uma
renovação que também poderá ter influências eruditas (espectros do
olhar/inconsciente coletivo?), mas que se torna independente e possui
nome próprio.

Ao aproximarmos o universo da arte naïf ao universo da fotopintura
pretendemos proporcionar o encontro e a possibilidade de relermos dois
aspectos de uma manifestação artística fundamental no Brasil. Um
pertencimento que deverá ser visto e tratado não apenas com olhos “de
passagem”. Estamos lidando com linguagens definitivas para a construção
da nossa identidade e do cuidado que teremos que ter com o nosso
imaginário e com a nossa crença diante do que chamamos de memória.

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Diógenes Moura é curador da Bienal Naïfs do Brasil 2014.

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