O exército da besta

O exército da besta

Apocalipse é uma palavra grega (αποκάλυψις, apokálypsis) que significa “revelação”. Tanto para o judaísmo como para o cristianismo é uma revelação divina, um anúncio, uma proclamação do Soberano dada a nós humanos através de um profeta escolhido por ele. Em função disso, “apocalipse” ganhou conotação de estilo literário – então se pode falar de literatura apocalíptica ou gênero apocalíptico. Mas o que mais sinaliza essa palavra, especialmente na cultura religiosa contemporânea, são os escritos de João (um dos apóstolos de Cristo) que na língua portuguesa recebe o nome de “Apocalipse” – sendo tratado, segundo essa tradição, para descrever os fatos que ocorreriam ou sinalizariam o final dos tempos.

Exatamente por isso há certo folclore em torno desse livro que mistifica os tempos como próximos ou não do fatídico encontro com o Cristo vindo para resgatar sua Igreja e julgar o mundo. Porém, a teologia aponta para o fato de que esses escritos teriam sido uma mensagem feita em linguagem codificada pelo apóstolo João que necessitava se comunicar com os cristãos, que na época eram clandestinos e caso fossem descobertos eram executados como revolucionários e subversivos. Desta maneira, as ilustrações feitas no livro serviam para driblar as autoridades que eram descritas através de monstros e seres assustadores e mesmo assim passar orientações pastorais.   

Uma das mais antagônicas personagens do livro é a besta, nada mais que a descrição do próprio imperador, ou seja, a mais terrível ameaça para o desenvolvimento da religião nascente e perigo iminente para o povo cristão que poderia perder a vida ao seu mando. Porém, essa figura mitológica ganhou atenção especial pela tradição cristã à medida em que as várias interpretações se incorporaram a ela. Já se disse que a partir do número citado para identificá-la (666), seria possível descobrir a verdadeira identidade, ou seja, a que personagem se refere no mundo atual.

Desta maneira, muitas construções e especulações feitas por pseudo-estudiosos já apontaram que a besta seria, por exemplo, o Papa ou o Presidente dos Estados Unidos ou mesmo uma personalidade expoente da sociedade contemporânea. Isso tudo tem como base um universo de mediações e apontamentos que dão conta que se trataria de um grande líder, carismático, poderoso em poder político, com influência capaz de levá-lo a manipular pessoas galgando um status para se tornar o maior e mais importante comando intelectual, político e religioso de todo o Planeta Terra.

A besta, associada à figura do próprio satanás por muito dessa cultura germinada no meio da especulação religiosa, tem sido preocupação recorrente de muita gente que anda com a bíblia na mão e o pensamento no céu. Causa medo, pavor, pânico e temor. Mas a besta do Apocalipse, mencionada por João, como já dissemos, era o Imperador, que por ter em mãos a caneta, a decisão, por ser ovacionado e mitificado por um exército de seguidores proibidos de pensar pelo próprio interesse e insensibilidade, o achavam deus e, pior, faziam-no acreditar que era – mesmo sendo um simples homem, como nós, cheio de defeitos, problemas, medos e erros, fadado ao fim, como qualquer mortal, mas que um dia se iludiu, se enganou e se deixou levar pelo próprio egoísmo e ambição. 


Prof. Dr. Rev. Nilson da Silva Júnior – revnilsonjr@gmail.com

Imagem de capa: “Lúcifer”, de Franz von Stuck (1863 – 1928)

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