O efeito do uso de máscaras

O efeito do uso de máscaras

O uso de máscaras acompanha a história da humanidade desde seus primórdios e os gregos foram os primeiros a usarem máscaras no mundo ocidental. Quase todos os povos da Terra usam máscaras para fins culturais e religiosos, mas o uso associado à transmissão de doenças data do século 17. Durante a epidemia de peste na Europa, o equipamento de proteção individual (EPI) dos médicos contava com roupa de couro, máscara de bico longo que continha palha e ervas aromáticas, proteção de vidro para os olhos e uma varinha para tocar nos pacientes e mortos (ver foto). No final do século 18, máscaras cirúrgicas começam a ser adotadas em hospitais. Entretanto, somente no século 20 foram realmente aceitas e passaram a fazer parte do universo hospitalar.

A incredulidade na utilidade das máscaras, mesmo na comunidade médica da época, é plenamente compreensível. Nos séculos passados, não havia ainda todo o conhecimento que dispomos hoje sobre microrganismos e a causa das doenças. Além disso, a difusão do conhecimento era muito difícil e lenta.

Já no século 21, pasmem ou não, todo o conhecimento acumulado em séculos de experiências, mortes e desenvolvimento tecnológico, não foi acompanhado por grande parte da população, principalmente por aqueles que vivem num planeta plano. Isso não seria um grande problema se não fôssemos de repente, ou mais precisamente em 11 de março de 2020, comunicados pela Organização Mundial da Saúde (OMS) da existência de uma pandemia causada por um vírus novo e transmitido pelas vias respiratórias. Tal fato, e não fake, obrigou a população a adotar o uso de máscaras para diminuir o risco de transmissão do novo coronavírus. Em alguns países asiáticos, como China e Japão, parte da população já adotara a máscara para uso diário nas ruas devido à poluição ambiental nos grandes centros urbanos. Mas na maioria dos países está sendo algo inédito, pelo menos para aqueles que não viveram a epidemia de gripe espanhola em 1918.

Esse hábito, amargamente digerido por muitos, produz efeitos comprovados na diminuição dos riscos de transmissibilidade da COVID-19. Outros possíveis efeitos do uso indiscriminado de máscaras ainda estão em investigação. Alguns deles podem ser apontados de imediato: na respiração, na comunicação, no estado psicológico e social.

A boa notícia é que estudos realizados com profissionais da saúde que usam máscaras do tipo N95, cuja vedação é maior que as de pano ou as cirúrgicas, por longos períodos, não mostraram alterações respiratórias significativas que pudessem contraindicá-las.

Na comunicação verbal, de acordo com estudos, as máscaras podem diminuir a inteligibilidade da fala em até 23% e em até 7% a discriminação do que é falado. Pode ocorrer suavização e ocultação do tom da voz e encobrir expressões faciais que transmitem informações não verbais essenciais, sobretudo, na comunicação com pacientes geriátricos, com demência, crianças, e pessoas com deficiência auditiva ou de fala. Estudos preliminares de parâmetros acústicos da voz através da máscara, realizados pela pesquisadora Aline Benevides na Unicamp, indicam que há alterações no modo de falar. A duração das sílabas pode aumentar, há mais pausas entre as palavras e altera a ênfase que as pessoas dão a determinadas palavras.

Entretanto, nada do que foi exposto até aqui justifica a persistência de algumas pessoas em não usar máscaras. Por que elas ainda são resistentes e negacionistas e continuam gerando polêmica?

Pesquisadores americanos e canadenses acreditam que a resposta a essa questão está na violação das três necessidades psicológicas básicas do ser humano: autonomia, sentimento de pertencimento e competência. A autonomia no sentido de que o indivíduo é obrigado por lei a usar a máscara e, assim, houve perda do poder de decisão. Já o sentimento de pertencimento estaria fortemente ligado à polarização partidária em torno da medida. Aqueles que se sentem mais representados por líderes negacionistas são contra o uso da máscara. O “pertencer” seria como um sentimento de apego interpessoal e motivação para se conectar e ser aceito pelo grupo. E por fim, a competência foi enfraquecida por fake news e falta de conhecimento médico e científico sobre COVID-19. As incertezas em relação a uma doença nova, aliada à confusão e desinformação causada pelas mensagens falsas acabam por prejudicar o julgamento de cada um sobre se devem ou não usar máscaras.

Em conclusão, duas coisas são certas: a) os efeitos benéficos das máscaras só reforçam a necessidade de usá-las, pois os efeitos “colaterais” não justificam o risco de morte; b) as máscaras vieram para ficar.

 

 

 

 

Beatriz Funayama Alvarenga Freire é médica, cantora,  atleta, doutora em medicina pela Unesp, pós-doutora pela Rijkuniversiteit Groningen – na Holanda – e mestre em linguística pela Unicamp.

 

 


Imagem de capa: equipamento de proteção individual (EPI) usado por médicos do século 17 em Nápoles (IT) durante a epidemia de peste. Fonte: https://gizmodo.uol.com.br/uma-breve-historia-das-mascaras-faciais-medicas/

22 thoughts on “O efeito do uso de máscaras

  1. Parabéns pelo artigo!
    Realmente a inteligibilidade é afetada, mas, antes usar que ter avaria ou sequela decorrente do não usar a máscara.
    Bravo!

    1. Mais uma vez obrigada por sua leitura e comentários!
      Realmente acho que as pessoas estão perdendo a noção da gravidade da situação. O longo período em que estamos mergulhados em números cada vez maior de mortes virou rotina.
      Gde abç

  2. Excelente artigo.
    A Dra Beatriz é uma estudiosa da linguística
    e da comunicação, além de excelente médica.
    Aguardo ansiosa novos artigos.
    Parabens.

  3. Parabéns Dra Beatriz .
    Com certeza, os benefícios do uso máscara supera o desconforto que elas possam causar .
    #máscarafunciona #usemáscara

  4. É impressionante como o negacionismo científico vem tomando escalas assustadoras. Sobre este ponto, acredito que o sentimento de pertencimento a um grupo seja o ponto principal para tudo isso, de maneira que a população marginalizada intelectualmente (um problema grave no Brasil) é o cerne da questão. Neste cenário, as fake news funcionam como um combustível para manter vivas as “perturbações na verdade”, que logo são esquecidas e trocadas conforme a necessidade do grupo. Por fim acredito que o cerceamento de autonomia é um agravante na situação, que não é essencial para o fenômeno mas sempre acaba aparecendo. Temos como um exemplo os terraplanistas que não têm nenhum cerceamento de liberdade a priori, mas acabam criando eles mesmos com teorias conspiratórias de que grandes instituições escondem a verdade e não os deixam ir para a Antártica…

    Novamente, muito bom o texto Bia! Fica minha opinião (vaga e leiga) sobre o negacionismo. É uma pena que isso chegue até na saúde.

    Um abraço e um beijo,
    Piva.

    1. Pois é Piva… estamos no mesmo barco vc e eu. Como cientistas que somos é muito difícil compreender o que está se passando. As possíveis explicações levantadas pelos pesquisadores na área da psicologia pareceram-me plausíveis. Creio que nós dois enfrentamos os mesmos desafios, vc com os terraplanistas convictos e eu com os anti-vax e similares. A sorte dos terraplanistas é que nunca poderão cair da borda do planeta, mas anti-vax estão morrendo.
      Mais uma vez obrigada pela leitura e comentários.
      Bjaum

    1. Obrigada Elzinha! Sim, nossa relação com ela começou na graduação. A minha “amizade” com ela tinha acabado. Mas, agora será com certeza minha parceira de novo. Bjs

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