O absoluto, o relativo, a genialidade e vice-versa

O absoluto, o relativo, a genialidade e vice-versa

Minha memória resgatou a minha terceira série, quando me foi ensinado a identificar os números absolutos e os números relativos. Aquilo era pura magia, pois o UM deixava de ser só um dependendo do lugar que ele ficava.  Ele podia se transformar em dez, em cem, em mil… ou  passar a ser menos que um… um décimo, um centésimo, um milésimo… Para isso, construímos uma tabela na qual colocávamos os algarismos: para a esquerda ou para a direita. Com isso, tínhamos os seus valores relativos. Não é mágico? O “um” deixava de ser um… e nada mais era exato. Tudo passou a depender de um ajuste no olhar.

E o que isso tem a ver com a ordem das coisas? Muito. Tem a ver com a genialidade! Sabe aquele UM centavo dos preços que ninguém se importa com o troco? Como exemplo, R$ 1,99? Então, de um centavo em um centavo que o consumidor deixa na loja porque inexiste a moeda para o troco e também por ela nada valer, no total das vendas do dia e do mês ganha-se muito… tal qual o milésimo acrescentado no valor do combustível. Mas isso é pouco. No passado, havia o “Baú da Felicidade”, que nada mais era que uma venda a prazo com pagamento antecipado cuja mercadoria nem sempre oferecia preços competitivos no mercado. Ah, o cliente também concorria a prêmios durante o ano, se pagasse em dia: inadimplência “zero” e todos os sonhos realizados, pois afinal, vendemos sonhos e entregamos alguns produtos no final. Mas o sucesso é a TELE SENA: por R$ 12,00 o cliente compra o título de capitalização e sonho da casa própria, de se tornar milionário, de mudar de vida. Vendem-se novos sonhos a curto prazo, agora mensal. E o resgate de 50% do investimento é após 12 meses, com as devidas correções previstas em lei. E quem volta depois de 12 meses para buscar seus R$ 6,00 corrigidos no ano seguinte? Enquanto isso, o Baú fica cheio esperando pelo resgate. Tudo relativo e absoluto. O um que se transforma em mil. O seis que se transforma em milhões.

E o que isso tem a ver com a ordem das coisas? Quando o Brasil acusou três mil mortes por Covid-19 por dia, perdemos o equivalente a uma cidade como Águas de São Pedro todo dia. Três mil pessoas por dia – embora seja uma Águas de São Pedro inteira – não significa nada perto de Piracicaba. Para que parar o Brasil “pararia a economia” por tão pouco”? E chegamos a mais de 430 mil mortes por Covid-19, o equivalente a perder uma cidade inteira do porte de Piracicaba. Mas o que é Piracicaba para o Brasil? Uma Piracicaba, em valores relativos, representa o que para o Brasil? Aquele centavo que ficou na loja de 1,99? Aquele 6,00 que ficou na Tele Sena? Logo as vidas perdidas representarão a população de um estado da federação. Mas “e daí”? “Todo mundo vai morrer um dia”. E a economia não pode parar. E tudo é relativo. Assim como os números recebem um valor mediante a posição que ocupam, qual o valor dessas vidas? Por enquanto, está claro que são apenas CPFs cancelados. Hannah Arendt, em uma de suas obras, narra a criação de uma multidão incapaz de fazer julgamentos morais e cumprem ordens sem questionar, não importa quais sejam. No contexto de Arendt, o mal torna-se, assim, banal. Vivemos esta banalização.

Entretanto, por mais que a vida seja relativizada, banalizada, ela é absoluta. Por mais que o Estado queira tratar as mortes por Covid-19 como algo banal, inevitável, cada ser é único e para usar de um lugar comum, insubstituível, como é qualquer CPF. Não teremos outro humorista como Paulo Gustavo. Não teremos outra mãe como Maria ou outro pai como José. Assim como cada um tem só uma mãe, só um pai, um único amor, a singularidade de cada filho. Na sua singularidade deveria ser tratada a vida. Em seu valor absoluto. Na importância que cada uma dela tem na composição de cada célula familiar, na importância que cada ser tem para a composição da sociedade. Isso considerado, evitaríamos uma cadeia de órfãos afetivos que cobrarão amparo social num futuro próximo. Assim como fortunas são formadas com centavos ou reais esquecidos ou deixados para trás e acumulados em cofres, essas vidas se poupadas serão valiosas para a sociedade pela absoluta importância que têm no espaço que ocupam.

Enfim, temos o absoluto, o relativo e a genialidade e 430 mil vidas perdidas. E essas perdas diárias que passaram a fazer parte do nosso cotidiano não podem ser banais, relativizadas. São vidas singulares e cada uma delas é importante e merece o cuidado, o respeito, o tratamento que o que é único merece. O conceito de genialidade, aqui, deve ser o de prevenir mortes e acumular vidas absolutas. Uma a uma.

 

 

 

 

 

Elder de Santis é professor e mestre em Educação pela Universidade Metodista de Piracicaba – Unimep.  

 

 


(Foto de capa: Roque de Sá/Agência Senado)

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