“Mas Cadê as Velas?” – crônica de Suzane Alaíde Lindoso

Recife dos anos 70.  Ruas com cheiros. Sons próprios. Cores infinitas.

– Filha, vá até a venda e compre velas e fósforos. Cuidado pra não perder as moedas, visse? Não pare no meio do caminho, menina avoada!

– Tá bom, mainha! Quantas velas a senhora quer?

– Um pacote. E vá logo, está demorando demais.

Assim saiu de casa Ione, rumo à venda de Seu Matias. Ao andar pela rua logo pôde sentir o marcante cheiro de “natal”, como gostava de se referir ao odor característico das árvores naquela época do ano.

Apesar de gostar de estar na rua, a venda era um espetáculo à parte.  Bem sortida, tinha de vidros cheios de confeitos coloridos a barbantes, cordas e afins.  Chegando, Ione teve de esperar, pois Seu Matias estava bastante ocupado.

Que sonho, chegar à venda e encontrá-la cheia! Eram tantas as coisas a serem vistas que todo o tempo do mundo era pouco. Como ali vendia-se fumo, charque, linguiça, queijo, o cheiro era forte, chegando a ser asfixiante. Porém, tudo aquilo dava margem para a imaginação fluir, solta, totalmente livre. E era o que sempre acontecia a Ione quando chegava à indescritível venda de Seu Matias.

Naquele dia não foi diferente. A grande desculpa para estar ali eram velas e fósforos, mas o que sempre a atraía era o intrigante mistério que se escondia atrás daquele balcão de madeira já bem escura e marcada pelo tempo.

Por que mistério? Primeiro porque era quase uma muralha que separava seu dono dos prosaicos clientes. Muralha, sim! Era alto, largo, impedia qualquer tentativa de aproximação. Outra razão era que o mais interessante encontrava-se do lado de lá. Distante. Provocante.

Quando Seu Matias precisava se abaixar para pegar algo era o momento de maior tensão. O que traria daquele  mundo insondável o pobre homem já tão gasto pelo passar lento das horas, dos dias? Ora eram apenas parafusos, ora um retrós de linha ou ainda uma caneta esferográfica.

Mas a vida da pequena menina deixou de ser a mesma no dia em que viu sair de trás do balcão do Seu Matias uma caixinha dourada. Os olhos brilharam, queriam sair da órbita para descobrir o que estava encerrado, escondido, bem guardado ali.

O modo como fez chegar o pedido ao cliente foi ainda mais intrigante. Parecia que tudo se fazia às escondidas, por debaixo do pano. Completamente absorta, tentando descobrir o que emergiria das profundezas do balcão naquela manhã cheirando a natal, assustou-se com a nada suave voz:

– Fale, menina! O que quer hoje?

– Bom dia, Seu Matias! Quero uma caixa de fósforos. – falou com um olhar matreiro.

– Vai marcar na caderneta?

– Não, trouxe dinheiro, mas mainha pediu o troco.

– Aqui .

– Obrigada, visse?

E saiu com a compra bem segura nas mãozinhas, a observar a rua, a sentir seu cheiro, a alegrar-se com as cores das árvores, a divertir-se com os pássaros pequenos e rápidos.

Apertou o pacote, pensando em voltar ao encantado reino da fantasia que habitava a venda de Seu Matias.

-Filha, cadê o que foi comprar?

– Taqui.

– Mas cadê as velas?

-Xiiiii! Esqueci, mainha. Vou ter de voltar lá!

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A autora:

Suzane Alaíde Lindoso da Silva

Nasceu no Recife (PE),  na década de 60, e reside em Piracicaba desde 1992. Estudou na Universidade Estadual do Ceará, onde cursou Letras. Desde que aportou por aqui, é professora de Língua Portuguesa no Ensino Fundamental e Médio. Professora do Colégio Piracicabano, é apaixonada por textos, livros, palavras!

44 Comments on "“Mas Cadê as Velas?” – crônica de Suzane Alaíde Lindoso"

  1. Oi, Suzane! Gostei do seu texto. Passei a virada de 2010/2011 em Recife. Existe sim um cheiro de Natal no ar, cheiro de clorofila festiva. Já a venda do Seu Matias lembra minha infância. Seu texto trouxe ótimas recordações. Beijos!

    • Fico feliz por ter gostado do texto. O mais interessante é que a venda faz parte da minha infância, ela existiu de verdade.
      Que delícia provocar em você também esta viagem ao passado.
      Um abraço.

  2. Suzane, que delicia ler o seu texto. Que riqueza de detalhes que nos faz sentir parte do texto. Que honra conhecer a voce e ter seu sangue nas minhas veias! 🙂 Bjo grande!

  3. TÂNIA O'GRADY FELIPE | 28 de abril de 2011 at 19:09 | Responder

    SUZANE, COMO FOI BOM LER E VIAJAR NA SUA RIQUEZA DE DETALHES POR RECIFE… COMO DIZ A MÚSICA, “VOLTEI, RECIFE, FOI A SAUDADE QUE ME TROUXE PELO BRAÇO…” BELA CRÔNICA. PARABÉNS!

  4. Suzane Adorei! lindo texto, realmente quando lemos fazemos parte do conto!!!! beijos querida!

  5. Oi, Su! Adorei o texto! E me deu vontade de conhecer os “cheiros, cores e sons” de Recife… Não me surpreendi com o gênero, pois acho que o humor (especialmente o BOM HUMOR), faz parte da sua pessoa.

    Grande beijo!

  6. Suzane , será que essa menina recifense ,não habita vc até hj? adorei o texto ,muito interessante e bem escrito.Quero mais ,adoro crônicas e dos amigos melhor ainda.Parabéns,invejo quem possui esse dom de fazer as palavras fluirem de forma tão encantadora,e principalmente transformar o cotidiano em belas histórias.mil beijos.Regina.

  7. Mana Nane,
    A menina da história bem podia se chamar Ester! Scotty diz que a frase que eu mais falo é “Ah, esqueci!!!” 😉 Ótima história! Bjs com saudades

  8. Samantha Pereira | 29 de abril de 2011 at 0:46 | Responder

    Suzane, parabéns pelo texto. Me lembrei da venda do Amadeu, na esquina da casa da minha avó, lá em Rosário do Sul/RS. Era mais ou menos assim… Tinha até a caderneta… Muito bom!!

  9. Oi Suzane.
    Ao ler o texto, parecia que estava ouvindo sua voz… com seu sotaque gostoso…, me fazendo sentir como se eu fosse a menina (que atrevimento o meu…rs…rs…). A leitura só fez aumentar a vontade de conhecer Recife.
    Parabéns!

  10. Tiazinha, amei!!! Você conseguiu nos levar ao passado, com todos os detalhes descritos no seu texto. Ai seu Salu, que era o misterioso dono da venda, onde também anotava na as compras na tal cadernetinha….
    Que delicia de texto!!!! Sempre fui e serei, sua fã.
    Beijão

  11. Tia Suzane, lindo texto… casarões antigos,hum… esse texto dá saudade de uma época que eu não vivi, mas já li nos livros e que ainda vejo em parte mas antigas aqui em Fortaleza. Muito lindo e muito gostoso está sensivel crônica de sua autoria.
    Espero ler outras da minha tia querida que me ensinou a amar os livros!
    beijos!

  12. Bela crônica, Suzi. Não fui criado em Recife, mas tive vendas por perto na minha infância e adolescência e me recordo de levat comigo a caderneta para que o dono da venda anotasse o que foi gasta. para meu pai pagar no final de semana. Bjo grande

  13. Oi Su, lindo texto!! fiquei emocionada……
    Lembrei da minha infância, na verdade não era uma venda e sim uma sorveteria, onde D. Laura (uma senhora magrinha de cabelos brancos)e seu esposo Batista (um senhor muito distinto) nos atendia de forma peculiar….a sorveteria era, realmente, um universo a parte…..

    beijos e parabéns pelo texto

  14. Oi Suzane!!! E Livia filha de Jezimar e Rosa, a cacula!!! Amei ler seu texto, e relembrar o tempo de crianca indo a vendinha comprar nao velas mais balas hehehe!!! Parabens e que Deus continue a te abencoar!!!

  15. Oi,Suzane!

    Parabéns pela linda crônica e pelo sucesso que ela vem fazendo. Quantos acessos e quantos cometários! Muito legal! Parabéns!

    Em nome de toda a equipe do “Diário do Engenho,” eu agradeço a você por essa tão especial colaboração.

    Cordiais saudações.

    Alê Bragion

    • Na verdade se há quem deva agradecer sou. Nunca pude prever que a receptividade seria tamanha!
      Agradeço de coração esta oportunidade ímpar.
      Um grande abraço.
      Suzane

  16. Maninha, meus parabéns pela singela crônica, que nos leva de volta a um tempo mágico de nossas vidas: a infância. E em particular, me fez lembrar de uma experiência intrigante vivida com painho (Pastor Lívio Lindoso), a caminho da venda do Seu Matias. Há uns cem metros da venda, três sujeitos surgiram como do nada, e um deles nos falou em voz alta e firme: “isto é um assalto”! Eu, com meus cinco aninhos de vida, pressenti que a situaçao fugia à normalidada do nosso cotidiano. Assustado fiquei. Painho soltou um grito, com aquele vozerao de Pastor – SOCORRO, ESTAO ME ASSALTANDO. Mas foi tao forte, tao forte, que os três bandidos se assustaram mais do que eu, e dispararam em todas as direçoes. Um deles, totalmente em pânico, subiu numa árvore e ali ficou até chegarem os bombeiros, que escutaram lá do Corpo, o grito de painho. Este foi preso, os outros dois fugiram.

    • Querido mano, fico muito feliz por ter conseguido promover em tantos uma feliz viagem à infância e, em especial, a nós para quem a venda de seu Matias foi uma realidade.
      Obrigada pelo carinho.

  17. Linda crônica, Suzane!
    Saudade da infância,onde as coisas eram mais misteriosas…

    • Obrigada pelas palavras. A verdade, muitas vezes, ainda não é crua quando somos crianças e isto é muito bom. Mas podermos lembrar dela também é bom, não?
      Beijos.

  18. Oi, Suzi. Simples e singelo. Levou-me à Usina Aliança, município de Aliança (PE), não pela caderneta de seu Matias, mas pelo retorno à infância, quando as coisas parecem tão encantadoras e eternas. Chega a me dar uma querência de que o mundo tivesse parado ali. Lembrou-me um instante de Dieguito, em sua adolescência, quando ele me falou: “Mãinha, eu não queria crescer não. Eu não queria ser adulto não, pois é tão difícil e complicada essa vida dos adultos. Gostaria de viver eternamente esse momento: a senhora cuidando da gente, eu indo à escola jogar bola, conversar com os amigos e voltar pra casa e encontrar você, cuidando da gente.” Pois é, querida, mas se a vida tivesse parado na minha infância, eu teria perdido a alegria de encontrar pessoas maravilhosas no meu caminho, inclusive, os meus queridos filhotes. É o tempo não para. Beijos

  19. Suzane, parabéns pelo belo e emocionante texto. Estou super orgulhosa de vc. Continue produzindo e nós presenteando com tão lindas histórias.
    Beijos,
    Jaque

  20. Suse,

    Adorei seu texto, rí de ouvir sua risada, com certeza das suas últimas frases, eu me transportei para perto de você, narrando o finalzinho e rindo uma gargalhada gostosa, peculiar sua! E lembrei da minha infância em Natal, e da inocência de ser criança, quando íamos comprar coisitas na venda de seu fulano de tal, aí que saudade do tempo que não volta mais!!
    beijos da cunhada que te adora.

  21. Su,
    Que prazer ler seu texto…você nos transportou para aquele mundo de cores e cheiros…e como observadora curiosa vi você andando pelas ruas de Recife em busca de velas e fósforos, visse?
    Como gostei do final! Por que será que a menina esqueceu as velas? 🙂
    Parabéns pelo belo trabalho…espero ler muitos outros!
    Beijo grande!

  22. Olá Suzane!
    Que legal tenho amigas famosas! (risos…)
    Me reportei novamente às ruas do centro antigo de Recife, estreitas, arborizadas, perfumadas…
    Parabéns pelo talento!
    Ah! Presentei-nos sempre com tão saborosas leituras.
    Abraços.

  23. Adriana (sua prima 2ª) | 16 de maio de 2011 at 19:40 | Responder

    Oi, prima!!! Eu sabia que vc um dia iria usar seu conhecimento em letras para escrever. Que bom, pois vai agradar quem procura uma leitura leve, regional e bem humorada. Parabéns!!!
    Beijos.

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