Fila dos Ossos

Fila dos Ossos

Há poucos dias a imprensa noticiou sobre a enorme fila que se formou num açougue de Cuiabá – MT que resolveu distribuir gratuitamente à população os ossos que sobram das carnes. Uma pessoa desse açougue comentou que alguns começavam a roer os ossos crus, assim que recebiam de tanta vontade de comer carne. Foi espantoso ver quanta gente se aglomerou a procura daqueles ossos. Claro que a fila foi composta por pessoas carentes, as muitas que voltaram à linha da miséria, as que perderam seus empregos durante a pandemia, que foram pra rua com suas famílias inteiras, as que estão à margem do que se pode chamar de dignidade, a multidão que volta a passar necessidade de tudo, de atenção social, de comida, de saúde e emprego. São milhões de pessoas novamente a vagar desesperadas, milhares de pais e mães que se acotovelam por um pedaço de osso, na esperança de matar a fome de seus filhos.

Mas elas não estão sós. Aquela fila também abriga outras que até acreditam que estão longe, que estão isentas daquela dor, que não têm nada a ver com os milhões representados por aqueles cuiabanos que se enfileiram na tortura da espera por uma migalha que cai da mesa dos que comem a carne de seus ossos. Ali também estão os que podem, os que têm autoridade, os que têm caneta para decidir por socorro, por emprego e bolsas miseráveis que tragam ao menos um punhado de arroz e feijão. Ali está a omissão dessa gente que se refrigera nos ares condicionados dos gabinetes, ali está a ganância dos acordos, favores, arranjos e negociações de milhões e milhões e milhões de reais para engordar seus próprios gostos, apetites e bolsos.

Naquela fila também estão os milhares de empresários milionários, comerciantes, negociantes que se preocupam tanto com seu negócio, com seu capital, seus lucros e riscos a ponto de esquecer-se da carne, da dor, do suor e da aflição de quem não tem nenhum recurso, nenhum trabalho, nenhuma oportunidade para também prosperar, porque num país sem oportunidades como o nosso, se não houver apoio, sustento, amparo, dificilmente alguém sai da rua, da carência e da tragédia das filas. Naquela fila estão as “megaigrejas”, cercadas de muros e guardas, preocupadas em angariar e angariar e angariar, como se flutuassem numa “espiritosfera” onde todo o mal do mundo não lhes atingissem e o olhar do Poderoso não lhes alcançassem. Ali está um exército conivente, um Judicário passivo e um Legislativo omisso. Mas, sobretudo, na “Fila do Osso”, estão as pessoas que dão de ombro, que viram o rosto, que desconversam e tentam de todas as maneiras colocar a culpa neles mesmos, nos carentes, nos desamparados. Essa gente é a gente que não grita por ninguém, nem por ela mesma, não acha ruim, e até acha normal tanta desigualdade. É gente que vive de se olhar no espelho, de cuidar do próprio umbigo, como se vivesse numa Ilha da Fantasia, onde somente os seus vivessem e necessitassem viver. Uma gente que se veste de indiferença e arrogância, cercada de orgulho e preconceito.

Pensando melhor, acho que nós todos estamos na fila, aceitando osso como alimento, contentados com muito pouco, com a escória do mundo, com o descarte, com o que há de pior. Estamos todos esperando ossos de um vale de “ossos secos” chamado Brasil. Seco de sensibilidade, seco de verdadeiro cristianismo, de solidariedade, de pensamento crítico e até inteligência! Somos nós, povo brasileiro, que aceita essa situação! Somos nós que nos contentamos com os despojos putrefatos da dignidade e aceitamos calados a falta de vergonha e de respeito, as palavras de baixo calão, a truculência e o descaso de quem nos serve com restos fétidos e nojentos daquilo que algum dia foi um país.

 

 

Prof. Dr. Rev. Nilson da Silva Júnior.

revnilsonjr@gmail.com

 


 

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