Ulisses cobre o rosto com a veste ao ouvir o aedo cantar a guerra de Troia na corte de Alcínoo, rei dos feácios; comovido, revela sua identidade e conquista a ajuda que o levará de volta a Ítaca.
Fonte: HAYEZ, Francesco. Ulisse alla corte diAlcinoo, 1814-1816. Óleo sobre tela, 350 cm x 580 cm. Museo e Real Bosco diCapodimonte, Nápoles. Disponível em: https://it.wikipedia.org/wiki/Ulisse_alla_corte_di_Alcinoo. Acesso em: 12 set. 2026.
O percurso de Ulisses é descrito como um trajeto “do caos ao cosmos, da desordem à harmonia”: um itinerário de sabedoria, doloroso e cheio de armadilhas, cujo objetivo é alcançar a vida boa sem recusar a condição mortal. Ulisses não quer apenas reencontrar a família, mas recolocar sua cidade em ordem, pois é só entre os outros que um homem é homem. Isolado e desenraizado, separado de seu mundo, ele não é mais nada.
A prova textual vem do discurso a Alcínoo, rei dos feácios. O que Ulisses admira é a vida de um povo em harmonia: os convivas sentados para ouvir o aedo, as mesas fartas, o escanção servindo o vinho. Nada é mais doce que a pátria e os familiares; no exílio, nem a casa mais rica vale alguma coisa (Canto IX).
Ferry insiste que essa definição, a de que a vida boa é a vida com os seus, na própria pátria, não deve ser lida em chave moderna, patriótica ou nacionalista. O fundamento é cosmológico, não ideológico: a existência bem-sucedida de um mortal é a que se ajusta à ordem cósmica, da qual a família e a cidade são apenas os elementos mais visíveis. Harmonizar-se com essa ordem exige uma infinidade de experiências pessoais, como conhecer os outros, às vezes combatê-los, às vezes amá-los, civilizar-se, descobrir culturas e paisagens diversas, sondar as profundezas do coração humano e medir os próprios limites na provação. Não se torna um ser de harmonia sem atravessar tudo isso, o que, no caso de Ulisses, consome boa parte da vida.
Há ainda uma dimensão metafísica, ligada a certa representação da morte. Para os gregos, morrer é perder a identidade: os mortos são “sem nome” e “sem rosto”, tornam-se anônimos, cessam de ser pessoas. Quando Ulisses desce ao Hades, o que o angustia é a massificação, o caráter indistinto das sombras, uma indeterminação que lembra o caos inicial, e sobretudo o ruído que fazem, um burburinho confuso em que não se reconhece nenhuma voz nem se distingue palavra com sentido. É essa despersonalização que define a morte aos olhos dos gregos, e a vida boa deve ser, tanto quanto possível e pelo maior tempo possível, o contrário absoluto dessa monotonia infernal. Daí que a identidade da pessoa passe pelo pertencimento a uma comunidade harmoniosa, um cosmos.
Referência:
FERRY, Luc. A sabedoria dos mitos gregos: aprender a viver II. Tradução de Jorge Bastos. Rio de Janeiro: Objetiva, 2009. 312 p.
Rafael Gonzaga é historiador, doutor em história social pela PUC-SP.
