Warburg, Homero e o Monumento ao Soldado Constitucionalista de Piracicaba.
Furtaram a espada. Ela ficava sobre o Mausoléu do Soldado Constitucionalista, no Cemitério da Saudade, erguido em 1933 sobre os corpos dos piracicabanos mortos na revolução do ano anterior: dezessete, de cerca de novecentos que se voluntariaram. Era bronze, e simbolizava justiça, democracia e coragem; virou porcaria vendida a peso na madrugada. A reação previsível é se entristecer, e ficar triste é justo, mas a tristeza se esgota depressa. Prefiro olhar a coisa de outro ângulo: vivemos um tempo em que a Notre-Dame arde, museus nacionais viram cinza, acervos inteiros se perdem em incêndios que ninguém consegue explicar direito. São episódios sem qualquer relação causal entre si, e é precisamente isso que assusta. Eles convergem sem se conhecerem, como sintomas de um mesmo mal-estar difuso: a suspeita, cada vez mais confortável, de que o passado é um peso morto e a cultura, um enfeite.
Essa suspeita tem nome. É o utilitarismo, e ele nos ensinou a perguntar de tudo para que serve. Como a arte não responde bem a essa pergunta, foi rebaixada a passatempo. Mas basta atravessar uma praça arborizada e depois um corredor de concreto sem sombra para descobrir que a forma nos governa muito antes de nos convencer. A arquitetura de uma cidade decide nosso humor, nossa pressa, nosso modo de encontrar ou evitar o outro. Não se trata da intenção de quem projetou. Trata-se da forma, e a forma nos afeta por vias que raramente percebemos.

Foi esse furto que me fez atravessar a cidade e olhar de novo, com atenção, o outro monumento ao mesmo episódio, o da Praça José Bonifácio, diante do qual passo há anos.
E foi Aby Warburg, historiador da arte por muito tempo esquecido nas reservas técnicas das universidades e hoje finalmente celebrado, quem deu a essa intuição um instrumento: a Pathosformel. Fórmula de páthos, fórmula do afeto. Certos gestos de dor, de despedida, de súplica atravessam milênios e reaparecem intactos onde ninguém os convocou. Michelangelo talha uma mãe com o filho morto no colo; séculos depois, um fotógrafo diante de uma tragédia tira dez fotos da mesma cena, em ângulos diferentes, e escolhe, entre as dez, exatamente aquela que repõe a Pietà. Ele não citou nada. A fórmula é que o escolheu.


Diante do nosso monumento, arrisco uma hipótese que não tenho como provar, e não se trata de prova, aqui não medimos a esfericidade da terra. Numa das faces do conjunto, um soldado se despede: abraça e beija a mulher que segura o filho no colo, enquanto a outra mão pousa sobre a cabeça de uma segunda mulher, ajoelhada, o rosto tomado pelas mãos. Mãe, irmã, quem seja. O gesto é o mesmo de uma das passagens mais altas da Ilíada, há quase três mil anos: Heitor, sabendo do próprio destino, encontra Andrômaca junto às Portas Esqueias antes de voltar ao combate que o matará. Todos ali terão fim trágico.

Há, porém, uma diferença que faz toda a diferença. Em Homero, o gesto decisivo é Heitor tirando o elmo: o bebê se assusta com a crina de cavalo, e o pai desarma a cabeça para poder ser pai por um instante. No bronze de Piracicaba, o soldado permanece capacetado. Não pode largar a guerra nem por um segundo, nem para segurar o próprio filho. O escultor talvez nem tenha pensado nisso. A fórmula pensou por ele, e o que ela diz é duro: em 1932, como agora, ninguém tira o elmo.

Resta lembrar o que aquele soldado encarna. Independentemente do lado, da causa e de quem lutava contra quem, ali está o gesto mais antigo da cidadania, porque política, na Grécia clássica, não era outra coisa senão cuidar da cidade, saber que não se está sozinho, que é a comunidade que ancora a vida boa de cada cidadão. Vivemos hoje presos cada um em sua tela, conectados a redes e algoritmos e desconectados uns dos outros, muitas vezes sem ninguém com quem conversar além de uma inteligência artificial. Um monumento que condensa Homero, a Pietà e a defesa de uma constituição não é pedra decorativa: é uma frase que a cidade escreveu para si mesma. Arrancar delauma palavra de bronzeé apenas a forma mais visível de um adoecimento da comunidade que vem de longe e não parou.
Rafael Gonzaga é historiador, doutor em história social pela PUC-SP
